É também um bom negócio para o governo federal, pressionado desde a década de oitenta com a necessidade de equilibrar as contas externas. Manter reduzida a importação de leite significa poupar dólares e melhorar a condição do balanço de pagamentos. Além disso, o setor contribui com a geração de empregos. Numa simulação que fiz com o Prof. Dr. Joaquim Guilhoto, da Esalq/USP, encontramos um interessante resultado: a cada R$ 5.081,00 vendidos de leite e derivados, é gerado um emprego permanente na economia brasileira. É, portanto, relativamente barato gerar empregos via cadeia produtiva do leite, se comparado com setores que usam capital mais intensivamente, como a fabricação de automóveis.
Para a rede varejista é também um bom negócio. Afinal, os derivados lácteos são garantia de receita, pois são consumidos por todas as famílias, têm um giro rápido no estoque e ainda funcionam como atrativo para vendas de outros produtos de maior valor agregado.
Para a indústria de máquinas e implementos e de insumos e serviços destinados à produção de leite e derivados, é também um ótimo negócio. Senão, como explicar o crescente investimento feito por empresas de maquinaria, embalagem, venda de sêmen, concentrados e produtos veterinários, por exemplo? Como explicar o crescente interesse de empresas transnacionais no nosso mercado? Essa lógica também vale para as empresas de laticínios.
Cerca de 50% do leite produzido no Brasil não é consumido na forma de derivados lácteos, pelas famílias. A metade da produção é destinada a outros setores da economia, para serem transformados em outros produtos, principalmente alimentares. Para estas empresas de transformação, que compram lácteos, leite é um bom negócio, pois é insumo essencial, fácil de ser obtido junto aos laticínios. Não há risco, portanto, de escassez ou grandes custos de transação envolvidos especificamente nessa etapa.
Para o consumidor, que tem de maximizar sua satisfação, dada a sua renda, leite é, sem dúvida, um bom negócio. É uma forma barata de obter proteína animal, os produtos são diversificados e facilmente encontrados. Além disso, o preço que o consumidor brasileiro paga por um litro de leite longa vida equivale ao preço mínimo, de garantia, disponível para o produtor americano!
E para o produtor de leite? É bom negócio? Sem dúvida que sim! Os dados mostram isso. Se não é bom negócio, como explicar o crescimento da produção nacional em três décadas, que saiu do patamar de 7 bilhões e foi para 21 bilhões de litros anuais, entre 1970 e 2001?
A tendência de crescimento da produção se mantém firme, apesar de problemas conjunturais sempre ocorrerem, e da nefasta penalização imposta aos produtores. A produção cresceu em diferentes cenários: em períodos de controle e de liberação de preços, de inflação alta e inflação controlada, em períodos de crescimento econômico e de recessão (veja o gráfico abaixo).
Quando circulamos pelo centro da cidade, ou vamos a um shopping, e depararmos com uma nova loja que se abriu, esquecemos que ali existia uma loja que se fechou. Nossa atenção é para a nova loja. No caso do leite, ocorre o contrário. As atenções se voltam para as propriedades que abandonaram a atividade. A notícia é a venda do plantel. Não nego, todavia, a relevância de se discutir tal questão. Tanto que pretendo abordá-la proximamente. Mas os dados agregados não dão sustentação para afirmação frequente de que leite é um mau negócio!
Dados de propriedades também não. Participei de equipe da Embrapa Gado de Leite que procedeu a um minucioso levantamento de custos em propriedades leiteiras, recentemente. Com base em dados do IBGE e em consultas com especialistas, identificamos 10 regiões nos cinco principais estados produtores de leite que mantinham vitalidade. Juntos, Minas Gerais, Goiás, Paraná, São Paulo e Rio Grande do Sul produzem próximo de 70% da produção nacional. Em cada uma das regiões, selecionamos 15 propriedades, considerando as características de manejo e raça da região e somente propriedades com pelo menos 70% da renda advinda com produção de leite. O período de análise correspondeu a agosto de 2000 a julho de 2001. Além disso, para avaliar o desempenho, consideramos a metodologia de setorização de custos, proposta pelo pesquisador Luiz Carlos Takao Yamaguchi. Por esse critério, foram apurados isoladamente os custos da produção de alimentos, de recria e de produção de leite. Embora seja inovador na atividade leiteira, a setorização de custos é largamente empregada na indústria e no setor de serviços.
Quando analisamos somente o setor de produção de leite, todas as 150 propriedades obtiveram receita superior ao custo variável, ou seja, ao custo com aquisição de alimentos, medicamentos, pagamento de mão-de-obra, transporte, contribuição social, dentre outros. Quando incorporamos os custos de capital (benfeitorias, terra, vacas, dentre outros) somente 26 propriedades mostraram-se deficitárias. Na média, todas as dez regiões foram lucrativas, conforme mostra o gráfico abaixo. Ou seja, cobriram todos os custos, o que inclui a remuneração do capital, e ainda deram lucro. Em economia, se o lucro é zero, já é bom negócio, em princípio, pois todos os fatores envolvidos já foram remunerados.
Que fatores contribuem para que uma propriedade leiteira seja lucrativa? Por ser assunto que merece detalhamento, discutiremos numa oportunidade bem próxima.
( A SEGUIR, OS GRÁFICOS)
