Leite é um bom negócio !

Bom negócio para quem? Cabe a pergunta. Para os governos estaduais, pois arrecadam, via ICMS, mais do que retornam para a cadeia produtiva do leite.

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Bom negócio para quem? Cabe a pergunta. Para os governos estaduais, pois arrecadam, via ICMS, mais do que retornam para a cadeia produtiva do leite, em prestação de serviços. O principal imposto incidente sobre os produtos lácteos é o ICMS. De acordo com o IBGE, em 1996 os laticínios pagaram R$ 2,1 bilhões deste imposto. Este valor não reflete o quanto paga a cadeia produtiva do leite, pois não considera o ICMS imbutido nos insumos que o produtor adquire e nem o que é pago na comercialização, ou seja, até os derivados chegarem ao consumidor. Mesmo assim, o volume de recursos é expressivo e desproporcional. O faturamento dos laticínios naquele ano correspondeu a 1,3% de toda a economia. Mas a sua contribuição com ICMS foi de 4,1% do total arrecadado no Brasil com este imposto. É, portanto, três vezes mais, em termos relativos, se comparado ao faturamento dos laticínios.

É também um bom negócio para o governo federal, pressionado desde a década de oitenta com a necessidade de equilibrar as contas externas. Manter reduzida a importação de leite significa poupar dólares e melhorar a condição do balanço de pagamentos. Além disso, o setor contribui com a geração de empregos. Numa simulação que fiz com o Prof. Dr. Joaquim Guilhoto, da Esalq/USP, encontramos um interessante resultado: a cada R$ 5.081,00 vendidos de leite e derivados, é gerado um emprego permanente na economia brasileira. É, portanto, relativamente barato gerar empregos via cadeia produtiva do leite, se comparado com setores que usam capital mais intensivamente, como a fabricação de automóveis.

Para a rede varejista é também um bom negócio. Afinal, os derivados lácteos são garantia de receita, pois são consumidos por todas as famílias, têm um giro rápido no estoque e ainda funcionam como atrativo para vendas de outros produtos de maior valor agregado.

Para a indústria de máquinas e implementos e de insumos e serviços destinados à produção de leite e derivados, é também um ótimo negócio. Senão, como explicar o crescente investimento feito por empresas de maquinaria, embalagem, venda de sêmen, concentrados e produtos veterinários, por exemplo? Como explicar o crescente interesse de empresas transnacionais no nosso mercado? Essa lógica também vale para as empresas de laticínios.

Cerca de 50% do leite produzido no Brasil não é consumido na forma de derivados lácteos, pelas famílias. A metade da produção é destinada a outros setores da economia, para serem transformados em outros produtos, principalmente alimentares. Para estas empresas de transformação, que compram lácteos, leite é um bom negócio, pois é insumo essencial, fácil de ser obtido junto aos laticínios. Não há risco, portanto, de escassez ou grandes custos de transação envolvidos especificamente nessa etapa.

Para o consumidor, que tem de maximizar sua satisfação, dada a sua renda, leite é, sem dúvida, um bom negócio. É uma forma barata de obter proteína animal, os produtos são diversificados e facilmente encontrados. Além disso, o preço que o consumidor brasileiro paga por um litro de leite longa vida equivale ao preço mínimo, de garantia, disponível para o produtor americano!

E para o produtor de leite? É bom negócio? Sem dúvida que sim! Os dados mostram isso. Se não é bom negócio, como explicar o crescimento da produção nacional em três décadas, que saiu do patamar de 7 bilhões e foi para 21 bilhões de litros anuais, entre 1970 e 2001?

A tendência de crescimento da produção se mantém firme, apesar de problemas conjunturais sempre ocorrerem, e da nefasta penalização imposta aos produtores. A produção cresceu em diferentes cenários: em períodos de controle e de liberação de preços, de inflação alta e inflação controlada, em períodos de crescimento econômico e de recessão (veja o gráfico abaixo).

Quando circulamos pelo centro da cidade, ou vamos a um shopping, e depararmos com uma nova loja que se abriu, esquecemos que ali existia uma loja que se fechou. Nossa atenção é para a nova loja. No caso do leite, ocorre o contrário. As atenções se voltam para as propriedades que abandonaram a atividade. A notícia é a venda do plantel. Não nego, todavia, a relevância de se discutir tal questão. Tanto que pretendo abordá-la proximamente. Mas os dados agregados não dão sustentação para afirmação frequente de que leite é um mau negócio!

Dados de propriedades também não. Participei de equipe da Embrapa Gado de Leite que procedeu a um minucioso levantamento de custos em propriedades leiteiras, recentemente. Com base em dados do IBGE e em consultas com especialistas, identificamos 10 regiões nos cinco principais estados produtores de leite que mantinham vitalidade. Juntos, Minas Gerais, Goiás, Paraná, São Paulo e Rio Grande do Sul produzem próximo de 70% da produção nacional. Em cada uma das regiões, selecionamos 15 propriedades, considerando as características de manejo e raça da região e somente propriedades com pelo menos 70% da renda advinda com produção de leite. O período de análise correspondeu a agosto de 2000 a julho de 2001. Além disso, para avaliar o desempenho, consideramos a metodologia de setorização de custos, proposta pelo pesquisador Luiz Carlos Takao Yamaguchi. Por esse critério, foram apurados isoladamente os custos da produção de alimentos, de recria e de produção de leite. Embora seja inovador na atividade leiteira, a setorização de custos é largamente empregada na indústria e no setor de serviços.

Quando analisamos somente o setor de produção de leite, todas as 150 propriedades obtiveram receita superior ao custo variável, ou seja, ao custo com aquisição de alimentos, medicamentos, pagamento de mão-de-obra, transporte, contribuição social, dentre outros. Quando incorporamos os custos de capital (benfeitorias, terra, vacas, dentre outros) somente 26 propriedades mostraram-se deficitárias. Na média, todas as dez regiões foram lucrativas, conforme mostra o gráfico abaixo. Ou seja, cobriram todos os custos, o que inclui a remuneração do capital, e ainda deram lucro. Em economia, se o lucro é zero, já é bom negócio, em princípio, pois todos os fatores envolvidos já foram remunerados.

Que fatores contribuem para que uma propriedade leiteira seja lucrativa? Por ser assunto que merece detalhamento, discutiremos numa oportunidade bem próxima.

 

( A SEGUIR, OS GRÁFICOS)

 

 

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Paulo do Carmo Martins

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jose carlos ninin
JOSE CARLOS NININ

SERTÃOZINHO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 22/07/2014

foi bem explicado parabéns
Fernando Affonso Ferreira
FERNANDO AFFONSO FERREIRA

ITABUNA - BAHIA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 09/04/2003

Professor,

Muito bom seu artigo. Gostaria de saber se os estudos continuaram nas mesmas fazendas depois de julho/2001, quando a queda dos preços foi violenta.

Gostaria de ver tambem comparativos de outras atividades com a de produzir leite. Sei que vendendo as vacas, novilhas, equipamentos, terra, teria certamente melhor resultado no comercio ou serviços.

A atividade é feita por "malucos" como eu que acreditam que um dia o produtor vai se unir e poder ter o respeito que merece de toda a cadeia produtiva.
MARIA LUCIA ANDRADE GARCIA
MARIA LUCIA ANDRADE GARCIA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 02/04/2003

O artigo conclui erroneamente sobre a boa situação dos produtores de leite com base em série histórica de crescimento da produção de leite de 31 anos e em pesquisa de custo/lucro dos produtores referente a período de um ano, anterior ao aprofundamento da crise do setor leiteiro, iniciada em julho de 2001, e que em novembro de 2001 registrou os valores mais baixos de preço do leite da história (v. Será este o ano do leite?). A afirmação de que os produtores estão chorando de barriga cheia não procede, e a quebradeira foi real mesmo e boa parte das liquidações de fins de 2001 e que se estendeu por 2002 decorreu disso, levando á retração da produção em 2002 e pelo jeito em 2003 também.

<b>Resposta do autor </b>:

Prezada Sra. Maria Lucia,

A qualidade do seu texto demonstra nível intelectual e conhecimento elevados, o que honra-me e certamente também à direção do MilkPoint.

Nao afirmei, contudo, que os produtores estavam em boa situação ou chorando de barriga cheia. É inegável a dificuldade vivida por grande parte dos produtores de leite, confirmada pela evidência empírica: a contínua redução do número de produtores que se dedicam à atividade. Há distintos produtores ganhando e perdendo dinheiro com leite. Há distintas regiões do Brasil ganhando e perdendo dinheiro com leite.

Também não analisei a crise conjuntural pós julho de 2001 e suas conseqüências, visíveis até os dias atuais. A seu favor, a Senhora, de maneira corretíssima, ainda poderia ter argumentado que os dados que apresento são de regiões escolhidas e, portanto, não passíveis de generalização para todo o Brasil.

A pretensão do artigo em questão, contudo, foi outra: demonstrar que diferentes agentes ganham com a cadeia produtiva do leite, o que inclui produtores (sem qualificar quais). É possível que uma outra carta esteja sendo escrita nesse momento, desta vez por um empresário do ramo de laticínios. Se substituirmos a palavra produtores, de seu texto, por laticínios, haverá sentido. Este é um exercício que convido-a a fazer.

A abordagem pretendeu ser sistêmica e estrutural, e não pontual (somente um segmento) e conjuntural. A respeito de conjuntura, reproduzo o único trecho do artigo em que é citado:

<i>"A tendência de crescimento da produção se mantém firme, apesar de problemas conjunturais sempre ocorrerem, e da nefasta penalização imposta aos produtores." </i>

O artigo pretendeu, portanto, valorizar a cadeia produtiva como um todo, mostrando sua importância, ao tempo em que abre a possibilidade para discussões futuras sobre problemas estruturais defrontados em cada um dos segmentos que a compõe. É o que pretendo fazer nos artigos vindouros, intercalados por artigos conjunturais. Esse foi o acordo celebrado com a direção do MilkPoint.

Respeitosamente,

Paulo do Carmo Martins


josé carlos braga da fonseca
JOSÉ CARLOS BRAGA DA FONSECA

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 30/03/2003

Desejo saber mais detalhes como o autor otimista concluiu que os produtores de leite de sua análise são remunerados pelos seus insumos e milagrosamente ainda têm lucro.

Sou produtor na região de Juiz de Fora a 25 km da sede da Embrapa Gado de Leite, tenho contato permanente com seus técnicos, mas ainda não descobri o caminho das pedras para gerar lucro em minha propriedade.

<b>Resposta do autor:</b>

Prezado Senhor José Carlos,

Agradecemos sua leitura atenta e manifestação ao artigo Leite é um Bom Negocio. É certo que muitos produtores vêm tendo seríssimas dificuldades de se manter na atividade nos últimos doze anos. Isso ocorre em todo o Brasil e, por isso, o número de produtores vem diminuindo anualmente.

No caso da Zona da mata de Minas a situação é mais grave ainda, com fortes repercussões sociais e econômicas. Por reconhecer isso, ainda em 1994, quando estivemos como Secretário Municipal de Agropecuária e Abastecimento de Juiz de Fora, implantamos o PROLEITE, um programa seguramente conhecido pelo senhor, e que visa dar suporte ao produtor de leite.

Quanto aos detalhes da pesquisa que o senhor solicita, por não tê-los especificado, fica difícil informá-lo. A pesquisa foi objeto de minha tese de doutoramento, apresentada recentemente à Esalq/USP. Os dados de custos, de todas as 150 propriedades, estão ali expostos. Por outro lado, juntamente com a equipe de economistas da Embrapa Gado de Leite, estamos ultimando a preparação de um livro, que detidamente analisará estes custos.

Como o senhor mesmo informa que está a 25 km da unidade a qual estou vinculado, convido-o a nos procurar para que possa lhe repassar pessoalmente a referida tese e conversar sobre os detalhes que o senhor cita. Agende uma visita. Teremos prazer em conversar sobre.

Atenciosamente,

Paulo do Carmo Martins


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