É evidente que as taxas de inflação atuais estão muito distantes das registradas nos anos oitenta. Mas chamou a atenção de todos o fato das aplicações financeiras começarem a render menos que a inflação. Além disso, o Índice de Preços ao Consumidor Ampliado IPCA, que é calculado pelo IBGE e mede a variação de preços de produtos adquiridos por famílias com renda de um a 40 salários mínimos, saltou, em outubro, de uma taxa anual de pouco mais de 7%, para 14,5% (veja a variação mensal, entre janeiro de 2001 e janeiro de 2003 no gráfico 1).
Uma prudente análise desse cenário conjuntural não deveria levar ao pânico. Afinal, entre outubro e janeiro ocorreram aumentos motivados por produtos que têm forte vínculo com preços do mercado externo tanto os exportáveis, quanto os importáveis e são, portanto, altamente influenciados por variações do dólar, que se manteve em alta frente ao Real, por incertezas geradas no exterior e no Brasil. Podemos somar a isso o fato de ser comum a elevação de preços de produtos hortícolas nesse período chuvoso e, também, o fato da metodologia de cálculo do índice apresentar uma característica importante: necessariamente não capta num único mês, todo o aumento verificado no preço de um produto.
Ocorre que, ao ser divulgada a taxa de inflação, os órgãos de imprensa elegem as bancas de alimentos como cenário para as suas reportagens. Imediatamente está formada a associação da inflação com os alimentos, transformando estes no vilão da história.
Os dados do IPCA não mostram isso, todavia. O índice para janeiro foi de 2,3%. O grupo alimentos teve alta de 2,2%, menos um pouco que a inflação do mês e quase um quarto da alta apresentada pelos combustíveis, que foi de 8,3%, por exemplo. Já o preço do leite pasteurizado teve alta somente de 0,9%. Contribuiu, portanto, para reduzir a elevação do custo de vida das famílias.
Numa grosseira generalização, há muitos anos a assessoria dos ministérios da área econômica é formada por economistas que tiveram toda a sua infância e adolescência no meio urbano. Quando foram para a universidade estudar economia, fizeram o curso sob a ótica industrial e urbana. O setor agropecuário somente era lembrado nas aulas relacionadas a exportações. Esses economistas têm, portanto, pouca sensibilidade para questões agropecuárias. Quando ocorre elevação da inflação, adotam medidas descritas nos manuais de economia, como políticas fiscal e monetária. Como reforço, vão procurar na extensa relação de produtos considerados no cálculo da inflação aqueles em que é possível promover alguma forma de intervenção que reduza preços. Quando agem assim, freqüentemente se deparam com o leite e seus derivados.
A tabela 1 mostra o peso que têm os produtos lácteos no cálculo do IPCA. O IBGE fez uma pesquisa junto aos consumidores em nove regiões metropolitanas brasileiras, além de Goiânia e Brasília, e a adotou como ponderação para formar o Índice de preços. Como se percebe, os produtos lácteos correspondem a 10,5% e 11,2% do peso do custo da alimentação nas três regiões metropolitanas com maior peso do cálculo do Índice: São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Isso significa dizer que, se os derivados lácteos tiverem uma alta de 100% em 12 meses em São Paulo, a inflação em São Paulo será de 10,7% somente pela elevação do preço do leite...Fica muito tentador facilitar importações para baixar preços, não?
O levantamento feito pelo CEPEA/ESALQ/USP, publicado no Boletim do Leite, demonstra que os preços recebidos pelo produtor de leite estiveram estáveis no Brasil nos últimos 30 dias, cotado em média a R$ 0,40. Como a inflação foi de 2,3% no período, na prática podese afirmar que houve também uma redução na receita real do produtor em 2,3%. Na moeda americana, o produtor está recebendo cerca de US$ 0,11; seguramente um dos preços mais baixos do mundo. Não há razão, portanto, para que argumente a favor da redução do preço ao produtor. Ao contrário, devese considerar que, nos últimos meses o produtor de leite também sofreu elevação de custos de produção, em função da variação de preços dos grãos, combustível e energia.
A esse respeito, parece mais do que oportuna a iniciativa da Embrapa Gado de Leite em propor à CNA e às federações estaduais a realização de levantamentos sistemáticos e regionais de custos de produção de leite, com a participação de outros órgãos de governos, de produtores e de universidades. Isso permitiria melhores parâmetros de negociação entre os agentes da cadeia e bases mais sólidas para a tomada de decisões governamentais. É importante considerar que dados disponíveis do IBGE demonstram que assegurar preços atrativos para o produtor é um decisivo componente para a geração de emprego e renda para a agricultura familiar, que concentra grande parte dos produtores de leite. Mostram também que a manutenção de preço baixo para o leite é política que beneficia mais os extratos de maior renda. Mas isso é assunto para um próximo artigo...

Grafico 1. Variação mensal do IPCA, Brasil, Janeiro/2001 a Janeiro/2003 (%).
Fonte: IBGE (2003)
Tabela 1. Dispêndio mensal per capita estimado com alimentação e leite por Região Metropolitana, Brasil, 1996.