A tabela abaixo mostra os valores já convertidos para Real desses três produtos nos diferentes países.

A primeira constatação possível de ser feita é de que há uma variação extremamente significativa no preço tanto do leite quanto da coca-cola e da gasolina entre os diferentes países europeus analisados, fato este já levantado na discussão do artigo anterior desta coluna. Este é um fenômeno interessante, uma vez que recentemente foi introduzido o Euro como moeda única de vários países europeus, mas parece que ainda não houve uma unificação ou maior homogeneidade dos valores praticados entre os diferentes países. E o fato é que este fenômeno não ocorre apenas com o leite, mas sim com vários produtos e serviços comercializados no continente europeu.
No entanto, ao se analisar especificamente a variação dos preços do leite, coca-cola e gasolina, observamos que a gasolina tem a menor variação de preços, com uma variância (medida estatística) calculada em 0,017 contra um valor de 0,037 para o leite e 0,041 para a coca-cola. O fato de haver uma variação menor no preço da gasolina até faz sentido, uma vez que trata-se de uma commodity internacional com preço estabelecido (do petróleo) por vários indicadores de diferentes instituições. No entanto, a mim particularmente surpreendeu o fato de a coca-cola ter apresentado uma variação superior à do leite, uma vez que nestas alturas do campeonato podemos considerar a coca-cola como uma “commodity” internacional padronizada. Já o leite, não surpreende o fato de haver uma variação significativa, uma vez que trata-se de um produto complexo, que sofre influência de região, sistemas de produção, organização dos produtores e indústrias (poder de barganha), interferência estatal (subsídios, distribuição em programas sociais, etc...).
No entanto, para analisar um pouco mais a fundo a questão, resolvi fazer uma análise de correlação entre esses diferentes produtos e os resultados estão demonstrados na tabela abaixo:
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O que podemos deduzir destes resultados, inicialmente, é que existe um atrelamento muito maior entre os preços da gasolina e da coca-cola (correlação de 0,60), ou seja, esses dois produtos têm uma variação de preço mais homogênea nos diferentes países.
Isto significa que existe uma maior tendência de haver uma variação no mesmo sentido nos preços nos diferentes países europeus. Já a correlação entre o preço do leite e da gasolina foi de apenas 0,065, quase 10 vezes menor do que a correlação da coca-cola com a gasolina. Já a correlação entre o preço do leite e da coca-cola também foi baixa, de 0,12. Esta análise talvez ajude a explicar a aparente contradição da análise anterior, em que o preço do leite variava menos do que a coca-cola, embora a minha expectativa fosse de que o preço do leite sofreria maiores variações em função de todos os fatores anteriormente mencionados.
O que podemos deduzir com estas análises de correlação é que talvez haja um impacto de situações cambiais ainda não padronizadas nos diferentes países europeus, que faz com que naturalmente haja um padrão de preços mais elevados em alguns países (p.ex. na Áustria). Isto explicaria o fato das commodities (gasolina e coca-cola) terem um preço mais homogêneo, ou seja, variam em conjunto para cima ou para baixo, sofrendo uma grande influência da situação cambial do país (apesar do Euro!). Já o leite não se relaciona de forma expressiva nem com a gasolina nem com a coca-cola, pois os fatores que determinam o estabelecimento do seu preço são distintos daqueles da coca-cola e da gasolina.
E para finalizar esta análise, fiz algumas comparações dos preços médios do leite, gasolina e coca-cola dos países europeus analisados com o Brasil. Faço aqui uma ressalva de que trabalhar com valores médios é sempre arriscado, até porque há uma grande variação dos preços desses produtos na Europa, mas de qualquer forma vamos lá.

O que podemos observar logicamente é que todos os produtos analisados custam muito mais barato no Brasil (em Reais) do que na Europa, o que é bastante lógico, tanto pelos nossos custos de produção quanto pela situação cambial atual, que faz com que o Brasil seja hoje um dos países do mundo com menores preços comparativos praticados. Basta viajar um pouco pelo mundo para sentir essa realidade no bolso. Dificilmente encontraremos um lugar no mundo barato para se fazer compras. Ruim para os turistas, bom para a balança comercial brasileira – está fácil vender e difícil comprar. E esta situação atual é histórica, uma vez que o nosso câmbio está em valores dos mais baixos dos últimos 30 anos.
A propósito, apesar dessa situação cambial favorável, tem alguns “produtos e serviços” que ainda assim são mais caros que na maioria dos outros países. Por exemplo, a nossa conta de água custa praticamente o dobro daquela de um americano e a ligação telefônica algo em torno de 60% mais cara, bem como a energia elétrica. E já que estamos em janeiro, gostaria de lembrar que um americano paga, do equivalente IPVA deles, para um carro grande e novo em torno de US$ 350. Para se ter um carro desse mesmo padrão pagaremos aqui alguma coisa em torno de US$ 700 a 800, certo? Fora licenciamento e seguro-obrigatório.
E tem outra coisa que custa mais caro aqui: o dinheiro, ou seja, a nossa taxa de juros, que nos EUA, para um cidadão comum está na faixa de 4 a 5% (ao ano, companheiro, não confunda!!). Já no Japão essa taxa deve estar pela metade disso. E eu não estou falando de taxa de juros de empréstimos agrícolas, pois nesse caso ficaríamos muito deprimidos com a situação, pois os agricultores tanto dos EUA, quando da Europa e dos Japão tem umas diferencinhas um pouco mais favoráveis.
Mas o fato é que o produto que nos interessa, neste caso o leite, custa menos por aqui. Custa, na verdade, para o consumidor, cerca de 55% do preço médio da Europa, ou seja, pouco mais da metade. Ainda bem que custa pouco, pois caso contrário iria faltar gente para beber leite, num país com uma renda média tão baixa quanto a nossa. O problema é que quem paga o pato no nosso caso é o produtor, ao contrário dos outros países... Pelo menos a coca-cola segue o mesmo padrão, custando aqui 53% do preço europeu. Nessa análise, podemos notar uma certa discrepância no que se refere à gasolina, que custa no Brasil em torno de 72% do valor de venda médio dos países Europeus considerados nesta análise. Ou seja, na comparação dos “líquidos” aqui analisados, a gasolina é proporcionalmente mais cara para nós. Seria oportuno dar uma olhada nos impostos incidentes sobre esse produto aqui no Brasil. Talvez o governo esteja mordendo uma parte expressiva do bolo, o que gera esse alto valor do combustível para nós.
O consolo é que pelo menos há uma hierarquia de valores uniforme entre os 3 produtos analisados tanto na Europa quanto no Brasil, ou seja, o leite custa menos do que a coca-cola, que por sua vez custa menos que a gasolina. Isto significa que a aberração do fato de um litro de leite custar menos do que um litro de coca-cola não é uma coisa de tupiniquim do terceiro-mundo.