aDesafios para a agricultura: a luta não pára

Vale lembrar que sempre os resultados agrícolas seguram a balança comercial. No entanto, em 2001, ao invés de ocorrer déficit na balança comercial do país.

Publicado em: - 5 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 0

O ano de 2001 fechou com algumas notícias otimistas para o setor agrícola. O PIB da agricultura voltou a crescer e os resultados na balança comercial foram excelentes com superávit de cerca de 26% acima ao do ano de 2000.

O superávit agrícola na balança comercial foi US$14,5 bilhões, sendo o principal componente do resultado positivo da balança comercial brasileira, em torno de US$2,64 bilhões no ano passado.

Vale lembrar que sempre os resultados agrícolas seguram a balança comercial. No entanto, em 2001, ao invés de ocorrer déficit na balança comercial do país, houve superávit, o que animou um pouco os economistas apesar da gravidade da crise na Argentina.

Em termos de renda agrícola, o produtor rural também aumentou sua receita. Estima-se que a receita média do produtor tenha aumentado cerca de 27,74% no ano (fonte: IEA - Instituto de Economia Agrícola), evidentemente que não é o caso do leite, café, milho, algodão e alguns outros produtos que contribuem para reduzir esta média.

Sobre este aumento na receita alguns noticiários tem apresentado estas informações com uma chamada distorcida do fato. Algumas das manchetes foram apresentadas como “o agricultor ganhou mais dinheiro em 2001”, o que não é necessariamente verdade. Mesmo outras veiculações do fato, mais discretas, acabaram passando esta imagem para o leitor urbano, geralmente alheio às realidades do campo.

Apesar do aumento da receita geral, durante o ano 2001 houve uma nova desvalorização do real, elevando também o preço dos insumos e consequentemente dos custos de produção. Por outro lado, mesmo alguns produtos que contribuíram para o aumento da receita, como a laranja e a cana, apenas recuperaram os valores das seguidas perdas nos preços que se verificou anteriormente. Mesmo o boi, que entra como um dos produtos que contribuíram para o aumento da receita, ainda não recuperou seus preços. Para o terminador, o bezerro está caro, para o criador, o bezerro está com preços razoáveis, ou seja, está faltando preço na venda do boi, como ocorre com a maior parte dos produtos agrícolas.

Grande parte do aumento da receita também deve-se à expansão da produção de grãos, que acredita-se ultrapassar as 100 milhões de toneladas neste ano.

Ganhar mais dinheiro, portanto, não é a maneira mais adequada para se descrever o desempenho do produtor durante o ano que passou. Ganhar dinheiro está atrelado à concretização de lucro e não ao simples aumento de receita.

Na pecuária, as exportações atingiram um faturamento de US$2,7 bilhões, sendo a carne de frango e de boi responsáveis pela maior parte.

O leite, no entanto, amargou um mau resultado e queda de faturamento em 2001. A situação do mercado de leite começa a dar uma clareada neste início de ano, como ocorreu nos anos anteriores, porém muito aquém das expectativas dos produtores, especialmente levando-se em consideração o otimismo que tomou conta da primeira metade de 2001.

Como já estava definido, os preços recebidos pela produção de dezembro, nesta semana, permaneceram praticamente estáveis em relação ao mês anterior. Com isso, confirma-se a perda de valor de 9,5% a 12% nos valores reais do produto entregue durante o ano 2001.

Observe no gráfico, a evolução dos preços do leite, em reais deflacionados pelo IGP-DI, desde o final de 1996.
Para o pagamento de fevereiro já se aguarda alguma melhora nos preços do leite, conforme o mercado vem apontando.

Em 2001 a única contribuição que o setor leiteiro proporcionou nos resultados foi a redução de 52% dos gastos com importação, quando comparados ao ano 2000. Foram gastos cerca de US$180 milhões nas importações de lácteos durante o ano 2001, fora o início, ainda incipiente, das exportações.

Noticiar que a agricultura vai bem é ótimo para o setor dentro do contexto de se divulgar a necessidade de força do setor agrícola, tanto para gerar riquezas, como emprego, preservar a natureza, racionalizar a conservação do solo e da água, etc. O produtor rural precisa urgentemente mudar a imagem que o cidadão urbano tem do setor agrícola. Deixar passar informações que o agricultor “ganhou dinheiro” e ainda ficar chorando não é o melhor caminho

que conquistar a opinião pública.
 

 


Estamos num mundo globalizado e competitivo. A Alca (Aliança de Livre Comércio das Américas) está aí e os Estados Unidos já deram sinal de que pretendem aumentar ainda mais os subsídios agrícolas, que em 2001 ultrapassaram os US$32 bilhões de dólares.

Enquanto aqui no Brasil, analistas do setor privado e do público tropeçam uns nos outros e não entram em acordo, os norte americanos se preparam para não perderem, em hipótese alguma, em nenhum item de negociação na Alca. O Brasil é um grande mercado de interesse, porém não se ganha nada sem informação e planejamento.

O Brasil é o nono país do mundo em poder de compra, podendo chegar ao quinto lugar em breve. Somos o quarto maior mercado do mundo em máquinas de lavar roupas e geladeiras; o quinto maior mercado fonográfico (CDs); e o segundo maior mercado em jatos executivos e helicópteros, telefones celulares, aparelhos de fax, microondas e equipamentos de mergulho e alpinismo (Anthropos University).

Na América, o Brasil é o país com o maior mercado de interesse para os Estados Unidos, pois só o mercado norte americano supera o brasileiro. Lembre-se quanto o Canadá se envergonhou no episódio Embraer-Bombardier. Pudera, pode-se dizer que a atitude canadense foi uma tremenda “trapalhada”, pois quem perderia mais?

E no mundo todo, os mercados superiores aos do Brasil são de acesso restrito aos Estados Unidos, pois são países de economia forte, como alguns da Europa, a China (comunista) e a Índia, com grande população muçulmana.

O Brasil é o grande país deste século que se inicia em termos de competitividade e de mercado, porém se não houver planejamento, consenso, troca de informações e apoio, de nada adiantará.

Novamente um “chavão”, mas a agricultura precisa de representatividade política para colocar o país em pé de igualdade competitiva. Ser competitivo com preços extremamente baixos e mão de obra mal paga, como a China, não interessa ao país. Quando se diz representatividade, é perante à sociedade e não apenas na política. A política segue os interesses do setor urbano, onde reside o maior número de votos. A opinião pública evita que vários absurdos prevaleçam, prejudicando o agricultor brasileiro, como os inúmeros exemplos dos custos Brasil, o caso dos transgênicos, a metodologia de cobrança da água, o modelo da averbação da reserva legal, impostos, etc. No caso do leite, nada mais bizarro que a utilização de produto importado em programas sociais.

De nada adianta implorar aos norte americanos clemência social nas negociações, pois entre um produtor norte americano e um brasileiro, a preferência é óbvia.

Precisamos ter consciência da nossa força de mercado e usá-la a nosso favor.

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 0

Material escrito por:

Maurício Palma Nogueira

Maurício Palma Nogueira

Acessar todos os materiais

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Qual a sua dúvida hoje?