George Santayana (1863 - 1952)
Até meados de dezembro de 2003, o cenário permitia boas perspectivas para o mercado do leite no ano de 2004.
No entanto, a crise da Parmalat trouxe novas variáveis de peso ao mercado: a notícia do rombo financeiro, fraudes, desvio de recursos e tantos outros fatores, que tem constantemente sido divulgados na mídia de todo o mundo, influenciaram consideravelmente o mercado de leite no país.
Mesmo antes de qualquer definição do caso Parmalat, os preços no mercado "spot" reduziram-se em elevadas proporções. O mercado "spot" é o leite negociado entre as empresas, geralmente cooperativas que repassam sua captação para outras empresas de maior volume industrializado.
Esse mercado já vinha perdendo sustentação tendo em vista as baixas vendas ao consumidor e ao início do período de safra. Houve queda na demanda e maior número de empresas ofertando leite no "spot", na tentativa de frear a industrialização que já vinha acumulando estoques pelos maus resultados nas vendas.
Com as notícias da Parmalat, e o risco do não recebimento do produto vendido, a situação se intensificou. Além da redução das compras de um grande cliente (a Parmalat), as cooperativas buscaram evitar vender para a italiana visando minimizar os riscos. Com isso, a relação entre oferta e demanda se desequilibrou mais ainda. Antes vender mais barato do que não receber.
Os preços do "spot" reduziram-se próximos dos 19% de novembro a dezembro de 2003. Em relação ao pico de preços, a queda já atinge 36%. A queda nos valores leva o mercado para os patamares de preços que eram vigentes em 2002, o que praticamente anula os ganhos nos preços que ocorreram nos últimos meses.
O "spot" hoje circula próximo dos R$0,35/litro, enquanto os preços médios ao produtor, média Brasil, estão entre R$0,44 a R$0,45/litro.
Preços ao produtor superiores aos preços no mercado "spot" colocam as cooperativas que atuam neste mercado em péssimas condições de sobrevivência, um risco para estas empresas. Além dos maus resultados a estas empresas, o atual comportamento dos preços abre espaços para estratégias de mercado por parte dos grandes compradores.
O considerável volume de leite no mercado a preços de R$0,35/litro - ou US$0,12/litro - é um prato cheio para que as indústrias desidratem e armazenem parte do volume para entrar nas linhas de produção da entressafra.
Por sua vez, as cooperativas colhendo maus resultados tendem a perder os maiores produtores que geralmente representam os custos mais baixos de coleta de leite. Neste caso a cooperativa enfraquece.
Tanto a tendência apontada para as cooperativas, quanto a estratégia das empresas em armazenar os produtos, já aconteceram num passado bem próximo. No período de safra de 2000/2001, a recepção de leite fiscalizado aumentou 12,6%, segundo acompanhamento do IBGE. Embora pagassem preços baixos aos produtores, as indústrias não praticaram o extra cota e aproveitaram o excedente para armazenar leite em pó e reutilizar durante a entressafra.
O leite em pó seria destinado a diversas linhas de produtos, enquanto o leite da entressafra seria utilizado para as linhas que exigem leite não rehidratado, como a produção de longa vida, por exemplo.
Na entressafra de 2001, em plena falta de leite, os preços recuaram nas mesmas proporções. O "spot", em Goiás, caiu de R$0,46 para R$0,25/litro. Na época elegeram a Centroleite (central cooperativa de Goiás) e a crise energética pelas quedas nos preços. Segundo a indústria, os consumidores não compravam produtos refrigerados para não gastar energia. E na verdade, ao final do ano verificou-se que as vendas aumentaram. Analisando o mesmo ano de 2001, a Nielsen estimou aumento de 12% nas vendas de produtos refrigerados em relação ao ano 2000.
A explicação real para as quedas nos preços na entressafra daquele ano é que havia leite armazenado e, por isso, a indústria não temia quedas bruscas na oferta de leite "in natura".
As maiores indústrias passaram a pressionar as cooperativas. Em Goiás, enquanto pagavam R$0,25/litro às cooperativas mantendo o elegante auxílio para absorver o excedente desnecessário de leite, ofereciam R$0,30/litro aos fornecedores destas mesmas cooperativas. Esses R$0,05/litro a mais eram oferecidos por um leite mais caro de ser coletado; o volume era bem menor do que o comprado de toda a cooperativa.
Observe, na figura 1, a evolução da produção média diária por fornecedor das 12 maiores receptoras de leite do país, com destaque à Nestlé/DPA.

Enquanto, de 1997 a 2002, o volume diário de todos os produtores têm aumentado, o salto da Nestlé/DPA foi consideravelmente superior, evidenciando que as indústrias estão abocanhando os produtores de maior volume.
Apesar de que a própria compra de leite "spot" favorece o aumento da média dos produtores, o comportamento exposto no gráfico mostra claramente que a indústria está ganhando competitividade nos últimos anos.
Em 2001 as circunstâncias eram outras, diferentes das atuais. O que chama a atenção é que o cenário atual deixa margens para comportamentos imediatistas do mesmo tipo e com as mesmas conseqüências para os anos posteriores.
É bem provável que o setor leiteiro acabe revivendo a sua história, com conseqüências desastrosas para a pecuária leiteira, o agronegócio, a sociedade, as cooperativas, as indústrias e os produtores. Será um grande atraso.
Observe pela figura 2 que os preços voltaram a apresentar comportamentos de oscilações elevadas, como sempre ocorreu nos anos anteriores.

O que preocupa? O momento preocupa. É um momento de consolidação importante para o setor. Por vários fatores, ora negativos ora positivos, o cenário atual é ímpar na história do agronegócio leiteiro, especialmente para as cooperativas.
As cooperativas vinham apresentando sensível melhora e uma recuperação no otimismo nos últimos dois anos. No entanto, os acontecimentos de dezembro "puxaram o tapete" destas empresas.
Mas, como ensinam os chineses, o momento de crise pode ser avaliado e transformado em oportunidade, união e crescimento. As soluções para que as cooperativas, especialmente as que estão no mercado "spot", transformem a crise em oportunidade ainda não estão bem analisadas. Será preciso buscá-las, lapidá-las e colocá-las em prática.
E, independente de quaisquer que sejam as soluções, presidentes e produtores terão que levar em conta a necessidade de que elas atendam especialmente o médio e longo prazo. De nada adiantará recursos e medidas se forem destinados apenas para tapar o rombo atual.
Para os produtores, o momento não deixa muitas alternativas a não ser ficar atento, acompanhar, produzir, buscar reduzir os custos, enfim, seguir.
A única recomendação genérica que pode ser dada é para que tenha muita atenção, troque informações e analise bem qualquer decisão nos próximos meses. Uma decisão que pareça muito oportuna no momento pode ser desastrosa a médio prazo.