Cooperativa e o senso do censo

Tive memorável professor, que afirmava existir três maneiras de mentir. A mentira educada surge quando duas mulheres se encontram e uma elogia o novo corte de cabelo ou o novo vestido da outra. A mentira malévola é quando se quer gerar danos ou vantagens sobre o outro. Um exemplo é a difamação. A terceira é a mentira estatística: defina o que quer provar e saia em busca de dados que o confirme! Anos mais tarde, num outro extremo, tive outro inesquecível professor, para quem os números nunca mentem, mesmo sob tortura!

Publicado em: - 6 minutos de leitura

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Tive memorável professor, que afirmava existir três maneiras de mentir. A mentira educada surge quando duas mulheres se encontram e uma elogia o novo corte de cabelo ou o novo vestido da outra. A mentira malévola é quando se quer gerar danos ou vantagens sobre o outro. Um exemplo é a difamação. A terceira é a mentira estatística: defina o que quer provar e saia em busca de dados que o confirme! Anos mais tarde, num outro extremo, tive outro inesquecível professor, para quem os números nunca mentem, mesmo sob tortura!

Um professor (que é diferente de dar aula), deve transcender ao conteúdo que aborda. Lançar mão de frases fortes é, sem dúvida, uma estratégia interessante para a aprendizagem, pois leva à reflexão. Sobre dados estatísticos, vejo-os sempre como uma fotografia. Certos estão os indígenas. Acreditam que uma foto capta a "alma" da pessoa ou do lugar. Mas não a revela totalmente. Cada vez que você a olha, algum aspecto novo lhe é revelado. Se você duvida, faça o teste. Portanto, entre os pensamentos dos dois professores, fico com a máxima de São Tomás de Aquino, para quem a virtude nunca é encontrada nos extremos.

No Brasil, temos carência de dados que dêem a necessária segurança para que afirmações mais consistentes ocorram. Na ausência deles, o usual é lançar mão do Bom Senso. Mas o que traduz esta expressão? Nada! Vale apenas para aglutinar apoio em torno de posições defendidas por alguém. Se usarem com você expressões como Pensa Comigo ou Bom Senso, tome cuidado! Você está a um passo de concordar com aquilo que necessariamente não é a essência do que você pensa...

A prática de realização de censos é milenar. Jesus Cristo nasceu numa manjedoura em função de um Censo. Naquela época, os romanos já o exercitavam e forçavam os povos sob seu domínio a se deslocar para serem recenseados. Entre nós, esta função está a cargo do IBGE, que é uma respeitável agência de informações. Com parcos recursos, gera e disponibiliza informações relevantes para que possamos entender melhor o Brasil. Mas a velocidade com que os dados ficam disponíveis ou o detalhe necessário para análises mais acuradas, nem sempre são satisfatórios.

Vejam o caso do Censo Agropecuário. O mais recente se deu em 1995-96. Para um país como o Brasil, em rápida transformação, esses dados são de pouca valia. Quer um exemplo? Com base neste Censo, temos 1,8 milhão de propriedades produzindo leite. Será que hoje é tudo isso, mesmo? Ou será que é mais? Esses dados não contemplam o processo de granelização, ocorrido posteriormente. Que efeitos geraram nestes números? Perguntas sem respostas. Portanto, há espaço para hipóteses ou.... para o Bom Senso.

O antídoto para o Bom Senso é o Censo. Com a finalidade de conhecer a real situação das cooperativas de leite a Confederação Brasileira das Cooperativas de leite-CBCL, a Organização das Cooperativas do Brasil-OCB e o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada-CEPEA, da Esalq/USP realizaram o primeiro Censo das Cooperativas de leite brasileiras. Aceitei o convite para participar deste desafio e me integrei à equipe que se formou, com técnicos da CBCL coordenados por Vicente Nogueira, da OCB por Marcelo Barroso e pela equipe do CEPEA, coordenada por Leandro Ponchio. Na supervisão dos trabalhos estiveram os Drs. Jacques Gontijo, Paulo Bernardes e o Prof. Dr. Geraldo Camargo.

Em verdade, o estudo foi mais que um Censo. Fiquemos, inicialmente neste ponto, no Censo. Os dados revelaram um cenário diferente do que indicava o Bom Senso: as cooperativas brasileiras são ainda de extrema relevância no cenário lácteo brasileiro. Mais que isso, cresceram nos últimos 18 anos em captação. Em 1984 o total de leite inspecionado foi de 6,56 bilhões de litros. Se as cooperativas detinham 60% deste leite, portanto captaram 3,94 bilhões de litros naquele ano. Em 2002 a captação das cooperativas ficou em 5,22 bilhões de litros, com crescimento no volume de 32,5% neste período.

É verdade, contudo, que a participação no mercado caiu para 40%, o que ainda é algo relevante. Mas o que não é bom: mais de 2 bilhões de litros captados pelas cooperativas não são processados por elas. Repassam, portanto, mais que a produção de qualquer estado brasileiro, excetuando-se Minas Gerais, Goiás ou Rio Grande do Sul. Mas não se pode menosprezar seu peso na captação. As cooperativas de leite brasileiras, em seu conjunto, captaram 19% a mais do que os dez principais laticínios juntos, e mais de três vezes a captação da maior empresa no setor. Juntas, as cooperativas têm capacidade de processar todo o leite inspecionado de qualquer estado brasileiro, excetuando-se Minas Gerais.

Merece registro que 95% do leite captado pelas cooperativas encontra-se e é processado em sete estados que formam ou estão próximos dos principais mercados consumidores. Os estados são: Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Goiás. Isso confere competitividade às cooperativas, pois é menos onerosa a logística de distribuição. Enfim, as cooperativas estão presentes nos mercados mais dinâmicos.

Sob a ótica da renda e do emprego, as cooperativas faturaram juntas R$ 4,91 bilhões em 2002 somente com leite e derivados. Empregaram diretamente 36 mil pessoas e tinham 144 mil cooperados. Considerando as simulações que fiz com o Prof. Dr. Guilhoto, da Esalq, a cada R$ 1 milhão de faturamento dos laticínios, 196 empregos permanentes são gerados na economia brasileira. Logo, é possível afirmar que as cooperativas foram responsáveis 968.240 empregos permanentes no Brasil em 2002. E o que é melhor: a maior parte destes postos de trabalho foi gerado no campo e por todo o Brasil (é possível repassar este estudo aos interessados).

Mas o Censo também revelou pontos de fragilidade. Cerca de 2/3 das cooperativas captam menos de 55 mil litros por dia e atuam de modo isolado. A média de produção diária dos produtores filiados aos 15 maiores laticínios do país foi de 230 litros em 2002, enquanto que, nas cooperativas de leite, esta média foi de 105 litros. Esse fato compromete o desempenho produtivo e econômico das cooperativas, pois aumenta os custos de captação, industrialização e comercialização. Por outro lado, vendem grande proporção do que captam sem processamento ou processam commodities (leites Longa Vida e pasteurizado e queijo mussarela). Em conseqüência, a agregação de valor ao leite e as margens de comercialização são pequenas, dificultando uma melhor remuneração a seus associados.

A segunda parte do estudo retratou os problemas estruturais vividos pelas cooperativas brasileiras, como a fragilidade do direito de propriedade e a pouca profissionalização no gerenciamento do negócio leite. Além disso, estudamos detidamente seis casos de sucesso de cooperativas de leite dos Estados Unidos, União Européia, Austrália e Nova Zelândia. Essas cooperativas apresentaram os seguintes pontos em comum:
 

  • Reconhecimento do Mercado Global como indutor das mudanças organizacionais;

  • Fusão e reorganização corporativa: busca de ganhos de escala;

  • Investimento em Pesquisa e Desenvolvimento;

  • Direito de Propriedade claramente definido; e

  • Administração Profissional.

O quadro resumo apresentado a seguir retrata parte das características encontradas nas cooperativas analisadas.
 


A terceira parte do estudo retratou uma proposta de Plano de Desenvolvimento Estratégico para as cooperativas. As ações aprovadas, foram: criar um monitoramento do mercado de leite e derivados; criar uma rede de negócios; fortalecer a indústria cooperativista, e; capacitar gestores com foco no cooperativismo. Todas estão expostas no documento, detalhadamente.

Enfim, o Senso do Censo se cumpriu: conhecer a realidade das cooperativas e sinalizar para um novo caminho a ser trilhado. Com o apoio já declarado dos ministros José Graziano e Roberto Rodrigues, e tendo à frente a OCB, a CBCL, e outras importantes instituições como a CNA e Leite Brasil, o setor prepara-se para agir. De volta para o futuro, pois!

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Material escrito por:

Paulo do Carmo Martins

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Angelo Carluccio Neto
ANGELO CARLUCCIO NETO

SÃO JOÃO DA BOA VISTA - SÃO PAULO - EMPRESÁRIO

EM 11/08/2003

Gostaria de parabenizar o Autor pelas informações e dizer-lhe que gostaria de encontrá-lo no Interleite, para avançar as discussões sobre cooperativismo, conforme o programa oficial do evento.

Atenciosamente,

Angelo
José Soares de Melo
JOSÉ SOARES DE MELO

MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 10/08/2003

Não entendi o significado da expressão "Direito de propriedade claramente definido" que consta no artigo "Cooperativa e o senso do censo", do Prof. Paulo do Carmo Martins. Gostaria de saber de que se trata.
José Soares de Melo.
Presidente da COOPERLAT
Piumhi - M.G.

<b>Resposta:</b>Prezado Presidente,

Creio que este é o ponto crucial a ser discutido, se quizermos ver sólido o cooperativismo de leite no Brasil. Transcrevo, abaixo, parte do documento referido no artigo.

Paulo Martins

"O direito de propriedade é entendido como o direito ou o poder de consumir, obter rendimentos, ou mesmo alienar algum determinado ativo. Ou seja, o direito de propriedade sobre uma organização empresarial é aquele aonde há a possibilidade de se usar os benefícios oriundos desta organização de pleno direito, de se obter ao final do processo produtivo a apropriação clara sobre o resíduo desta operação - resultados - e por último, de se transacionar este direito no mercado convertendo este ativo produtivo em unidades monetárias. Quanto menos sólido for o direito de propriedade, menor é a possibilidade de implantação ou desenvolvimento de avanços tecnológicos em uma empresa. Isso afeta diretamente os custos de produção e os custos de monitoramento e negociação - portanto, os custos de transação. A forma como o direito de propriedade é concebido e percebido dentro de uma organização tem papel crucial, enfim, no desempenho da empresa;

O regime de quota-parte estimula o cooperado a pressionar por preços de leite recebido o mais elevado possível. Isso reduz a disponibilidade de capital de giro da cooperativa e força a gestão centrar seus esforços somente no curto prazo. Quando não inviabiliza totalmente, torna mínima a possibilidade da cooperativa investir em projetos de maturação de longo prazo. Isso reduz a chance da cooperativa de manter-se competitiva. Por não contar com recursos do cooperado, a cooperativa tem de buscar recursos de terceiros para investir. O caminho natural é buscar o Governo, até por questões históricas. Mas, como conseguir o necessário e em condições atrativas, se a prioridade é o ordenamento fiscal das contas públicas? A opção passa a ser então os bancos privados. Mas, para estes, é operação de alto risco, pois as garantias não são claras. Logo, o risco é elevado. Numa época em que o risco de qualquer empréstimo é imenso, e o ganho em papéis do governo é garantido, por quê emprestar à cooperativa? O caminho então seria emitir papéis para o mercado. Mas como atrair o capital privado, se o direito de propriedade não é claro nem para quem é cooperado? Como estimular terceiros, se o principal, o cooperado, não se sente estimulado? Como possibilitar o investidor analisar o risco do investimento, se a cooperativa carece de profissionalismo na gestão de monitoramento e controle dos atos praticados em seu dia-a-dia?

Numa empresa de capital aberto, há claros mecanismos de controle da gestão. O valor das ações repercute o desempenho da gestão. Se o gestor mostra-se ineficiente, estas tendem-se a desvalorizar. Além disso, entre o gestor e os donos, ou seja, os acionistas, há o conselho, formado tanto por acionistas quanto por seus representantes, de ilibado reconhecimento, que cumprem o papel de fiscalizar as ações do gestor e de reduzir a assimetria de informação entre os donos e o gestor. Além disso há um órgão legal - a CVM, que cumpre o papel de dar mais transparência às informações da empresa. No âmbito do mundo cooperativista de leite, quem cumprem estes papéis?"


MARIA LUCIA ANDRADE GARCIA
MARIA LUCIA ANDRADE GARCIA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 08/08/2003

Depois de ler em Conjuntura e no Comentário Semanal sobre a reestruturação das cooperativas brasileiras de leite, me lembrei intensamente de toda a minha experiência como produtora de leite de cooperativa por muitos anos mas que nunca viu suas cotas capitalizadas segundo o movimento realizado. E o pior, viu virar pó o capital que colocou na cooperativa de crédito por ela criada. Em meio a essas e outras frustrações, veio-me o sentimento de esperança. Será possível reformular as cooperativas de leite do país?

Tendo assistido a tantos desvios e arbítrios em nome do ideal cooperativo cujo raio de inclusão não ultrapassa dirigentes e apaniguados, como não desejar a mudança?

Faço aqui a pergunta que julgo crucial: como ficará no planejamento em curso, a "re-inserção" do cooperado como donos de fato das cooperativas que fazem letra morta desse seu direito elementar? Quais mecanismos estão sendo pensados para que não apenas as chamadas de capital, mas também as "sobras" tenham a ver com o bolso dos cooperados?

A meu ver, o problema mal resolvido na prática da propriedade das cooperativas é a bandeira a ser empunhada pelos produtores de leite através das associações e representações de classe, na esteira política da reestruturação do setor, necessária e auspiciosa para todas as partes envolvidas na produção solidária do leite e seus derivados.

<b>Resposta:</b>Profa. Lucia,

A senhora toca no ponto chave, a meu ver, que enfraquece o cooperativismo de leite, no Brasil. O resto é consequencia. O documento diagnostica esta questão. Veja a resposta dada a outra carta sobre esse assunto. Mas o documento, em si, nada garante de mudança...

Paulo Martins
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