No ambiente macroeconômico, existem dois fatores muito importantes que, contudo, dão sinais contraditórios. Por um lado, é possível que haja um desestímulo às importações lácteas, pois o ministério da fazenda passou a reduzir o montante dos papéis da dívida pública indexados à variação cambial. Como conseqüência, muitos investidores irão aumentar a procura por Dólar, o que aumentará o valor dessa moeda. Se o Real se desvaloriza, menos estímulo à importação de leite existe e menor será a pressão contra a elevação do preço recebido pelos produtores de leite.
Por outro lado, até mesmo o núcleo central do Governo admite que o país está em recessão. Leite é um exemplo de produto bem-salário, ou seja, a demanda cresce quando a massa salarial também cresce. Se a massa salarial mostra-se sem grandes perspectivas de crescimento, não haveria fortes pressões adicionais sobre a demanda de lácteos.
Portanto, é ainda prematuro afirmar que a entressafra terá preços estimulantes aos produtores, embora esta seja a maior possibilidade. Nos próximos dias teremos dados de mercado disponibilizados pelo Cepea/Esalq/USP, que trarão luz a esta questão. Se confirmadas as expectativas dos produtores, ou seja, se ocorrer redução de oferta ao nível em que esta se torne menor que a demanda, sem grandes importações compensatórias, obviamente o mercado será demandador, com reflexos nos preços, com viés de alta.
Quando o mercado é demandador, ou seja, quando há escassez de leite, o produtor sente-se prestigiado, pois passa a ser disputado pelos laticínios. Muitos, por estarem endividados, e outros, por vislumbrarem a perspectiva de ganhos maiores e imediatos de renda, acabam por cederem à sedução de propostas tentadoras de preços mais elevados, feitas pelos concorrentes.
É nesse momento que muitas cooperativas perdem cooperados ou, o que é pior, passam a receber menos leite, pois perdem a fidelidade de seus donos que, em última instância, são os cooperados. Nesse momento, o cooperado esquece-se que é proprietário da cooperativa. Pune, portanto, aquele produtor que se mantém fiel. O motivo é simples: com menos captação, haverá queda no processamento e, consequentemente, aumento dos custos unitários. Lá na frente, no verão, quando os preços piorarem, ou seja, quando o mercado se tornar ofertador, o produtor voltará para a "sua" cooperativa. Agindo assim, o "cooperado" age como o consumidor urbano, que desaparece dos clubes de lazer no inverno. Mas, cooperativa não é clube de verão!
Em 19 passado, este veículo, na seção Giro Lácteo, trouxe uma matéria sobre o crescimento da produção e a queda do preço recebido pelos produtores de leite na Nova Zelândia. Há uma parte dessa matéria, que transcrevo a seguir:
" Sob as regras da (cooperativa) Fonterra, os produtores precisam adquirir ações extras da cooperativa para cada quilo de sólidos do leite que produzirem a mais do que no ano anterior. Isso deixou muitos produtores na dúvida se deveriam secar as vacas mais cedo e produzir menos leite ou manter a ordenha e comprar mais ações..."
Não pretendo discutir as importâncias social e econômica das cooperativas de leite no Brasil, que reconheço, nem muito menos suas dificuldades estruturais. Isso é feito com refinada competência por Marcelo Pereira de Carvalho, em artigo intitulado Cooperativismo lácteo no Brasil: desafios e oportunidades. Publicado em 25/04, encontra-se disponível neste MilkPoint, seção cadeia láctea, opção especiais. Se você não leu ainda, vale a pena ler!
Parto, portanto, das bases lançadas por esse artigo, acrescido da transcrição acima. E fico somente num ponto: a fidelidade. Vejam aonde vai a responsabilidade e o compromisso individuais do cooperado da Fonterra. Aumento de produção não é problema da cooperativa, mas de todos os cooperados, em diferentes proporções. Há claros critérios definindo o direito de propriedade nas transações entre o cooperado e a cooperativa. O risco embutido no ato de processar e comercializar um aumento de produção, num momento em que a produção já está elevada, é assumido por cada produtor, na devida proporção do aumento da sua produção, por meio de aquisição de novas ações. Enfim, se ocorre maior produção e o preço recebido cai, o produtor que aumentar a sua produção terá de capitalizar a cooperativa. Parecido com o Brasil?
Como ressalta Carvalho em seu artigo, não existem dados disponíveis, que possibilitem traçar o perfil das cooperativas de leite e de seus cooperados no Brasil. Mas conhecemos a trajetória de muitas delas, principalmente a partir de 1991, com a desregulamentação do setor. Perpetuar o modelo gerencial e os modelos de relacionamento cooperativa-cooperado e central-singulares, em um novo ambiente econômico, que mudou totalmente nestes onze anos, os resultados demonstram que não é profícuo caminho. Não leva ao paraíso!
Por outro lado, quando se analisam as cooperativas de sucesso nos diferentes países, deparamos com uma clara preocupação em serem ágeis. O foco é o mercado. Somente assim conseguem cumprir sua responsabilidade social, base norteadora do cooperativismo.
É preciso quebrar tabus. Dizer um basta ao que não está funcionando bem. A sobrevivência no longo prazo vale o desgaste no curto prazo. Mudar paradigma é conflituoso. Mas é educativo. Lembro-me quando as cooperativas de leite, reproduzindo o que já faziam os demais laticínios, começaram a pagar preço diferenciado aos produtores. Muitos dirigentes de cooperativas foram execrados publicamente. Tornaram-se vendilhões do Templo. Profanadores de um ideal. Traidores do cooperativismo!
Em 1997, escrevi artigo no Boletim do Leite pró diferenciação de preços. Argumentei que defensores do pequeno produtor (que têm nas cooperativas cada vez mais seu principal esteio), tinham de ser favorável ao preço diferenciado. Se a cooperativa continuasse pagando preços iguais para volumes diferentes, tendia a entregar à concorrência os seus produtores com maior produção. Com a saída desses, caía o volume captado e aumentava o custo de capitação. E mais: com menos produção, a cooperativa tornava-se menos competitiva na comercialização, num mercado varejista que já vinha se concentrando. Na época, recebi impropérios de um presidente de cooperativa mineira singular e a censura de colegas. Um pouco mais à frente, contudo, o próprio CADE (o órgão responsável pela defesa da concorrência), ao ser acionado, entendeu ser essa uma atitude correta.
Mas vejam o lado educativo desta polêmica. Em 2001, juntamente com colegas da Embrapa Gado de Leite, perguntamos a opinião dos produtores sobre essa prática. Vejam como os produtores aprenderam rápido ( tabela 01). Somente 18, em 150, foram contrários. O mais interessante é que, de 105 produtores cooperados, 13 foram contrários. De outra forma: a esmagadora maioria, ou 88% dos cooperados entrevistados, entendiam a necessidade da cooperativa aplicar esta prática, para a sua própria sobrevivência, e para a preservação dos interesses do cooperado.
Este pequeno e singelo resultado tem de servir de estímulo para aqueles que, preocupados com a sobrevivência dos pequenos produtores, estão também preocupados com a sobrevivência das cooperativas de leite, que vêm perdendo mercado no Brasil. Não se estancando a tendência de irem minguando, elas desaparecerão. Para não desaparecerem, é fundamental e urgente repensar o modelo cooperativista de leite brasileiro. Como está, não fica! Exclusão ou transformação, são as alternativas possíveis. Qual será a escolha?