Pessimismo a parte, de maneira geral o ano de 2002 tende a não favorecer o produtor. Caso confirmem-se algumas estimativas mais alarmantes de queda na produção, os preços poderão reagir de maneira favorável, porém o setor estará adiando o problema para um futuro bem próximo. A ineficiência em atender o mercado interno é prejudicial à imagem do setor. Perde-se poder de barganha e, em um mercado globalizado, um setor ineficiente tende a ser desfavorecido nas negociações.
O comportamento do mercado, as estratégias das indústrias (que atendem os rumos do varejo) e os interesses sociais, por parte do governo, desfavorecem o produtor de leite especializado, mais preparado em atender a demanda por produto de melhor qualidade. Esclarecendo para facilitar o entendimento, por quê será pago o leite de qualidade se o processo industrial do produto, preferido por 70% dos consumidores de leite fluído, não é exigente neste quesito?
Evidentemente, conforme apresentado pelos técnicos em laticínios, o leite de qualidade melhora o rendimento industrial na fabricação dos produtos, o que favorece o pagamento da matéria prima de qualidade. No entanto, o que se observa é que com a possibilidade de pagar tão pouco pela matéria prima, não há melhoria nenhuma nos processos industriais que compense a opção pelo leite barato, de menor qualidade. O que se paga é irrisório e geralmente tem se remunerado apenas a refrigeração da matéria prima.
O momento é delicado. Todas as forças vão contra o interesse de quem investiu na produção e, evidentemente, espera obter lucros com a atividade. Todos perguntam quanto custa produzir um litro de leite? Portanto, ao invés de olhar planilhas e entrar em discussões sem fim, basta responder quanto tem que ser pago pelo litro de leite para que remunere uma família, com três pessoas trabalhando, de modo a compensar ficar no campo.
As 12 maiores empresas coletam cerca de 50% do leite do mercado formal no Brasil e seus produtores produzem, em média, 135 litros de leite por dia. Estimando a realidade de um pequeno produtor, com um sítio de herança, produzindo este volume médio, fornecendo um quilo de concentrado a cada 3 litros de leite produzido, qual seria seu “custo” de produção? Independente do cálculo ser correto ou incorreto, se este indivíduo gastar metade do dinheiro em concentrado, o gasto total por litro de leite será de R$0,16/litro aproximadamente. Evidentemente que não remunera depreciações, mão de obra, manutenções, etc. Porém, não é assim que se faz as contas nestes tipos de propriedades? Nesta situação, com preços de R$0,25/litro pago ao produtor, a “sobra” de dinheiro no fim do mês seria de aproximadamente R$400,00, já descontando a compra de concentrados e outros itens como produtos veterinários, diesel e outros.
Com o diminuto número de processos nesta propriedade, os familiares ainda poderiam se dedicar a outras atividades como trabalhar para terceiros ou mesmo possuírem uma horta para feira de domingo, como muitos possuem. Ainda como vantagem, o custo de vida é menor (campo), não há despesas com aluguel e ainda sobrará alguma renda com a venda e comercialização de bezerros e outras criações. Dentro da realidade brasileira, qual o nível social que esta família poderia ser classificada?
Portanto, existe disponibilidade de leite a preços muito abaixo da realidade dos custos de produção brasileiro. Não é o mercado que define os custos de produção? Adianta dizer que estes produtores não sabem fazer conta e estão perdendo dinheiro? Afinal, estão perdendo dinheiro ou estão melhor assim do que num subemprego na zona urbana?
A situação deixa o produtor de cabelo em pé e com razão, pois as perspectivas dentro desta situação apavora qualquer pessoa sã que está envolvida na atividade. A sensação é de que não há futuro para quem quer especializar-se e ganhar dinheiro.
Apesar dos preços não estarem nos níveis citados, o que dá a este artigo a definição de alarmista, os fatos direcionam o setor àquela situação.
Portanto, o quê fazer:
Dentro da propriedade: não há muito o que ser feito quanto à realidade do país. Observe que reduzindo ao máximo os custos de produção, nenhuma fazenda extremamente produtiva e eficiente conseguirá competir com tal situação. Porém, não se pode abandonar o barco e a grande maioria das fazendas ainda possui muita gordura a ser queimada. Portanto, mãos à obra. Vale lembrar que uma das particularidades da agricultura é a capacidade de suportar crises de preços, trabalhando no prejuízo durante algum tempo. Evidente que não é bom, mas a decisão de sair da atividade, dependendo do caso, pode ser mais prejudicial.
Existem excelentes trabalhos técnicos desenvolvidos a campo para melhorar a eficiência da propriedade. Os trabalhos vão desde nutrição e manejo de pastagens até elaboração de estratégias empresariais de longo prazo. Procure alguns técnicos, converse com especialistas do setor. Caso não seja possível arcar com os custos, forme um grupo de produtores para pagar em conjunto.
Atuação no mercado: parece até ingênuo dizer que o produtor tem como atuar no mercado, porém não é. Nos países onde o setor leiteiro é forte, há grande presença do cooperativismo. No Brasil o cooperativismo não vingou e pior, muitas cooperativas viraram casos de mal exemplo. O produtor precisa reverter esta situação.
Ainda quando se fala em mercado, o setor precisa entender de uma vez por todas que não pode se posicionar contra a preferência do consumidor. Para quem quer atuar no mercado é bom considerar que não dá mais para ficar de olho apenas na concorrência. O objeto de atenção agora é o consumidor. Quem acompanha a concorrência, está fadado a ficar sempre atrás dela. Como concorrer com gigantes? Através da união. É comum presidente de cooperativa reclamar da falta de interesse e de espírito cooperativista de seus associados e não aceitar, em hipóteses alguma, agir em conjunto com a cooperativa da cidade vizinha ou da mesma cidade, o que é mais absurdo ainda.
É imprescindível no Brasil reverter este quadro, ainda mais agora no setor leiteiro.
Atuação política: medidas políticas nunca irão melhorar preços para os produtores, portanto deve-se perder o costume de esperar que decisões governamentais resolvam os problemas do setor. O que se espera da classe política são medidas que possibilitem e favoreçam o crescimento do setor. Não se consegue apoio com “choradeira”, pois a imagem que o setor urbano faz do produtor não é das melhores. O setor tem que mostrar eficiência, seriedade e potencial de produção e geração dos diversos benefícios que o leite pode trazer dentro do contexto da multifuncionalidade da agricultura. O início das exportações, conforme dito anteriormente, favorece o poder de barganha do produtor neste momento.
Marketing: por incrível que pareça, marketing é tudo e não apenas propaganda na mídia. O produtor, seja através de cooperativas, associações ou parcerias com a indústria nacional, deve entender o mercado consumidor e elaborar planos que possibilitem que o cidadão se identifique com as causas do setor. Recentemente, em um encontro do setor leiteiro, o professor Paulo Machado, da “Luiz de Queiroz”, chamou a atenção para a falta de leite no intervalo das palestras. Como esperar que o consumidor aprecie leite se o próprio produtor está consumindo suco, café, refrigerantes, isotônicos, etc? “Ah! Leite não é a toda hora que se bebe.” E refrigerante, suco e outros? Precisa-se quebrar este tabu pois é muito mais saudável beber um “copão” de leite no almoço, ou mesmo leite com manga, do que uma Coca Cola. Esse trabalho é interesse de todos os envolvidos no setor, porém caso o produtor não esteja no mercado, os benefícios não chegarão aos seus bolsos.
É fácil deduzir que a situação não é fácil, mas por quê seria? Quando se fala em administrar a propriedade, vale lembrar que todos os pontos acima, e mais alguns não menos importantes, também fazem parte da administração. Olhar apenas para dentro da propriedade é negligenciar fatores que culminarão com o fracasso na atividade.
É a habilidade do produtor em reverter um quadro desfavorável que ditará as perspectivas para o setor.
Se o produtor tentar mudar a sua concepção de administração e buscar dar uma atenção mais abrangente à sua atividade, pode ser que também não obtenha sucesso - o mercado pode ser incerto. Porém, caso nenhuma atitude seja tomada, é certeza que o que o aguarda é o fracasso.
Como atuar em 2002?
Caso confirmem-se algumas estimativas mais alarmantes de queda na produção, os preços poderão reagir de maneira favorável. Continue lendo.
Publicado por: Maurício Palma Nogueira
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Maurício Palma Nogueira
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