Itens básicos à necessidade humana, como os alimentos, perderam importância no orçamento familiar, o que vem sendo divulgado nos último dias.
Tal constatação não implica na conclusão de que a população está consumindo menos, mas que os gastos com alimentos são menores.
Segundo pesquisa da Nilsen, divulgada pela Folha de São Paulo no ano passado, de agosto de 94 a dezembro de 2000 os aluguéis subiram cerca de 300% e a energia elétrica 180%. já o preço dos alimentos subiu em torno de 60%. No período, a inflação acumulada foi de 94%. Portanto, os preços dos alimentos têm segurado a inflação no Brasil, ou seja, a perda de receita dos agricultores permitiu maquiar o aumento do poder de compra dos consumidores. A agricultura paga, isoladamente, todos os custos sociais do Brasil. Observe a figura 1, com a evolução do número de cestas básicas adquiridas com um salário mínimo de maio de 1995 até agora.

Os dados do gráfico confirmam a conclusão da pesquisa publicada pela Folha de São Paulo em 2001.
No bolsos dos pecuaristas e demais agricultores, o fato é sentido através do não aumento nos preços médios que, não acompanhando a inflação, promove esta queda na participação dos alimentos no orçamento familiar.
O que se vê é uma alteração de necessidades percebidas por parte dos consumidores. O maior sintoma do fato é o número de pessoas de baixa renda usando telefones celulares, sem que haja motivo algum para isso. Lembre que por mais barato que seja o aparelho, o telefone vem com uma conta mensal muita vezes além da realidade deste consumidor. Quem paga esta conta é a perda de valores reais nos preços dos alimentos. Observe que foi utilizado apenas um exemplo de gasto desnecessário e exageradamente oneroso para o cidadão, que é o telefone celular.
O que parece ser bom no curto prazo, com a melhora maquiada no poder de compra do consumidor, pode consistir num problema futuro sem precedentes, criando um círculo vicioso de desemprego e subdesenvolvimento no campo e no parque das agroindústrias, que são as indústrias que tem no mínimo 20% de suas matérias primas originadas no campo.
No entanto, discursar não adianta nada. Estas condições ocorrem pela má informação e imediatismo dos agricultores e pela agilidade manipuladora de quem se interessa pelos baixos preços no campo. Não se negocia sem informação e não se vence sem conquistar a opinião pública.
Nos produtos de consumo que competem diretamente com o leite, tanto nos hábitos como no bolso, a maioria dos líquidos apresentou crescimento percentual no consumo per capita acima do leite fluído como, por exemplo, a água mineral, cujo consumo per capita subiu 173% de 1991 a 2001. No mesmo período, o consumo per capita de refrigerantes aumentou 70,8%, enquanto o leite, que é importante fonte de proteína animal, cresceu apenas 14% desde 1991.
Só durante o plano Real (1995), o consumo "per capita" de cervejas aumentou 31%.
* Nota: A Nata do Leite deste mês traz uma estimativa de quando o litro de leite poderia ser pago pelo consumidor atual comparando com o período de 1995 a 2000, caso tivesse acompanhado a inflação.