Buscando propostas de soluções frente ao cenário

O mercado não é inerte, é vivo e está em mudança, sempre, saiba mais.

Publicado em: - 5 minutos de leitura

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Alguns colegas, leitores do MilkPoint, criticaram o artigo da semana passada "O longa vida e sua sina", acusando-me de defender o estabelecimento deste produto no mercado. Embora algumas manifestações tenham sido feitas com irreverência, por brincadeira, acredito que seja proveitoso tecer comentários sobre algumas posições.

No mercado, não existem opiniões a favor ou contra um produto por parte do analista. Quem defende o produto, ou não, é o consumidor, o implacável juiz daqueles que desejam se estabelecer nas vendas de qualquer coisa comprável.

Os envolvidos na cadeia leiteira, objeto de interesse da maioria dos leitores deste portal, devem analisar os fatos friamente para que estratégias sejam planejadas de maneira conivente com a realidade e em benefício de todos.

A maior parte dos discursos que ouço tem sido apaixonados e românticos, sentimentos um tanto superficiais quando o assunto é mercado, mesmo que a maioria dos produtores de leite sintetize estes sentimentos pela atividade. Escuta-se ofensas, troca de insultos e comparações absurdas visando defender uma ou outra opinião.

O cenário atual permite tecer algumas perspectivas antagônicas para o futuro do mercado do leite, das quais a mais provável não é favorável ao produtor rural.
A população brasileira possui baixa renda, o que leva à necessidade de produção de alimentos a preços muito baixos, para torná-los acessíveis ao consumidor. A agricultura tem funcionado como âncora verde, pois outros itens componentes do orçamento familiar aumentam, reduzindo o dinheiro disponível do consumidor que passa a gastar menos (por necessidade) em alimentos. Evidentemente, o consumidor não pára de alimentar-se, mas vai trocando de comida, comprando o que o dinheiro permite.

De agosto de 1994 a dezembro de 2000, indicadores econômicos informam que os aluguéis subiram cerca de 300% e a energia elétrica, 180%. Os preços dos alimentos subiram em torno de 60%. No período do plano Real, a inflação acumulada de agosto de 94 a dezembro de 2000, foi de 94%. Embora há quem diga que a agricultura não é mais a âncora verde, os preços estão ancorados.

No entanto, esta perda de valores não tem sido absorvida igualmente por todo o sistema agro-industrial. As redes de distribuição perderam margens, porém em menor proporção que as indústrias, cada vez mais reféns da necessidade de escala e de produtos de baixo lucro unitário.

Quem está absorvendo o maior impacto desta perda de valores verificada, infelizmente, são os produtores.

Desgraçadamente, as condições atuais abrem espaço para o achatamento nos preços pagos à produção. Cabe destacar que as doze maiores empresas de laticínios do Brasil coletam leite de cerca de 10 a 14% dos produtores do País, que possuem uma média diária de 135 litros de leite, desempenho 100 a 200% melhor, em termos de volume de leite, do que a média nacional (considerando as estimativas de que existam de 800 mil a 1,2 milhão de produtores de leite). Abre-se margem de redução nas compras pois, na realidade, o produtor nacional (os melhores entregam em média menos de 200 litros/dia) possui baixa produção diária.

Cerca de 88% dos produtores brasileiros produzem menos de 50 litros de leite por dia e respondem por pouco mais de um terço da produção nacional (36% do volume total). Na outra ponta, respondendo por 28% da produção nacional, estão os 2% do total de produtores que ultrapassam a média de 200 litros por dia, segundo dados do IBGE.

Note que parcela considerável dos 720 mil a 1,08 milhão de produtores tendem a se sujeitar a entregar o leite a valores extremamente baixos, pois nivelam sua situação com a condição de extrema miséria do País.

Análises que reportam custos baixíssimos acabam levando em consideração produtores nestas condições (que não deixam de ser reais). Mesmo um produtor com um maior volume, porém abaixo dos 300 litros/dia, irá remunerar pouco a mão de obra, possui baixo investimento em bens de capital e nem sequer considera o valor da terra.

Portanto, quando o empresário produtor de leite se depara com custos nessas bases, com muita razão, parte a agredir o analista que se esqueceu (ou não quis) de especificar a realidade das condições em que os dados foram obtidos. Seria difícil acreditar numa produção em escala, nos moldes empresariais, com um similar ao obtido numa situação em que a "sobra" de R$300,00 a R$500,00 mensais (empregando duas ou três pessoas da família) seria classificada como um bom padrão de vida.

Atualmente, com o mercado aceitando produtos obtidos a partir de matéria-prima de qualidade inferior, é mais provável que a coleta de leite continue baseando-se em sistemas de produção de baixos volumes, procurando sempre bacias distantes e matéria-prima barata.

Portanto, caso nada seja feito, não é exagero pensar que produtores maiores deixem a atividade ao contrário do que se previa.

Ótimo! - E o que deve ser feito?

Todas as ações possíveis devem ser colocadas simultaneamente em prática. Não adianta discurso exaltado, troca de ofensas e confusão sobre os deveres dos envolvidos.

Entidades de classe e medidas políticas não irão solucionar problemas relacionados estritamente ao mercado.

Antes da mobilização para a união da classe, é importante que todos saibam realmente o que querem. Não deve haver uma divisão entre pequeno e grande produtor, mas sim entre produtores sérios e os equivocados, aventureiros e perdidos.

Aquele pequeno produtor, com menos de 50 litros por dia irá sobreviver, porém por que sobreviver com o mínimo e não com o médio ou, melhor, o máximo possível?

Não há mais espaço para ineficiência. Porém eficiência só não faz milagre. O entendimento e a participação construtiva nas atividades desenvolvidas por qualquer entidade que represente legitimamente o setor torna-se cada vez mais importante.

Regionalmente existem associações se mobilizando; entidades, universidades e institutos desenvolvendo trabalhos excelentes de profissionalização do pequeno produtor. Os produtores maiores cada vez mais se voltam para ações realistas e eficazes, buscando compreender o mercado. Cooperativas se mobilizam visando inovação e competitividade, apesar de todas as intempéries e dificuldades.

O mercado não é inerte, é vivo e está em mudança, sempre.

O produtor, independente do volume de produção, não pode se dar ao luxo de ser ineficiente dentro da fazenda e nem de negligenciar aos acenos do mercado. Atitudes de empresário não são limitadas ao trabalho de produzir leite, mas também de saber vendê-lo.

* Leitura complementar: Informativo A Nata do Leite, edição 43
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Material escrito por:

Maurício Palma Nogueira

Maurício Palma Nogueira

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Rogerio Silva de Lima
ROGERIO SILVA DE LIMA

TEIXEIRA DE FREITAS - BAHIA - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 15/10/2001

Tudo isso não nos leva a pensar que o ideal seria um desenvolvimento às avessas, ou seja, ao invés de investir em qualidade, em profissionalização, não seria melhor continuar com vacas de baixo potencial, ordenha manual, só pastagem, esperando as vacas fazerem milagres...?
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