Encerrada a primeira metade do ano, é possível se fazer uma breve análise do que se passou no setor lácteo nacional. Talvez uma expressão que pudesse resumir os sentimentos do setor fosse "frustração de expectativas". Isso porque o ano começou com notícias alvissareiras por conta da aprovação das medidas antidumping a serem aplicadas contra o leite importado da União Européia (UE), Nova Zelândia, Argentina e Uruguai. A aplicação dessas medidas acrescidas da taxa de 27% da TEC (Tarifa Externa Comum do Mercosul) levou a uma taxação de 42% do leite proveniente da UE e 31% do leite neozelandês. Já com relação à Argentina e Uruguai foi estabelecido um acordo particular o qual, na prática, representou um valor de referência em torno de US$ 2.000/ton de leite em pó. Enfim, esses valores estabeleciam uma expectativa de balizamento de preço em torno de R$ 0,50/litro para o produtor nacional no período da entressafra. No entanto, tal expectativa não se consolidou, gerando frustração por parte dos produtores, uma vez que o preço pago pelo litro de leite em junho ficou na casa dos R$ 0,41 para o leite B e R$ 0,35 para o leite C.
Mas, pior do que o preço do leite não ter atingido um pico mais elevado, foram as notícias recentes dando conta de queda do preço do produto já no mês de julho. Tal fato representa um adiantamento da queda tradicional de preços ao produtor e não sinaliza boas perspectivas para a próxima safra. Na verdade, o mercado ainda não apurou precisamente as causas desse fenômeno. No entanto, especula-se que uma série de pequenos fatores sinérgicos colaboraram para tal.
Primeiramente, os dados, estatísticas parciais e comentários dão conta de um aumento expressivo na produção. Recentemente, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentou dados relativos ao primeiro trimestre deste ano, quando houve uma produção total de 3,25 bilhões de litros de leite no País, representando um aumento de 8% em relação ao mesmo período do ano passado, quando produzimos 3,0 bilhões de litros. Além disso, estima-se que a produção na entressafra deste ano foi substancialmente maior do que em outros anos, havendo redução significativa da sazonalidade, fato motivado pela maior tecnificação dos produtores e melhor suplementação na seca. Soma-se a isso, algumas suspeitas de queda na demanda por lácteos decorrentes do desaquecimento da economia e da crise energética. Por exemplo, o Sindileite, do Estado do Paraná, reporta uma queda de 5% no consumo de lácteos no mês de junho. Tal situação pode estar relacionada, teoricamente, com o fato do preço do leite longa vida não ter disparado no varejo como ocorreu no ano passado, indicando que as grandes cadeias de supermercados devem ter detectado uma demanda desaquecida por parte dos consumidores.
Além do mais, algumas grandes empresas captadoras de leite anunciaram restrições nas suas aquisições de matérias-primas para atender a necessidade de redução de consumo de energia nas suas plantas industriais, embora o que se comente no mercado é que isso não passa de uma estratégia dos grandes laticínios para gerar um preço de referência mais baixo da matéria-prima. A estratégia de tais empresas foi restringir drasticamente a aquisição de leite no mercado "spot", o que gera um efeito dominó significativo no mercado de leite, uma vez que hoje, o mercado "spot" é expressivo no que se refere à oferta de leite.
Com todos esse fatores presentes, a expectativa é que o preço deflacionado do leite pago aos produtores neste ano possa ficar abaixo daquele pago no ano passado, apesar das boas expectativas presentes no início do ano. Neste cenário, os produtores precisarão ficar muito atentos na administração dos seus negócios para não amargar prejuízos, até porque, com a desvalorização do real, sempre existem fortes possibilidades de aumento de preço dos insumos, seja daqueles importados ou mesmo daqueles cotados em dólar, como os grãos de exportação.
Se por um lado o cenário para os produtores foi de frustração de expectativas, não podemos esquecer que o setor proporcionou boas notícias para o País. Em primeiro lugar, deve-se apontar a diminuição das importações, que, até o momento, são da ordem de 50% em relação ao mesmo período do ano passado. Somente nos primeiros seis meses do ano, a redução nas importações de lácteos foi de 43% e a economia de divisas com a importação desses produtos ficou na casa dos US$ 66 milhões. A expectativa é de que, neste ano, as importações não ultrapassem o patamar de 1,2 bilhão de litros, com uma redução de quase 35% ou 600 milhões de litros em relação ao ano passado e isso poderia representar uma economia de mais de US$ 100 milhões para o País, aliviando o peso sobre a balança comercial brasileira. Esse é um aspecto muito positivo, pois a dependência das importações vem diminuindo de forma sistemática e contínua nos últimos anos, representando grande economia de divisas para o País. Nos anos de 98, 99 e 2000, o País gastou, respectivamente, US$ 521 milhões, US$ 412 milhões e US$ 339 milhões com a compra de leite, com a perspectiva que esse valor não ultrapasse muito a casa dos US$ 200 milhões neste ano.
Além dessa boa notícia, não podemos esquecer de que o aumento constante e sistemático da produção de leite é muito salutar para o País, especialmente numa situação em que a sazonalidade da produção vem diminuindo, ou seja, a produção de leite no Brasil vem aumentando (na década de 90 aumentou a uma taxa média de 4% ao ano, sendo o terceiro produto agropecuário que mais cresceu nos últimos 10 anos, perdendo apenas para a carne de frango e soja) e esse aumento da produção é proporcionalmente maior na entressafra, indicando uma maior tecnificação do setor, com a produção mais estável durante o ano todo. E já há quem fale na possibilidade do Brasil exportar leite num futuro próximo, passando de grande importador na década de 90 a importante "player" exportador no mercado internacional de lácteos, da mesma forma como ocorreu com o milho e o algodão.
Para finalizar este balanço, não se poderia deixar de mencionar mais uma vez que a tão falada portaria 56, que normatiza o PNMQL (Programa Nacional de Melhoria da Qualidade do Leite), continua sem receber o aval final do governo. Enquanto isso, aquecem as discussões quanto à necessidade imediata das novas normas e possíveis impactos das mesmas sobre o setor. O fato é que não se pode negar que as condições de infra-estrutura do nosso país ainda são precárias e sem o devido suporte, como a ampliação da eletrificação rural, melhoria de estradas, educação dos produtores, incremento da rede nacional de laboratórios e da estrutura de monitoramento e inspeção de leite, tal plano teria um alcance extremamente limitado e seria mais uma das boas leis para ficar no papel.
Balanço das importações de lácteos pelo Brasil no ano de 2001

Fonte: MDIC