Pois bem, estas são notícias alvissareiras para todos nós que trabalhamos com o agronegócio. No entanto, gostaria de fazer uma análise crítica histórica do comércio exterior brasileiro e talvez desmistificar algumas questões e evitar o ufanismo agronacionalista que aponta o agronegócio como grande alternativa para o equilíbrio das contas externas do nosso país e como a base de uma plataforma de desenvolvimento para o Brasil.
Antes de mais nada, gostaria de frisar que não há dúvidas de que o agronegócio é historicamente o fiel positivo da balança comercial brasileira, sendo isto particularmente verdade nos três últimos anos. Em 1999 o saldo comercial do setor agropecuário foi positivo em US$ 12,2 bilhões; no ano de 2000 em US$ 11,4 bilhões. Neste período, o saldo geral da balança comercial brasileira foi negativo em US$ 1,3 bilhão e US$ 697 milhões nos anos de 1999 e 2000, respectivamente. Ou seja, se não fosse a contribuição marcante do agronegócio a balança comercial e por conseqüência o balanço de pagamentos do país teria ido pelos ares, comprometendo a estabilidade econômica. Agora para o ano de 2001 os números são ainda mais favoráveis. Somente até o mês de outubro o saldo comercial agropecuário já apontava em superávit de US$ 10,1 bilhões, cerca de 35% maior do que o igual período do ano passado, e isto contribuirá para que o saldo geral da balança comercial brasileira seja superavitário pela primeira vez desde a entrada em vigor do Plano Real há 7 anos. Estima-se para este ano um saldo positivo acima de US$ 2 bilhões, com uma tremenda contribuição do agronegócio, que deve exportar mais de US$ 18 bilhões.
Pois bem, até aqui a análise é muito positiva para agrointeressados. No entanto, sem querer negar o potencial do agronegócio como elemento importante para o desenvolvimento do país, fica difícil aceitar, após uma análise mais minuciosa, que o setor agropecuário vá ser o sustentáculo do processo de crescimento e desenvolvimento brasileiro. Vamos aos números e estatísticas:
1) a expressão do comércio agrícola dentro do comércio mundial é aceleradamente decrescente
Em 1970, o comércio agrícola era responsável por 18,9% do comércio mundial. No ano de 2000, este valor foi de 6,6%. A média desse parâmetro dos anos 70, 75, 80, 85, 90 e 95 é de 14%. Isso significa claramente que o mundo comercializa cada vez mais outras coisas que não commodities agrícolas, produtos de baixo valor agregado. Hoje quem pensa em se sobressair no campo do comércio internacional tem que partir para produtos tecnológicos e de alto valor agregado, pois se fatura mais divisas vendendo computadores e telefones celulares do que vendendo soja e carne. Não é à toa que o principal produto de exportação dos EUA é a indústria cinematográfica (vende-se Hollywood com alto valor agregado) e o segundo produto é composto por aviões (de guerra e comerciais). Isto me leva a concluir que temos que botar mais fé numa Embraer do que nos nossos frigoríficos, por exemplo.
Agricultura mundial - participação do comércio agrícola no comércio mundial

2) A participação do Brasil no comércio internacional é pífia
A participação do Brasil nas exportações mundiais no ano 2000 foi de apenas 0,89% e nas importações de 0,88%. Há cerca de 30 anos, esses valores eram de 0,96% e 0,98%, respectivamente, e se fizermos a média dos anos 70, 75, 80, 85, 90 e 95 teremos um valor idêntico de 1,17 % tanto para exportações quanto para importações. Ou seja, em termos de comércio internacional, o Brasil é um mero figurante inexpressivo dado o nosso tamanho territorial e o potencial econômico.
Mas no setor agrícola a participação brasileira é diferente !! (como diz orgulhosamente o ministro Pratini de Moraes). Do comércio mundial total o Brasil representa apenas 0,9%, mas no agronegócio, é gente grande e ocupa 4% do total.
Isso é verdade, mas analisemos com cautela esta colocação. Em 2000, a participação das exportações agrícolas brasileiras no comércio agrícola mundial foi de 3,84% realmente. Mas, no longínquo 1970, essa participação já era de 3,74%, ou seja, em 30 anos não avançamos em nada nas nossas exportações agrícolas. E pior, se fizermos uma média dos anos 70, 75, 80, 85, 90 e 95, chegaremos a um valor de 4,19%. Isso significa que na entrada do novo milênio a agricultura brasileira exporta proporcionalmente menos do que na média das décadas 70, 80 e 90.
Já pelo lado das importações agrícolas, no ano 2000 a nossa participação foi de 1,07% do mercado internacional, enquanto que esse valor era de apenas 0,48% em 1970. Se pegarmos a média dos anos 70, 75, 80, 85, 90 e 95, teremos um valor de 0,75%. Ou seja, estamos importando produtos agrícolas cada vez mais e com as exportações agrícolas praticamente estagnadas ou mesmo em queda.
Para exemplificar o fracasso de nossa pátria no comércio internacional podemos fazer uma comparação do Brasil com a China. Há 20 anos a China e o Brasil exportavam aproximadamente o mesmo valor, cerca de US$ 20 bilhões. Em 2001 o Brasil alavancou suas exportações para US$ 55 bilhões, um incremento de 175% em 20 anos. No entanto, nesse mesmo período as exportações chinesas tiveram um aumento de 1250 %, exportando US$ 250 bilhões no ano de 2001. E como questiona o colunista Clovis Rossi: "O curioso é que só agora, ao entrar na OMC, a China terá que fazer as concessões que o Brasil fez antes, abrindo unilateralmente a sua economia. O que terá dado errado nesses 20 anos?".
Comércio exterior brasileiro participação das importações brasileiras nas importações mundiais

Comércio exterior brasileiro participação das exportações brasileiras nas exportações mundiais

3) A participação das exportações no PIB brasileiro é baixa
Isto reforça a questão anterior. Basta ver as tabelas em anexo para verificar que a participação das exportações no PIB brasileiro é extremamente pequena quando comparado com outros países. Além disso a participação das exportações agrícolas em relação ao PIB decresceu na última década bem como a participação do PIB agropecuário em relação ao PIB total do país que também é decrescente.
Macroeconomia - participação e crescimento do PIB por setor*

Macroeconomia: PIB total e agropecuário

Economia mundial relação entre PIB e exportações totais países selecionados

PIB X EXPORTAÇÕES AGRÍCOLAS

4) O Brasil é dependente de tecnologia, sendo que esta é um fator de agregação de valor nas transações comerciais. Segundo um estudo da FGV-SP4 que avaliou os negócios de exportações e importações de serviços tecnológicos (fornecimento de tecnologia, marcas e patentes, implantação de serviços, franquias, etc..) entre 1990 e 2000, o montante envolvido nesse tipo de transação foi de US$ 14,5 bilhões ou algo em torno de 0,005% do PIB. O estudo conclui que este volume de negócios é muito pequeno num cenário internacional no qual a inovação tecnológica é a moeda forte da vez. Como referência pode-se apontar que os EUA movimentam 4% do seu PIB, ou cerca de US$ 320 bilhões com exportação e importação de tecnologia. E para piorar o quadro, além do Brasil movimentar pouco em termos de serviços tecnológicos, a balança comercial desse setor é altamente negativa. No período analisado no trabalho da FGV-SP o Brasil importou US$ 11,7 bilhões e exportou apenas US$ 2,8 bilhões em serviços tecnológicos, e mesmo no subsetor agropecuário, temo um déficit no ramo de tecnologia da ordem de US$ 8,1 milhões.
5)A melhoria expressiva do saldo comercial brasileiro no ano de 2001 tem componentes muito mais conjunturais do que estruturais
Fica claro ao analisarmos os dados de exportações e importações no ano de 2001, o forte impacto favorável da desvalorização do Real sobre a balança comercial. Observa-se nos gráficos abaixo que a mudança de tendência do saldo comercial se descola em 2001 em relação ao ano 2000 a partir de julho, quando passamos a nos beneficiar de forma mais intensa da desvalorização do Real. Ou seja, não podemos esquecer que este ganho de "competitividade" está muito mais atrelado a uma questão cambial do que a aumentos de produtividade, eficiência, etc... Além disso, temos um outro componente conjuntural que colaborou para a melhoria do saldo comercial: o desaquecimento da economia brasileira com a conseqüente desaceleração do crescimento do PIB. Considerando que para cada ponto percentual de crescimento do PIB há um conseqüente aumento de 2,5% das importações, qualquer crescimento do PIB de modestos 4% gera aumento da ordem de 10% nas importações, detonando as contas externas novamente. Ou seja, estamos frente a um dilema onde crescer pode implicar num desajuste do já frágil balanço de pagamentos. E talvez por essa e outras é que a equipe econômica opte por políticas conservadoras que refreiam o crescimento tais como a manutenção de uma alta taxa de juros. Em outras palavras, para termos um saldo comercial externo positivo precisamos refrear o consumo e o crescimento interno. E aqui entra a polêmica questão levantada recentemente por um potencial candidato a presidência da República, que afirmou que deveríamos priorizar o abastecimento do mercado interno e consumo dos brasileiros em detrimento das exportações. Cabe a pergunta: "É justo e ético com o povo brasileiro que tenhamos que refrear o consumo para que as contas externas fechem no azul?". E mais particularmente esta questão torna-se crítica quando falamos dos produtos agropecuários. "É inteligente e razoável fazer-se um esforço descomunal para produzir grandes quantidades de commodities agrícolas (alimentos, em última análise) de exportação enquanto temos um déficit nutricional tremendo de grande parte da população brasileira?". Sei que não existe um conflito intrínseco entre essas duas opções, pois podemos exportar muito (o que é positivo) e abastecer paralelamente o mercado interno com alimentos. Aliás, essa seria a minha opção. O difícil é aceitar filosoficamente apenas uma das opções. E aqui volta a história do bolo: de que adianta ele ser grande se o mesmo não for repartido, ou de que adianta se tentar planejar um país rico com uma horda de esfomeados ?
Um terceiro aspecto conjuntural que favoreceu o aumento das exportações brasileiras e especialmente das commodities agrícolas foi a ocorrência dos chocantes problemas sanitários enfrentados principalmente pelos europeus tais como a febre aftosa e a "vaca louca". Tais circunstâncias imponderáveis e circunstanciais alavancaram de forma expressiva a venda do complexo carne brasileiro, com um incremento no volume de exportações em 2001 da ordem de 50% para carne bovina, 36% para carne de frango e 43% para a carne suína em relação ao ano passado. Somente com esses produtos iremos faturar cerca de US$ 1 bilhão a mais do que no ano passado. Isso tudo com a colaboração dos problemas sanitários dos rebanhos argentino e uruguaio que perderam grande parte dos seus mercados. Além disso, tivemos um ano favorável em termos climáticos para a produção de grãos e em especial da lavoura de soja. Isso tudo, claro, sem desmerecer o incremento de produtividade devido às variáveis tecnológicas adotadas no nosso país.
A questão que merece reflexão é até que ponto é sustentável este cenário favorável, contando-se com apoio de fatores conjunturais. Qual o impacto de um realinhamento do câmbio sobre a nossa balança comercial? E qual o efeito da desvalorização do Peso argentino? E qual o impacto do crescimento do PIB brasileiro em taxas acima de 4%??
Enfim, são questões que precisam ser ponderadas para que se evite um otimismo exagerado que pode levar a frustrações no médio prazo ou a erros de análise que comprometam a nossa capacidade de planejamento estratégico do país.
Gostaria de encerrar este artigo fazendo uma última ponderação para diminuir o risco de ser mal interpretado na minha análise. Em primeiríssimo lugar, julgo que o agronegócio é um setor importantíssimo para o crescimento e desenvolvimento do país e que tem dado uma contribuição significativa nos últimos anos no sentido de aliviar a nossa balança comercial. Isso sem falar em outras questões absolutamente relevantes, como por exemplo o grande número de empregos associados às atividades agropecuárias hoje no nosso país. No entanto, não podemos descarrilhar pelo ufanismo fácil e passar a julgar que o agronegócio pode ser a coluna vertebral de um projeto de desenvolvimento do país. Isso seria ingenuidade ou erro de análise. Na verdade, o que vem ocorrendo é um destaque do agronegócio nacional (especialmente no caso da balança comercial) justamente porque outros setores não aumentam de expressão. Ou seja, na falta de um componente mais estruturado para alavancar o crescimento e desenvolvimento do país, ficamos com a única bandeira que sobrou - o agronegócio - e continuamos sendo fornecedores de matéria-prima básica para os países do hemisfério norte, justamente como viemos fazendo nos últimos 500 anos ... o que aliás exige também uma análise mais específica - será que nesse tempo todo não fomos exportadores de grande parte do nosso ativo ambiental na forma de commotidities agrícolas ? E mesmo assim alguém acredita nas falsas promessas de queda de subsídios ou abertura de mercado aos nossos produtos por parte dos países desenvolvidos como tentam aceitar mais uma vez alguns ingênuos após a reunião da OMC em Doha ? Mas essas são questões para um próximo artigo.
GRÁFICOS
Participação % do Brasil nas Exportações e Importações Mundiais - 1950 a 2000

Balança Comercial Brasileira - 1950 a 2000 - US$ bilhões FOB

Variação (%) Anual das Exportações e Participação (%) das Exportações no PIB
1950 a 2000

Evolução das Exportações Mundiais - 1950 a 2002 (***)

(***) 2001 e 2002 - Estimativa do FMI com base nos dados até setembro de 2001.
1O Estado de São Paulo
2Folha de São Paulo
3Gazeta Mercantil
4Faculdade Getúlio Vargas - São Paulo