Como observado na semana anterior, o aumento nas cotações do dólar tem pressionado uma alta nos custos de produção.
Inicialmente os impactos ocorrerão nos custos variáveis, que são aqueles que geralmente se desembolsa mês a mês na aquisição de insumos, pagamento de funcionários, alimentos, medicamentos, etc.
A grande polêmica que existe quanto à metodologia dos cálculos dos custos referem-se aos custos fixos e à metodologia de se ratear o valor do bezerro ou bezerra no cálculo final dos custos de leite.
Em meio a crise que o setor passa, com os preços baixos do leite não acompanhando a inflação e sem boas perspectivas, ainda há muito o que ser discutido com relação ao método dos cálculos de custos de produção.
Enquanto algumas correntes defendem que a conta deva ser feita com base na realidade econômica, o que aumenta o valor apurado nos cálculos, outros preconizam que alguns itens deveriam ser suprimidos, entre os quais a remuneração do capital investido, a remuneração da terra ou os custos oportunidade.
Quando se contabiliza estes custos, recomenda-se o uso de taxas de juros em torno de 3 a 6%, abaixo dos juros que se paga no mercado.
Evidente que calculando o que se dá o nome de custos econômicos de produção os valores apurados serão mais elevados. No caso do leite, especialmente em regiões com valor de terra elevado, o cálculo econômico levará fatalmente a propriedade à condição de prejuízo.
É com base nessa constatação que muitos têm se levantado contra a completa padronização da metodologia de cálculo, pois os números levariam o pecuarista ao "desânimo". Como se a realidade fosse mudar caso as metodologias fossem mais suaves no cálculo.
Quando argumenta-se que a agricultura tem que ser considerada à parte pois há algumas particularidades únicas, como por exemplo o valor da terra, o que justificaria uma supressão de dados, esquece-se que a produção agrícola e pecuária são atividades de alto risco, dada a importante dependência de fatores do meio ambiente.
Dêem uma olhada nas planilhas de custos de empresas urbanas que mexem com atividades de risco, como a construção civil. Para construir um prédio, evidente que se considera e cobra-se a possibilidade de acidente. Na agricultura subtrai-se alguns custos para que o "produtor não leve prejuízo".
Porém, deixando de lado discussões filosóficas, o cálculo completo dos custos possibilita algumas análises das condições da propriedade, conforme pode ser observado:
- Se a receita da propriedade cobre os custos totais, com cálculo completo, têm-se uma empresa estável e crescendo, podendo investir. A noção exata dos custos totais possibilita uma avaliação criteriosa dos próximos investimentos.
- Quando a receita cobre apenas os custos operacionais (variáveis mais os fixos) e parte dos custos totais, a atividade se mantém mas não remunera o capital e tende a não se sustentar por muito tempo. Ocorre a sobrevivência mas não há crescimento, não há capacidade de investir a longo prazo e, no futuro, a atividade pode não ser a opção mais atraente para a próxima geração.
Neste caso, o conhecimento dos custos totais pode não ser suficiente para a tomada de decisões eficazes, mas o produtor sabe que há um problema futuro ao invés de acreditar estar lucrando na atividade.
- Quando a receita é menor que o custo operacional, porém superior às despesas, a atividade está cobrindo todos os custos variáveis (despesas de giro) e somente parte do operacional fixo (depreciações). Nesta situação o empreendimento tende a se sustentar apenas no curto prazo. É um processo de descapitalização, o que tem sido muito comum nas fazendas de leite.
- Se a receita é igual às despesas, a atividade cobre apenas o custeio com recursos variáveis, tendendo a mudar de ramo se a situação assim permanecer.
Se a receita for menor que as despesas a empresa tem que buscar recursos de outras fontes, o que se trata de subsídio.
A decisão de curto prazo pode até não ser tão diferente, conhecendo ou não os custos totais, mas a longo prazo é uma informação extremamente importante.
O cálculo deve seguir os mesmos critérios que são utilizados por outros setores, pois a agropecuária é uma atividade empresarial para gerar lucros, como deve ser qualquer empresa. É um contra-senso falar para o produtor ser profissional em tudo, mas na hora de fazer contas deixar de lado alguns itens.
Vale ressaltar que o importante não é a forma do cálculo, mas sim as decisões que serão tomadas em cima do custo determinado.
Não se recomenda que se calcule os custos econômicos para vender a fazenda porque ela não dá retorno econômico. Cada caso é um caso e as decisões serão baseadas em outros fatores que não só a rentabilidade do negócio. Porém negligenciar a metodologia de cálculo de custos é procurar motivos para se enganar.
A decisão final é do produtor e não da metodologia.
Avaliação da propriedade: custos
Como observado na semana anterior, o aumento nas cotações do dólar tem pressionado uma alta nos custos de produção. Leia o artigo completo.
Publicado por: Maurício Palma Nogueira
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Maurício Palma Nogueira
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