O nível de eficiência produtiva da pecuária leiteira nacional é bastante modesto.
Este baixo desempenho certamente não é conseqüência de rigores climáticos e nem de sérios problemas de fertilidade do nosso solo.
O mercado não impõe limites à produção - ainda não produzimos o suficiente para atender a demanda interna.
Também não pode ser atribuído a problemas incontornáveis de qualidade do rebanho leiteiro, na medida em que a inseminação artificial veio democratizar a genética, tornando o processo de melhoramento dos rebanhos acessível à maioria dos produtores, independente do tamanho de suas propriedades rurais.
A tecnologia disponível hoje seria insuficiente para dar suporte a um crescimento acentuado da produtividade do rebanho leiteiro? Também não!
Penso que, se pelo menos 50% da tecnologia gerada nos centros de pesquisa do Brasil e do mundo nos últimos 15 anos fosse efetivamente aplicada em nível de propriedade, teríamos um acentuado incremento nos índices de produtividade.
Isto tornaria a pecuária leiteira do Brasil bem mais competitiva.
Tecnologia existe, o problema é que não chega à grande massa de produtores.
Há um enorme vazio entre a geração de tecnologia e a transferência dela para o campo.
Neste particular, a Assistência Técnica Institucional - aquela realizada por instituições públicas ou privadas, tais como Secretarias de Agricultura, Emater, Sindicatos Rurais e Cooperativas - têm uma parcela considerável de culpa.
Volumes significativos de recursos financeiros são investidos na contratação, manutenção e operação de equipes técnicas para assessorar os produtores.
Mas a falta de planejamento e a utilização de metodologias inadequadas fazem com que os efeitos práticos desses trabalhos sejam pouco significativos e a relação custo/benefício seja bastante desfavorável.
Vejamos alguns exemplos:
Qualquer empreendimento sério pressupõe a sua realização em pelo menos três fases - planejamento, execução e avaliação. Grande parte das instituições que prestam assistência técnica a produtores restringe-se à fase de execução. A falta de planejamento, com freqüência, cria conflito de objetivos entre produtores e técnicos. Enquanto estes, com a visão produtivista adquirida nos bancos universitários, fixam como objetivos da assistência técnica o aumento da produção e da produtividade, para os produtores o objetivo é sobretudo econômico. O que querem é aumentar a rentabilidade da exploração leiteira. Nesta ótica, produção e produtividade passam a ser meios e não fins, mesmo porque crescimentos significativos desses fatores não implicam necessariamente em maior rentabilidade econômica. Como na maioria dos casos não há, tanto por parte do produtor como do técnico, a avaliação econômica dos resultados, fica difícil medir os eventuais benefícios aportados pela assistência técnica.
Considerando que normalmente não são fixados indicadores de avaliação, tais como: intervalo entre partos, idade ao primeiro parto, desenvolvimento corporal de terneiras e novilhas, escore da condição corporal, controles de lactação e de reprodução, entre outros, não há como monitorar o desempenho dos rebanhos e nem avaliar os ganhos técnicos obtidos. Ou seja, os resultados concretos, quando existem, não aparecem.
Os relatórios limitam-se apenas a descrever as atividades desenvolvidas pelos técnicos - número de visitas, participação em eventos, quilometragem percorrida, recomendações encaminhadas - que servem mais para justificar o emprego do técnico do que para avaliar o grau de eficiência dos trabalhos realizados.
Como regra geral, é usado o sistema de assistência individual, representada por visitas eventuais às propriedades, sem programação prévia e sem objetivos definidos. Nestes casos, o técnico se concentra nos problemas imediatos, pontuais, perdendo a visão do todo.
Como a relação numérica técnicos/produtores é muito desequilibrada, algo em torno de 1:300 ou mais, é fácil concluirmos que poucos são os produtores que recebem visitas com certa regularidade.
A maioria fica à margem da assistência técnica.
Ainda, como agravante, é comum os assistentes técnicos priorizarem as tecnologias de produto sobre as tecnologias de processo.
Ou seja, é mais fácil apresentar receitas prontas indicando a compra de produtos - rações concentradas comerciais, defensivos, complexos vitamínicos, aditivos, equipamentos, etc.. - do que efetivamente transferir conhecimentos através de cursos de capacitação.
Estes tornam os produtores menos dependentes de recursos externos, mais atentos para os recursos disponíveis na propriedade e menos suscetíveis a serem enganados por vendedores inescrupulosos.
Os insumos intelectuais (conhecimentos) são os mais importantes porque além de terem custos mínimos, são perenes e resgatam a auto-estima do produtor, tornando-o agente do seu próprio destino.
É imprescindível considerar que o objeto da assistência técnica deve ser o homem e não o rebanho.
É no homem (proprietário, familiares e empregados) que está a origem da maioria dos problemas - por decisões inadequadas ou por falta de decisão -, e o homem será o principal agente das mudanças que venham a ser implantadas.
Por outro lado, produtores bem treinados, profissionalizados, não precisam mais da assistência regular de técnicos.
Isto possibilita que novos grupos de produtores, até então marginalizados, possam ser incluídos no programa de assessoria técnica.
Mais do que se apropriar de conhecimentos cabe ao técnico transferi-los para o maior número possível de produtores.
Temos que partir da base de que assessoria técnica competente é aquela que se torna dispensável ao longo do tempo.
Estes aspectos e outros não citados, estão a indicar que se faz necessário uma reengenharia do sistema de assistência técnica institucional brasileiro. O sistema atual configura-se inadequado por dois motivos. Primeiro: consome volumes significativos de recursos financeiros públicos e privados sem o correspondente retorno em termos de incrementos consistentes na rentabilidade e na qualidade de vida dos produtores.
Segundo: estabelece entre os produtores a imagem de que assistência técnica é isso que está aí e, portanto, não vale a pena investir recursos próprios em assessoria técnica. Por necessário, é preciso esclarecer que nossa proposta não é extinguir a assistência técnica institucional, mas sim reajustá-la de modo que possa suprir com maior agilidade e eficiência a crescente demanda tecnológica do setor leiteiro nacional.
1 Médico Veterinário
Diretor da OM Consultoria e Assessoria Técnica em Pecuária de Leite, e articulista dos informativos da Scot Consultoria
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