Luis Fernando Laranja da Fonseca
De forma suscinta podemos apontar que os principais entraves à implantação do novo PNMQL no Brasil seriam:
* Eletreficação Rural: muitas regiões do Brasil ainda carecem de uma ampla rede de energia elétrica nas áreas rurais. Além disso, a implantação de um sistema de resfriamento de leite exige não uma simples rede de energia mas sim energia elétrica de qualidade, ou seja, com baixos índices de oscilação de corrente e queda no sistema, além de proteção contra imprevistos tais como ocorrência de temporais e raios. Uma vez que é adotado um sistema de resfriamento na propriedade com coleta a granel, passa-se a ter uma "bomba relógio na fazenda", pois qualquer tipo de problema no sistema de frio, tal como falta de energia, determina na maioria das vezes a perda completa da produção ou o comprometimento de todo o leite de um caminhão-tanque.
* Estrutura Viária: considerando as dimensões continentais do Brasil, a ampla difusão das fazendas leiteiras e a falta de recursos e investimentos do setor público na manutenção e ampliação da nossa rede de estradas, esse pode ser um fator limitante em algumas regiões devido à dificuldade de acesso dos caminhões-tanque a algumas propriedades, especialmente durante épocas de ocorrência de chuvas. Dessa forma, é inviável planejar-se um complexo sistema de coleta a granel correndo-se o risco de não ter acesso a algumas propriedades durante certas épocas do ano. Assim, a implantação de um sistema de resfriamento do leite e coleta a granel exige um cuidadoso estudo por parte das indústrias, produtores e transportadores de leite sobre as condições da estrutura rodoviária da região.
* Custo do Resfriador: esse ponto pode ser bastante limitante para os pequenos produtores uma vez que um resfriador de leite, mesmo de pequenas dimensões envolve um investimento signficativo para uma pequena unidade de produção. Desta forma fica inviável para um produtor que produz, por exemplo, 100 litros leite/dia fazer investimento num tanque de resfriamento que tem um custo de pelo menos R$ 4.000,00 . Além disso, nessa circunstância o produtor não estaria otimizando o investimento, uma vez que o menor tanque do mercado seria muito maior do que a necessidade desse pequeno produtor. Considerando que algumas estatísticas apontam que mais da metade dos produtores de leite no Brasil produz menos de 50 litros/dia, essa questão do investimento na aquisição de um resfriador passa a ser um fator altamente limitante. Neste particular a questão dos tanque comunitários passa a ser relevante.
* Treinamento dos produtores: este é um fator extremamente importante num programa de disseminação de resfriamento do leite. É importante ter consciência de que a simples instalação de um tanque resfriador na fazenda não e a solução mágica para todos os males da qualidade do leite. É fundamental que o produtor saiba operar corretamente esse novo equipamento, e neste particular cabe destacar a importância da limpeza e desinfecção corretas do tanque. Se não houver um bom trabalho na higienização dos tanques, o sistema de coleta a granel vai tornar-se caótico, pois a qualidade do leite de alguns produtores vai permancer muito aquém do desejável. Isto é particularmente preocupante em regiões onde se está preconizando a coleta do leite a cada 48 horas. Esse sistema de coleta envolve um altíssimo risco e exige um trabalho muito bem feito ao nível de fazenda. Mesmo nos países desenvolvidos, tenta-se evitar sempre que possível a coleta a cada 48 horas. Logicamente que dá para entender a redução de custos envolvida com a coleta mais espaçada, mas cabe reforçar que isso exige um trabalho de alta qualidade na fazenda, especialmente no que se refere a limpeza do tanque e utensílios de ordenha. Só para destacar uma questão que certamente vai ser muito discutida num futuro breve no Brasil, pode-se apontar a importância das bactérias psicrotróficas sobre a qualidade do leite. Essas bactérias são capazes de se desenvolver e multiplicar-se relativamente bem mesmo a baixas temperaturas. Dessa forma, se a higiene na ordenha não for rigorosa e se não houver uma adequada sanitização do sistema de ordenha e do tanque resfriador, o padrão microbiológico do leite pode ficar muito aquém do desejado.
* Rede Nacional de Laboratórios de Análise Certificados: considerando que a nova legislação preconiza a realização de uma série de análises laboratoriais para aferição da qualidade do leite, com testes que vão desde a Contagem de Células Somáticas, Contagem Microbiana até análises bromatológicas e físico-químicas do produto, é importante avaliar a estrutura de análise que se dispõe no Brasil, de forma a atender uma demanda significativa de amostras. Se fizermos um cálculo simplista, considerando um total de 800.000 produtores formais de leite no Brasil e uma necessidade de 2 análises mensais (preconizada no PNQL) teremos um total de 1 milhão e 600 mil amostras a serem analisadas por mês. Se considerarmos tambem que os laboratórios trabalhariam efetivamente na análise das amostras durante 20 dias mês, teríamos um total de 80.000 amostras para serem realizadas cada dia. Isso exige um estruturação emergencial da rede de laboratórios certificados no Brasil e aparelhados com técnicos qualificados e com equipamentos relativamente complexos (como analisador de CCS). Aparentemente hoje contamos com 4 desses laboratórios centrais espalhados em diferentes estados do Brasil (RS, PR, SP e MG). Se considerarmos que podemos dobrar essa estrutura num curto espaço de tempo, de forma a termos 8 laboratórios regionais dispersos pelas diferentes regiões do Brasil, isso significa que cada um desses laboratórios teria que analisar em média 10.000 amostras/dia.
As potenciais limitações para a implantação do novo Programa Nacional de Melhoria da Qualidade do Leite - parte 2
De forma sucinta, podemos apontar os principais entraves à implantação do novo Programa Nacional de Melhoria da Qualidade do Leite. Saiba mais neste artigo!
Publicado por: Luis Fernando Laranja da Fonseca
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Luis Fernando Laranja da Fonseca
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