As pequenas associações em alta

A crise dos preços nos últimos anos também pode ser considerada um fator importante na mudança da postura do produtor. Continue lendo!

Publicado em: - 4 minutos de leitura

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A concorrência entre as indústrias pelo leite de fornecedores estrategicamente mais interessantes, seja pela localização ou pelo volume, fez com que o produtor ficasse mais atento com relação aos preços que serão pagos pelo seu produto.

A crise dos preços nos últimos anos também pode ser considerada um fator importante na mudança da postura do produtor. Afinal, depois de um período de preços do leite extremamente baixos, seguiu-se um ano em que os preços dos insumos foram altos. A saída para o produtor de leite só poderia ser através de maior atenção aos preços do mercado.

Nas compras de insumos, o produtor dificilmente altera os preços, a não ser quando compra em escala, mas, mesmo assim, os valores não se alteram significativamente.

Na venda de leite, atualmente, produtores de mesma escala de produção, nas mesmas regiões, têm recebido preços variando em até 10% de um para o outro. E a diferença não é apenas de uma indústria para outra, mas também na mesma.

Os produtores mais alienados ao comportamento dos preços no campo acabam sofrendo pressão, enquanto os atentos recebem preços mais elevados.

Durante o período das chuvas, esse fato foi marcante. A tendência é de que, no período seco, os preços se estabilizem entre os produtores de mesma escala, mantendo apenas a diferença de acordo com o volume de produção. Nas águas, tendo em vista a experiência acumulada de queda de preços no período, o produtor fica mais vulnerável à baixa, quando não possui informação, mesmo no cenário atual de falta de leite. É por isso que os preços mix (média geral), divulgados no mercado, ficam aquém dos valores que geralmente recebem os produtores que acompanham informações.

O cenário e a troca de informações criou uma oportunidade, em meio à crise, para produtores de pequenos volumes. Extensionistas que sempre reclamaram das dificuldades em fomentar associações e cooperativas entre os produtores, tiveram agora um bom argumento a seu favor: diferenças de preços em torno de 30% entre os pequenos e altos volumes de leite entregue.

Pode-se argumentar que esta diferença sempre tenha existido, porém, nestes últimos meses, mudar os patamares de preços tem sido mais fácil.

Temos relatos de associações com cerca de 10 produtores que mantiveram seus preços de venda cerca de 16% acima dos preços que estariam recebendo vendendo isoladamente. Relatam ainda que sofreram pressão durante todos os meses ao longo do período de safra. No entanto, a negociação e a informação mantiveram as condições de acordo com a realidade vigente no campo: falta de leite e preços firmes.

Algumas indústrias não aceitam pagar o mesmo preço do leite em conjunto para produtores que vendem em diferentes pontos, ou seja, haveria a necessidade de se colocar tanques comunitários. No entanto, desde que o leite esteja na mesma linha, em distâncias não muito significativas um do outro, a maioria das empresas tem aceitado a negociação.

Como essas negociações às vezes levam a mudanças para outras indústrias, voltou à tona aquela velha conversa da falta de lealdade dos produtores. "Basta um centavo a mais que o produtor pula", é o que normalmente se diz. Do outro lado, o produtor se defende alegando que o peso de cada centavo na sua atividade pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso. Outros ainda alertam que, em épocas de sobra de leite, a indústria não se lembra da lealdade.

Enfim, toda a discussão confirma a natureza conflituosa da cadeia leiteira. Porém, analisando friamente, se os pequenos produtores se organizarem, qual poderia ser o impacto para o setor leiteiro? Alguém sairia perdendo ou poderia ocorrer um efeito positivo em todos os elos da cadeia?
 

  • Para os produtores: Os preços mais elevados falam por si só. Essas associações não se restringem a pequenos produtores. Médios e grandes podem participar.
     
  • Difusão tecnológica: O comportamento em associativismo ou cooperativismo tende a promover naturalmente a troca de experiências tecnológicas. Toda cadeia agroindustrial do leite ganha com a tecnologia.
     
  • Para as indústrias: A negociação passa a ser por linha e não por produtor. Dentro de um país onde poucos litros são coletados por quilômetro rodado, a logística da coleta é de extrema importância.
     
  • Para as cooperativas: São as que mais têm sofrido impacto com a perda de produtores mais eficientes para a indústria de capital privado. Essa tendência aparente de mudança no comportamento dos produtores cria uma oportunidade para as cooperativas se reorganizarem. Por que não prestar este serviço de organização do produtor, dependendo do caso?
     
  • Qualidade do leite: Como tem sido exaustivamente colocado, os ganhos com qualidade dependerão de preços e mercado, e não apenas de legislação. As leis definem um parâmetro, mas é o mercado que fará com o que o produtor dê saltos qualitativos na produção de leite. Portanto, se houver preços melhores, difusão de tecnologia, linhas organizadas na coleta de leite, a tendência é que ocorram ganhos de qualidade na matéria prima.
     
  • Cadeia Láctea: É fato que o Brasil pode ocupar um espaço considerável no mercado internacional, porém como conseguí-lo sem uma melhor organização da cadeia? De nada adianta reclamar do custo Brasil se a Cadeia Láctea não estiver organizada.

    As oportunidades não podem ser desperdiçadas. Um setor não pode crescer as custas do mau desempenho de um dos seus elos.

    Num período em que se fala cada vez mais do potencial brasileiro no mercado internacional, a melhora do desempenho no campo é fundamental.
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Material escrito por:

Maurício Palma Nogueira

Maurício Palma Nogueira

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Nestor Luiz Breda
NESTOR LUIZ BREDA

SÃO MIGUEL DO OESTE - SANTA CATARINA - PESQUISA/ENSINO

EM 13/04/2003

Parabés pelo comentário.

Sou Engenheiro Agrônomo da EPAGRI e tenho atuado na organização dos agricultores. Gostaria de salientar que não é somente o preço que leva à vantagem competitiva. A organização dos agricultores proporcionou a troca de experiências que têm elevado a produtividade em taxas acima de 20%. Tenho um caso de um grupo de agricultores que elevaram a produção em 288% em 4 anos, sem considerar a aquisição de insumos de modo associativo e o uso racional dos equipamentos disponíveis entre os agricultores. Por outro lado a taxa de confiança se elevou em 83% entre os agricultores e o mesmo aconteceu entre os agricultores e indústria. Assim também se reduzem os custos de conflitos.

Qual a sua dúvida hoje?