Alienação ao mercado

Num momento que o MST e a discussão sobre reforma agrária chamam para si todas as atenções das notícias do setor rural, é oportuno falar sobre decisões e medidas alienadas aos acontecimentos e tendências de mercado.

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Num momento que o MST e a discussão sobre reforma agrária chamam para si todas as atenções das notícias do setor rural, é oportuno falar sobre decisões e medidas alienadas aos acontecimentos e tendências de mercado.

Foi enviada uma proposta de projeto (Projeto de Lei 1051/03), à Câmara dos Deputados, propondo o estabelecimento de um preço único para compra do leite "in natura", independente de volume e qualidade da matéria prima entregue pelos produtores.

A idéia é evitar que os pequenos e médios produtores sofram com os baixos preços pagos para o leite, significativamente inferiores aos preços recebidos pelos maiores produtores. Observe na figura 1 a diferença entre os preços médios, maiores e menores em São Paulo, Minas Gerais e Goiás.
 


Na média das três regiões, os preços dos produtores que recebem maiores bonificações são 58% superiores aos valores mais baixos pagos regionalmente.

Embora seja louvável e de extrema importância buscar métodos que possibilitem a permanência de pequenos e médios produtores no mercado, a solução proposta no projeto de lei apenas aumentaria o problema.

Os preços, caso fossem fixados num valor único, ficariam próximos ao valor "mix", que são os preços médios, representados pelas colunas centrais na figura 1. Produtores mais tecnificados, que investiram em volume, qualidade e homogeneizaram o volume de entrega ao longo do ano, teriam seus preços reduzidos, aumentando a tendência de abandono da atividade, algo que tem sido cada vez mais comum nas bacias leiteiras mais tradicionais.

Ledo engano acreditar que os preços se nivelariam pelos valores mais altos. No mercado de hoje, algo que temos sempre ressaltado, as indústrias não trabalham com elevadas margens de lucro. As condições das indústrias, ainda que mais favoráveis que as dos produtores, são apertadas e não permitem que se pague mais por um leite, cuja coleta é mais cara.

Soluções legais para problemas de mercado são inviáveis. É retornar ao tempo de mercado regulamentado, algo tão maléfico à competitividade do setor que cerca de uma década e meia depois da desregulamentação ainda se sente o impacto. É andar para trás, criar leis para serem desrespeitadas, com todo o respeito ao autor do projeto de leite, o qual agiu de maneira bem intencionada buscando solucionar um problema real do campo.

Qual seria uma solução?

Dentro das possíveis atuações que podem partir do setor público, acredito mais em programas de fomento e reestruturação do cooperativismo, algo que o Ministério da Agricultura e Pecuária já sinalizou como foco de atenção. O pesquisador da Empraba e professor Dr. Paulo do Carmo Martins, em artigo do site MilkPoint (11/7/2003), abordou os benefícios do cooperativismo e importância de iniciativas como a do Ministério para fixar o pequeno e médio produtor na atividade.

É preciso buscar soluções de como adaptar os produtores ao mercado e não adaptar o mercado aos produtores, principalmente porque o mercado muda constantemente.
E, no caso do leite, um produto altamente perecível e presente dentro das menores propriedades do País, nada melhor do que o associativismo e cooperativismo. Em cooperativas e associações os pequenos produtores teriam condições de obter as mesmas condições dos maiores, em relação a preços. Tanto na compra de insumos como na venda de leite.

Tentar adaptar o mercado a uma condição específica é andar na contra mão da história. É buscar uma solução de eficácia relativa no curto prazo e criar um problema de difícil solução a longo prazo.

Por isso a analogia com o MST e os programas de reforma agrária. Da forma como vem sendo conduzida, a reforma agrária tende a perpetuar a pobreza dos assentados. Custa caro à sociedade e os resultados não solucionarão os principais problemas, relativos à miséria dos trabalhadores.

Tais programas deveriam se basear na geração de empregos via investimentos no agronegócio e não em conceitos ultrapassados do início do século XX que já se mostraram ineficazes onde foram postos em prática.

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Material escrito por:

Maurício Palma Nogueira

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MARIA LUCIA ANDRADE GARCIA
MARIA LUCIA ANDRADE GARCIA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 16/07/2003

Recentemente recebi a visita de um grupo de pequenos produtores de Resende Costa, MG, que se reuniu numa associação que vende, mediante contrato, 13.000 litros de leite a preços próximos aos pagos aos grandes produtores na região. Implantaram um tanque comunitário, compras conjuntas de insumos e contrataram uma secretária que controla todo o movimento do leite e dos associados. O trabalho dos diretores é voluntário. Recentemente iniciaram o programa de melhoria da qualidade do leite em cooperação com a Emater e a Embrapa. Esse é a meu ver, um exemplo de iniciativa e profissionalização de pequenos produtores, que demonstra ser possível se situarem bem no mercado do leite sem a tutela do estado.
O articulista tem razão em apontar o cooperativismo em quaisquer uma de suas formas como a melhor solução para capacitar o pequeno produtor a competir no mercado.
Celso Ivan Ferreira
CELSO IVAN FERREIRA

LAGOA DA PRATA - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 15/07/2003

Realmente é um problema de dificil solução, pois estamos vendo produtores (pequenos/médios), tentando tecnificar e investir em qualidade mas são barrados pelo baixo preço recebido. E ao contrário que o artigo diz, as que mais difereciam preços são as cooperativas.

Obs. Muita das vezes produtores não conseguem mais escala por limitação de área.

<b>Resposta do autor:</b>

Prezado Celso,

O que eu coloquei no artigo não é que as cooperativas não diferenciam preços, mas sim que produtores associados ou cooperativados teriam melhores condições de negociar preços, tanto na compra como nas vendas.

Especialmente se estiverem dispostos em uma mesma linha, ou na mesma localização regional. A redução de custos possibilitaria cooperativas e indústrias pagarem mais pelo leite, que é o que ocorre com produtores de maior escala. Na verdade, abordei a formação de uma cooperativa para coleta e repasse de leite, podendo ou não ter uma indústria.

Cooperativas que atuam no mercado tem que se comportar conforme as indústrias, pagando os preços que são possíveis pagar. Não foi minha intenção dizer que o cooperativismo é justo e a indústria injusta, pois os fatos ocorrem conforme as tendências de mercado.

Presenciei, ao longo de 2002 e 2003, três casos de produtores que se uniram para entregar leite em conjunto e planejaram uma recuperação da atividade. Apenas um dos casos envolvia tanque comunitário, enquanto os demais apenas racionalizaram a coleta.

É muito comum vários laticínios ou cooperativas competindo pelo leite na mesma linha. Este é o principal problema que poderia ser eliminado através de cooperativas e associações. Bom para o produtor, que abocanhará na forma de preço o que a indústria gastaria em aumento de custos e bom para a indústria que terá um fornecedor melhor estruturado para investir, especialmente em qualidade.

A idéia é quebrar este círculo vicioso que infelizmente se formou no setor leiteiro.

Obrigado pela participação.

Atenciosamente,

Maurício Palma Nogueira
engenheiro agrônomo

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