No mercado “spot” os valores também estão pressionados. Os telefones devem estar tocando como nunca, neste meio de março, em busca de acordo nos preços. O fato é que há procura pelo produto e quem o tem quer valorizá-lo (lei básica de mercado).
Em 2001, após o aumento dos preços no mercado “spot”, os grandes compradores de leite, por várias razões, se retiraram das compras deixando os fornecedores sem ter a quem vender, com preços em baixa e mendigando por quem comprasse a matéria-prima. Mesmo com esta lembrança dolorosa, e ainda fresca na memória, o raciocínio dos fornecedores parece ser simples: o preço vai cair de qualquer maneira, então por que não aproveitar enquanto pode-se pressionar e aumentar?
Correto ou não, fica-se em um impasse e não dá para julgar quem está certo ou errado. É uma condição de mercado, sendo natural que as forças tentem “puxar a sardinha” para o próprio lado. Porém, esta situação deixa longas margens para o varejo ganhar força e pressionar toda a cadeia por trás dele.
Mantendo o assunto no longa vida, o aumento rápido nos preços ao consumidor trará para baixo todo o mercado, da indústria ao produtor. O varejo manterá os preços, pressionará os valores pagos à indústria e conseguirá manter as margens elevadas sobre um setor desorganizado e desesperado para escoar a produção. No final das contas, ainda posará como figura defensora dos interesses dos consumidores. Vale lembrar que até o final desta década estima-se que mais de 80% das vendas sejam realizadas através de grandes redes varejistas.
No mercado de leite, apesar de ainda controverso, há uma tendência de recuperação nos preços médios (do ano) em 2002, algo que ainda não se deve comemorar, pois, caso a média de preços seja mais alta, o fato será fruto da provável redução na produção e não de melhoria do mercado. A receita bruta do setor tende a não melhorar.
Como vem sido exposto por vários analistas, a oscilação anual da produção virá a ser um empecilho para o faturamento do setor. Ora o produtor será favorecido, ora será desfavorecido com os preços. No entanto, sob a ótica geral, este comportamento é extremamente prejudicial para qualquer plano de mercado.
Se o preço do leite subir por falta de produção, o fato estará acontecendo num contexto em que não haverá excedente para a exportação, o que jogará areia na engrenagem das ações iniciadas para abertura de mercado externo. Evidente que excedente implica em pressão baixista nos preços, porém, mesmo que este ano os valores pagos sejam favorecidos pela baixa oferta, nos próximos anos há a tendência de aumento de oferta de leite e novo ciclo de baixa nos preços. Observe que o aumento da produção, que vinha ocorrendo anualmente, pode parar justamente num ponto crítico, entre a auto-suficiência e a necessidade de importação, e começar a oscilar anualmente de acordo com os ânimos de produtores, safristas e aventureiros. Se a oscilação mensal da produção já consiste em um problema, imagine uma oscilação anual. Com isso a cadeia agro-industrial do leite fica sem identidade: importamos ou exportamos? A longo prazo nenhuma ação positiva de mercado pode ser efetivada nestas condições, o que condena o setor lácteo brasileiro à eterna condição de variabilidade de ânimos. Não há como trabalhar sem planejamento de longo prazo, além do que, produção de leite não é produção de grãos, que facilmente se altera de milho para soja ou outros produtos. A produção leiteira é uma atividade de alto custo de entrada e alto custo de saída, ou seja, é caro começar a atividade e pode ser mais caro ainda sair dela.
Sendo assim, na era do mercado global o setor leiteiro brasileiro soma as qualidades de não apresentar padrão qualitativo na matéria-prima, não ter constância de volume de produção, não concluir nenhuma ação conjunta de mercado, tanto interno como externo, não definir uma política e não possuir qualquer expectativa a médio e longo prazo.
Existem linhas que defendem o retrocesso tecnológico como forma de manter preços elevados do produto no mercado interno, enquanto outros defendem que há a necessidade de se profissionalizar e buscar ampliação de mercado, tanto dentro do país como fora. Por qualquer ótica que se analise o setor, a segunda opção é a mais viável para o futuro. O ponto forte do Brasil, que é a capacidade de produção, tornou-se o principal gargalo do mercado, ou seja, nem o potencial brasileiro é usado a favor do setor leiteiro. Qualquer ação dos produtores, dentro da realidade brasileira, promove facilmente um aumento considerável na produção, sendo que esta característica provocará facilmente a tão indesejável variação anual da produção. Sendo assim, a única saída para o Brasil é partir para a ampliação do seu mercado de maneira consistente e planejada.
No mercado externo, não dá para entrar e sair anualmente. Caso seja desta maneira, sempre exportaremos por causa de preços muito baixos, o que não parece ser muito convidativo.
O mercado interno é ainda a melhor opção. Por que negligenciar o poder de consumo no Brasil quando todas as empresas do mundo olham para o nosso mercado com a boca cheia de saliva?
Para desmentir que faltará preços e demanda, o brasileiro não consome leite por falta de hábito e não apenas por falta de dinheiro. Quando o consumo se retrai por preços altos não é por que o valor é inacessível, mas sim pela variação de preços. Observe na tabela 1 os valores mensais médios, máximos, mínimos e a variação entre mínimo e máximo do longa vida nos últimos três anos.
Tabela 1: Preços médios do longa vida no atacado

Considerando que o varejo sempre aplica as mesmas margens, como esperar que o consumidor não se assuste com o preço na prateleira? Em um mês o longa vida é um preço, no outro é uma vez e meia mais alto, quando não é o dobro. Sem dúvida alguma, seria possível aumentar a média anual dos preços sem provocar queda no consumo. Esta oscilação espanta o consumidor.
Observe na figura 1 a variação nos preços do leite longa vida em R$ nominais e R$ deflacionados pelo IGP-DI.
Em valores deflacionados o preço médio anual do leite longa vida eqüivaleria hoje a R$1,06 e R$1,08/litro para os anos de 1999 e 2000, respectivamente. Há espaço para aumentar o preço do leite longa vida, porém não subindo R$0,10 ao mês.

Evidente que esta situação favorece as táticas do varejo e, para alterá-la, torna-se necessário uma ação conjunta e uma política de estoques e preços. Da maneira que anda, o setor acabará “queimando” o próprio mercado.
Falar de ações conjuntas e integração da cadeia não é poesia e nem ilusão, como muitos tem afirmado. É uma necessidade para se manter no mercado. A única maneira de manter o foco no cliente final (consumidor) é trabalhar em prol de um objetivo comum, sem deixar chegar ao consumidor as divergências entre os elos da cadeia.