Segundo os produtores consultados, laticínios em diversas regiões de São Paulo anunciaram, para o leite produzido em dezembro, pagamentos variando de R$0,45 para os produtores de menores escalas de produção, a R$0,60/litro para os de maior escala de produção.
Caso esta informação se concretize, os preços estariam recuperando o aumento nos custos. Sobre os valores apurados no último levantamento, os preços de dezembro trariam 12% de aumento.
Conforme a Scot Consultoria estimou há um mês, o preço do leite recebido pelo produtor, para que remunerasse o aumento no custo de produção que ocorreu neste final de 2002, deveria aumentar ainda cerca de 15% em relação ao reajuste observado em novembro. Em novembro verificou-se um aumento de cerca de 8,5% no preço do leite.
Para que se tornasse um bom preço, precisaríamos de mais 20% de reajuste.
Portanto, verdade ou não, em termos de custo de produção o aumento no preço do leite, de acordo com as informações dos produtores, apenas põe o produtor em pé de igualdade com a situação corrente em 2000 e 2002 (o segundo semestre de 2001 foi péssimo em termos econômicos). Sendo assim, preços nestes patamares não seriam remuneradores para a realidade do produtor.
Porém, como é de conhecimento geral, preços não se formam de dentro para fora, especialmente na agricultura. Os preços são formados no mercado e quem ditará se há sustentação para os valores que têm sido anunciados será o consumidor.
Se o produtor vem sofrendo aumento nos custos de produção, o consumidor, por sua vez, perdeu poder de compra com a inflação batendo nas portas brasileiras novamente. Estima-se que na virada do Governo, com a incerteza vigente no mercado de capitais, o poder de compra de um salário mínimo recue de 1,4 cesta básica para cerca de 0,9 cesta básica. Embora pareça uma enorme perda de renda, vale lembrar que a participação dos alimentos no orçamento dos consumidores veio perdendo importância nos últimos anos.
Para que a qualidade de vida melhorasse na década passada, a agricultura sofreu forte pressão, resultando em perda relativa dos valores de seus produtos. Portanto, mais do que qualquer setor, a produção agropecuária "bancou" a melhoria da qualidade de vida.
Reajustar os preços agrícolas significa retornar a inflação?
Não, caso o consumidor racionalize suas compras. Gastar menos em itens de consumo supérfluos deveria ser a palavra de ordem. A guerra no mercado é pelo espaço no orçamento do consumidor, independente se será travada contra outros alimentos, ou com refrigerantes, cerveja ou com bens duráveis, como telefones celulares (que vem com conta mensal), vestuário, etc.
Portanto, como qualquer setor, o leite está na mão dos consumidores. Qualquer fato que afete a decisão de consumo, positiva ou negativamente com relação aos produtos do campo é fundamental para o setor. Por isso a preocupação de analistas de mercado e entidades organizadas, como a Leite Brasil, Faeg, CNA, Láctea Brasil, Leite São Paulo e outras com as recentes manifestações na televisão culpando os produtores pelo aumento dos preços de produtos lácteos.
Embora alimento seja de importância vital, setores mais organizados da economia conseguem, através de políticas de marketing, fazer com que a população dê mais valor para seus produtos, em detrimento dos alimentos. Não que deixarão de consumir, mas estarão convencidos a pagar menos pela comida.
Voltando ao preço do leite para o produtor; os aumentos realmente ocorrerão? Por enquanto são apenas expectativas, que ainda precisarão ser avaliadas em escala e submetidas a análises estatísticas.
Preço chegando em R$0,60/litro é igualar as maiores bonificações, geralmente por volume, aos valores pagos pelo leite "spot" no mês passado. Esse fato já ocorreu várias vezes neste ano e nada impede que aconteça novamente, apesar do período em questão.
No último levantamento da Scot Consultoria, mais de 55% dos entrevistados acreditavam em reajustes nos preços, no entanto poucos arriscaram falar em valores.
Caso os preços subam de acordo com as informações prévias, o comportamento nos preços do leite desde 1994 ficaria de acordo com a figura. Observe os preços do leite tipo C em São Paulo em reais nominais e em reais deflacionados pelo IGP-DI, ou seja, o valor que teria o leite caso os preços tivessem acompanhado a inflação durante o plano Real.

Os preços de novembro e dezembro foram estimados com base em informações colhidas junto a produtores, e que ainda deverão ser confirmadas em pesquisa ampla. Para o IGP-DI de dezembro, considerou-se o mesmo valor de novembro, 5,81%, considerado recorde durante o plano Real. Algumas correntes acreditam que este tenha sido o pico inflacionário, e acreditam em recuo da inflação do próximo mês.
A média do período (gráfico) é de R$0,50/litro, valor que já está sendo pago aos produtores de maior porte, mas ainda está longe de perfazer o preço para o mix do leite, hoje próximo dos R$0,40/litro, ou 20% abaixo dos preços dos últimos oito anos, quando considera-se a inflação.