A sina do produtor de leite - apagão, queda de preço, queda de consumo, excesso de oferta...

Parece que produzir leite no Brasil é realmente um "karma". Nas vezes em que se existe um cenário animador, surgem problemas. Saiba mais sobre essa realidade.

Publicado em: - 3 minutos de leitura

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Luis Fernando Laranja da Fonseca

Parece que produzir leite no Brasil é realmente um "karma". Nas raras vezes em que se vislumbra um cenário animador para os produtores, parece que surge um elemento novo para impedir que este cenário se concretize.

Peguemos a situação atual da produção de leite no Brasil. No início do ano, muito se comemorou com a vitória obtida pelas organizações dos produtores no sentido do estabelecimento de tarifas anti-dumping sobre os produtos lácteos. Além disso, por uma série de fatores, houve um aquecimento do mercado internacional de lácteos, elevando o preço dos produtos em dólar. Tais façanhas, associadas a uma sensível desvalorização do real, apontaram para a eliminação de uma das chagas que afetavam o produtor nacional: as elevadas importações de lácteos. Esses fatores geraram uma perspectiva de benefício em termos de preço ao produtor nacional, uma vez que com todos os acontecimentos (tarifas anti-dumping, valor do dólar e aquecimento do mercado internacional de lácteos), o balizamento de preço do produto importado apontava um valor de referência de R$ 0,50/litro, pelo menos. Ou seja, havia uma expectativa que, dada a oferta insuficiente de leite para o abastecimento do país, os valores a serem pagos aos produtores nacionais deveriam se aproximar dessa faixa de preço na entressafra deste ano.

Considerando que tradicionalmente o preço pago ao produtor se eleva gradual e significativamente na entressafra, era de se esperar que estivéssemos em pleno período de escalada de preços agora no mês de julho. No entanto, o que se observou nos últimos dias foi a circulação de notícias dando conta de queda no preço do leite em diversas regiões do país. Como explicar tal fenômeno atípico nesta época do ano?

Vamos a alguns fatos. Em primeiro lugar, neste ano tivemos um variável negativa, que foi o amaldiçoado racionamento de energia e o risco do apagão. Pois bem, mas como isto afeta o preço do leite? Em primeiro lugar, está sendo ventilada a hipótese de retração do consumo de lácteos desencadeada pelo receio dos consumidores, associado à crise econômica e política que volta a ameaçar o país. Estes fatos supostamente levariam a uma postura conservadora dos consumidores, com restrição de consumo. É interessante observar que nesta entressafra não tivemos um aumento tão substancial do leite no varejo como ocorreu no ano passado. Considerando que o setor varejista tem grande sensibilidade para avaliar a disposição de compra dos consumidores, temos aqui um fato para refletir. Além do mais, as grandes indústrias divulgaram no mercado notícias de que estariam restringindo sua captação de forma a reduzir o consumo de energia com o processamento do leite nas suas plantas industriais. Em termos práticos, supostamente as grandes indústrias restringiriam a aquisição de grandes fornecedores de leite no mercado "spot", como é o caso de algumas cooperativas de produtores, e isso leva a um efeito cascata perverso.

Para complicar ainda mais o cenário, as estimativas apontam um aumento expressivo da produção em várias regiões do país nesta entressafra. Inclusive existem relatos de bacias leiteiras que estariam produzindo mais leite em junho do que em janeiro, invertendo a curva de oferta. Esta variável estaria sendo estimulada pelo baixo preço do milho, que viabiliza uma maior suplementação de concentrado por parte dos produtores.

Em resumo, num cenário de queda de demanda e aumento relativo de oferta, a conseqüência é uma tendência de queda de preço aos produtores. O problema é que queda de preço em julho é muito precoce e danosa aos produtores. É interessante salientar que esta história toda tem um lado positivo para o país. Por um lado, diminuímos a nossa dependência das importações, ajudando a balança comercial. Por outro lado, observa-se que é possível diminuir a sazonalidade da produção de leite, o que significa uma maior tecnificação dos produtores.
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Luis Fernando Laranja da Fonseca

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Marcos Venício Cardoso Nunes
MARCOS VENÍCIO CARDOSO NUNES

OUTRO - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 06/09/2001

Os pontos positivos mostrados pelo professor (o aumento da oferta contribuindo para a balança comercial e a diminuição da sazonalidade da produção de leite) seriam ótimos se trouxessem benefícios ao produtor. No entanto, especialmente no caso da exportação, o produtor nenhum benefício teve. Alguém está lucrando nas costas dele...
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