A relação entre o preço do leite e a informalidade (parte 1)

Dentre as diversas mudanças estruturais pelas quais têm passado a cadeia láctea na última década, é importante destacar as que tiveram efeitos transformadores.

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Ana Luisa Mancini Da Riva, Marcos Veiga dos Santos e Luis Fernando Laranja da Fonseca

Dentre as diversas mudanças estruturais pelas quais têm passado a cadeia láctea na última década, é importante destacar aquelas que tiveram efeitos transformadores sobre todos os elos componentes do setor de lácteos do país: tabelamento de preços pagos aos produtor durante 50 anos e liberalização deste preços desde 1991, classificação do leite em função do tipo de instalações em que é produzido (A,B e C), aumento significativo da produção apesar de redução de preços pagos ao produtor e aumento do mercado de leite informal (Bortoleto, 1997).

De acordo com Gomes (1999), no mercado de lácteos do Brasil podem ser identificados dois segmentos: o mercado formal e o informal. O mercado formal é composto por produtos lácteos que passam por inspeção federal, estadual ou municipal, sendo esta atividade econômica recolhedora de impostos. Por outro lado, o mercado informal de leite comercializa produtos lácteos que não passam por nenhum tipo de inspeção sanitária e tributária. O mercado de leite informal pode apresentar diversas formas de atuação, que podem ocorrer desde a venda de leite cru em domicílio ou mesmo de leite que sofre processo de pasteurização lenta, a qual apresenta eficácia questionável, assim como a comercialização de derivados sem marca produzidos por pequenos laticínios (queijos, iogurtes, requeijão, bebidas lácteas) que são distribuídos em postos de vendas de cidades do interior.

O consumo de produtos lácteos de origem do mercado informal apresenta riscos para a saúde do consumidor, uma vez que não se tem informação e garantia de que estes produtos passaram pelo processo de pasteurização, o qual é reconhecidamente o processamento térmico que elimina os microrganismos patogênicos presentes no leite e derivados. Por outro lado, a informalidade na produção e comercialização do leite afeta diretamente a arrecadação de impostos tanto de municípios, do estado e da União, o que torna a atividade incapaz de reivindicar os retornos quanto aos investimentos em infra-estrutura e crédito, que são fundamentais para a competitividade na atividade agropecuária. Estudos recente apontam que a informalidade no setor de lácteos gera uma sonegação de impostos no valor de R$ 700 milhões/ano.

Objetivos

O presente estudo teve como objetivo principal avaliar a evolução dos preços do leite pagos ao produtor e seus efeitos sobre o mercado informal, assim como levantar possíveis implicações do aumento da informalidade.

Evolução do mercado de leite informal

Analisando-se os dados de evolução do mercado de leite formal e informal (tabela 1), pode-se perceber que o mercado de leite informal apresenta crescimento cerca de 3 vezes maior que o mercado de leite formal. Considerando o período de 1980 a 1997, a taxa de crescimento média do mercado formal foi de 1,83%, enquanto que no mesmo período, o mercado informal cresceu 5,79% em média.

 

Tabela



Em 1997, de acordo com dados da CNA-Leite Brasil, o Brasil teve apenas 51,8% do leite inspecionado. Comparando-se este percentual em relação a 1987, conclui-se que houve redução relativa do mercado de leite formal, que em 1987 representava 77,2% do mercado total de leite no Brasil. Por outro lado, de acordo com dados apresentados por Jank et al (1999), em 1997, o "PIB lácteo" era representado por 69% do mercado formal e 31% do mercado informal, totalizando R$ 13.027 milhões.

Evolução dos preços do leite recebido pelos produtores x informalidade

A tabela 2 apresenta a evolução dos preços médios do leite recebido pelos produtores de leite tipo C nos anos de 1994 a 1998 e os níveis aferidos de informalidade na atividade leiteira no mesmo período. Da posse dessas informações foi feita uma análise de correlação entre as duas variáveis estudadas:

 

Tabela



COEFICIENTE DE CORRELAÇÃO (Taxa de Informalidade x Preço produtor em US$ = - 0,906197

O índice de correlação encontrado indica a evolução antagônica entre o preço pago ao produtor e o nível de informalidade no setor, que pode ser visualizada no gráfico 1.

Gráfico 1

 

Tabela



Desta forma, a análise em questão permite inferir que a queda do preço recebido pelo produtor de leite tipo C, que corresponde a cerca de 95% do leite total produzido na país, potencialmente é um fator importante para o processo de migração destes produtores para a informalidade, como estratégia para sobrevivência na atividade. Cabe destacar que o módulo de produção leiteira no Brasil, é extremamente baixo, com uma média de produção total de leite/produtor/dia da ordem de 47 litros.

Esse valor, conforme ilustra a tabela 3, situa-se muito aquém de outros países tradicionais produtores de leite. Isso significa que os produtores brasileiros não conseguem usufruir da economia de escala, tão necessária na atividade leiteira. Desta forma, o achatamento dos preços pagos ao produtor leiteiro gera um impacto violento na cadeia agro-industrial do leite.

 

Tabela



Também é importante destacar, que nos últimos anos, vem ocorrendo uma tremenda concentração na área de captação e processamento de leite no nosso país, levando a uma oligopolização desse segmento, devido à expansão e predominância no mercado de grandes empresas como Parmalat, Nestlé, Elegê e Fleschmann Royal. Nessas circunstâncias, o poder de barganha do produtor fica absolutamente comprometido.

Dado essa situação de desajuste do mercado, e considerando que os instrumentos de fiscalização por parte do estado, tanto da Defesa Sanitária Animal quanto da Vigilância Sanitária e mesmo do Ministério Público são de certa forma precários, há naturalmente um incremento na informalidade no setor. É importante considerar que a informalidade atinge níveis extremamente altos em vários outros ramos da economia brasileira. No entanto, independentemente da questão de sonegação fiscal, o que gostaríamos de destacar nesta análise, é o risco que a informalidade no setor de alimentos gera à saúde pública. Desta forma, na próxima semana estaremos apresentando uma revisão sobre os riscos à saúde gerados pelo consumo de leite cru.

(trabalho apresentado junto à disciplina de Economia da Nutrição e da Alimentação/ Pós-Graduação - FEA/USP)

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Fernando  Fonseca Gomes
FERNANDO FONSECA GOMES

INDIANÓPOLIS - MINAS GERAIS

EM 18/04/2009

Peço a quem ler estas poucas linhas que olhe por nós pequenos produtores, porque esta chuva de canivete que estamos tendo esta estrassalhando nosso guarda chuva.

Preço ruim do leite, emendas que so desfavorecem o pequeno produtor em relaçao à reserva legal e APPs e mais uma serie.
Qual a sua dúvida hoje?