A questão dos resíduos de antibiótico

Nos últimos tempos vem tomando uma proporção significativa na cadeia do leite a questão da presença de resíduos de antibióticos no leite.

Publicado em: - 4 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 0

Luis Fernando Laranja da Fonseca

Nos últimos tempos vem tomando uma proporção significativa na cadeia do leite a questão da presença de resíduos de antibióticos no leite. Aliás, em tempo, pois sem dúvida este é um problema de alta significância, uma vez que vários fatores associam a presença de resíduos de antibióticos a problemas de saúde pública. Dentre estes podemos destacar o risco imunológico (ocorrência de reações alérgicas), o risco microbiológico (geração de cepas bacterianas de múltipla resistência) e risco carcinogênico/mutagênico (ocorrência de tumores).

No entanto, além dessa tradicional associação com problemas de saúde pública, existem várias outras conseqüências negativas da presença de resíduos de antibióticos no leite. Poderíamos, por exemplo, destacar também o impacto dos resíduos sobre o processo de industrialização de certos produtos lácteos como iogurtes, queijos e até mesmo manteiga. Por razões óbvias, o impacto sobre produtos fermentados é significativo uma vez que há impossibilidade do crescimento dos fermentos lácteos e, além disso, determinados tipos de queijo e mesmo a manteiga, podem apresentar alteração nas suas características organolépticas e físicas. Isso tudo gera inúmeras perdas à indústria, embora o produtor também seja penalizado, com justiça neste caso, quando da presença de resíduos de antibióticos no leite produzido.

Por fim, talvez eu destacaria como sendo o efeito mais devastador da presença de resíduos de antibióticos no leite o impacto que este fenômeno causa na imagem dos produtos lácteos frente ao consumidor. As evidências abundam que o consumidor hoje tem verdadeiro pânico e é absolutamente refratário a produtos alimentícios que supostamente possam apresentar resíduos de qualquer produto químico, seja antibiótico, hormônios, pesticidas, etc. Não é a toa o crescimento vertiginoso da demanda por produtos "ecológicos", "naturais" ou "orgânicos".

Pois bem, considerando agora que há um risco em potencial significativo para a imagem do leite devido à possibilidade de ocorrência de resíduos de antibióticos, caberia avaliar o tamanho desses riscos no Brasil, ou seja, o que apontam os trabalhos de pesquisa e monitoramento realizados no nosso país. Em recente revisão de literatura observamos que há trabalhos apontando uma freqüência de até 50% de amostras de leite tipo B e C contaminados com resíduos (amostras processadas e coletadas no mercado). Um dos últimos trabalhos publicados em 2001 aponta cifras mais modestas, de "apenas" 4% das amostras coletadas no mercado contaminadas. Já com relação à freqüência de amostras positivas para antibiótico no leite do tanque a nível de fazenda, também há uma grande variação entre os dados publicados, mas recente trabalho realizado pela USP e publicado no ano passado aponta uma freqüência de 6% das amostras de tanques positivas para antibióticos. Recentemente fui informado não oficialmente que num levantamento prévio feito pelo Serviço de Inspeção Federal, a cifra de amostras contaminadas com antibióticos ficou na casa dos 17%.

Mas o fato é que, independentemente da cifra que se possa utilizar para balizar o problema, não resta a menor dúvida de que a mesma é altamente expressiva em nosso país. Para efeito de referência, nos EUA a freqüência de amostras positivas para antibióticos, quando retiradas dos caminhões tanques na plataforma da indústria (método mais adequado para monitoramento), é de 0,1%. Dados publicados no final da década de 90 apontam que, dos 13 milhões de caminhões tanque monitorados pelo serviço de inspeção oficial americano durante 4 anos, apenas 12.000 apresentaram resultado positivo para a análise de antibiótico no leite. Ou seja, mesmo se usarmos as cifras mais modestas da literatura brasileira, que oscilam na faixa de 5% de contaminação, ainda assim estaremos falando de valores muito elevados. Cabe salientar que na década de 60, essa era a proporção de amostras contaminadas com antibióticos nos EUA. O fato é que naquele país, após um intenso trabalho de monitoramento, conscientização, educação do produtor e punições severas, a freqüência do problema despencou de forma acelerada. Talvez esse seja o estágio que nos encontramos hoje.

Mas, para que possamos estabelecer um programa sério e consistente com vistas à diminuição da freqüência de resíduos de antibióticos no leite, há necessidade de uma estruturação básica de nossa cadeia láctea, começando por uma legislação clara e tecnicamente consistente sobre o assunto, o que supostamente deveria ser contemplado pela Portaria 56 e que será assunto do próximo artigo dessa seção. Além disso, é necessário que se estabeleça um sistema de monitoramento efetivo em larga escala por parte dos laticínios e órgãos oficiais de fiscalização, além de um programa de educação e treinamento de técnicos e produtores, como o "Milk and Beef Quality Assurance Program", desenvolvido nos EUA na década de 90. Aparentemente este tema pode parecer simples. No entanto, dado a nossa organização ainda precária da cadeia láctea, as dificuldades para atermos um problema potencialmente danoso para toda a cadeia podem ser imensas. E, ao me referir a um problema "potencialmente danoso" para a cadeia, refiro-me ao potencial desgaste da imagem dos produtos lácteos no caso de uma disseminação na mídia de informações desencontradas ou mesmo de relatos pontuais acerca de presença de resíduos de antibióticos no leite.

Além de tudo o que foi dito, teremos que discutir dentro da cadeia láctea temas delicados e controversos como níveis de tolerância a serem estabelecidos pela legislação, métodos oficiais para monitoramento, nível de sensibilidade dos testes rápidos de detecção a nível de plataforma, destino do leite contaminado e tipo de punição aos produtores, credibilidade das informações contidas nas bulas - como o período de carência dos antibióticos, etc.

Enfim, julgo que estamos vendo somente a ponta do iceberg deste assunto e, no próximo artigo desta coluna, discutiremos alguns outros temas polêmicos sobre o mesmo.
Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 0

Material escrito por:

Luis Fernando Laranja da Fonseca

Luis Fernando Laranja da Fonseca

Acessar todos os materiais

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Qual a sua dúvida hoje?