Isso é natural. Afinal, não há acontecimento neutro em economia. Há sempre aqueles que ganham e os que perdem. Neste momento, os jornais trazem declarações de empresários, que pedem uma ação do governo no sentido de conter a queda do dólar, temendo que haja uma perda na competitividade dos produtos que exportam.
E o que isso tem a ver com o leite?
Antes de discutir esta questão, convém analisar como o dólar, em queda ou em alta, gera ganhos e perdas na sociedade.
Quando um país mantém o câmbio sobrevalorizado, ou seja, com o real valendo mais do que seria natural em relação ao dólar, há forte estímulo para que a população adquira bens e serviços do exterior. Os produtos importados ficam mais baratos. Isso traz um inigualável sentimento de satisfação, de melhoria, de riqueza. Foi o que vivemos entre 1994 e 1999. Todos se lembram das facilidades para importar, das lojas de R$ 1,99, das viagens ao exterior, para quem pôde.
Além da felicidade passageira, o lado positivo desse período foi a importação de máquinas e o aumento da competição entre as firmas no mercado brasileiro. O Governo valeu-se da taxa de câmbio para controlar a inflação. Com maior disponibilidade de marcas e modelos, e com preços internos próximos aos do mercado internacional, as taxas de inflação assemelharam-se às dos países de primeiro mundo.
O lado negativo: importamos bens facilmente produzidos no Brasil e que são geradores de emprego, como até coco. Sem contar as bugigangas, como brinquedos e luzes de decoração de Natal. Além disso, os produtos exportáveis ficaram mais caros e menos competitivos no mercado internacional, ou seja, ficou difícil exportar. Esse período comprometeu perigosamente o Balanço de Pagamentos brasileiro, que é o registro de tudo que o país paga e recebe com transações de bens e serviços e de capital, com outras nações do mundo.
Quando a moeda nacional está subvalorizada, ou seja, está cotada a um valor menor que o esperado, também há o lado positivo e o lado negativo. O positivo é que o país torna mais seletiva a escolha do que vai importar, o que viabiliza a produção de bens e serviços internamente, estimulando a geração de emprego e renda. Os produtos importados ficam mais caros. Por outro lado, fica mais barato para o resto do mundo comprar os nossos produtos. A resultante é a melhoria do Balanço de Pagamentos. O país precisa recorrer menos ao mercado externo ou a organismos internacionais, como o FMI, em busca de empréstimos para fazer frente aos seus compromissos externos. O lado negativo é que aumentam as dívidas externa e interna, medidas em real, principalmente se esta for atrelada ao dólar. E depois das experiências dos governos Sarney e Collor, é difícil encontrar pessoa séria que proponha calote.
Os produtores de leite viveram estas duas situações relatadas e lembram-se das conseqüências. Entre 1994 e 1999, com o dólar valendo menos do que devia, por interferência do Banco Central, ficou barato importar produtos lácteos, o que deprimiu os preços pagos ao produtor. A cadeia de lácteos transferiu renda para o consumidor, e o Brasil transferiu renda para o produtor de outros países. Isso gerou toda uma vigorosa reação dos produtores. Todos se lembram do movimento S.O.S. Leite. Mais recentemente, os produtores experimentaram o outro extremo. Com o dólar valendo mais do que devia em relação ao real, devido a especulações, ficou muito caro importar. Isso, contudo, não assegurou o caminho inverso, ou seja, transferência adicional de renda do consumidor para o produtor.
Para o produtor de leite e demais agentes que atuam na cadeia produtiva, a cotação do dólar tem papel importantíssimo, embora talvez passe desapercebido. O dólar afeta tanto os custos, quanto a receita, em sentido contrário.
Quando o dólar se valoriza, ou seja, quando o real se desvaloriza, há um estímulo à exportação de milho e soja. Com menor disponibilidade interna, o preço destes sobe, elevando o custo do concentrado. Além disso, se o produtor considera o custo da terra usada para a atividade, no seu cálculo do custo de produção, o que é correto, uma elevação de preços dessas culturas onera o custo da terra e, consequentemente, do leite. Principalmente em regiões do Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás e os dois Mato Grosso. Afinal, a referência para se estabelecer o preço de um hectare de terra costuma ser dada por uma cultura dinâmica, em geral exportável, como as citadas, além do café, da cana-de-açúcar e da laranja.
Por outro lado, produtos veterinários que demandam insumos importados para serem produzidos, são vendidos no mercado nacional a preços próximos aos preços vigentes no mercado externo, e tendem a ficar mais caros. Isso, sem contar o preço dos derivados do petróleo, cujo impacto é sentido na propriedade e no transporte até a usina, e que, em essência, é pago pelo produtor.
O lado positivo vem da receita. Com dólar valorizado, fica mais caro importar leite, mesmo a preços subsidiados, como encontramos no mercado internacional. Quando o dólar cai, como está ocorrendo atualmente, o inverso ocorre. Os insumos ficam relativamente mais baratos e é mais atrativo importar leite, o que deprime o preço pago ao produtor.
Se com dólar em alta ou em baixa há impacto diferenciado na atividade láctea, o impacto é maior nas despesas ou na receita? Como a competitividade é afetada?
As tabelas abaixo devem ser interpretadas da seguinte forma. Uma elevação de 1% no custo dos fatores (mão-de-obra qualificada e não qualificada e capital) tornam menos competitivas as cadeias de leite em pó e longa vida, mas numa proporção inferior a 1%. Então, se o custo da mão-de-obra e do capital sobem, há maior possibilidade de ocorrer aumento na importação de leite. Mas a perda de competitividade do produto nacional é inferior à variação da elevação dos custos. Além disso, um aumento do custo do capital reduz a competitividade mais que um aumento no custo do trabalho. Portanto, o novo salário mínimo tem mínimo impacto na capacidade competitiva da produção nacional de lácteos.
Mas quando se consideram variações no preço internacional, tanto do leite longa vida, quanto do leite em pó, a repercussão na competitividade é mais que proporcional. Com efeito, se ocorre uma desvalorização do dólar em 1% frente ao Real, a perda de competitividade do produto nacional frente ao produto importado é maior que 1%, em dez importantes regiões pesquisadas. Em outras palavras, a cada 1% que o dólar se desvaloriza, o desestímulo à produção interna ou o estímulo à importação é maior que 1%, enquanto que para trabalho e capital é menor que 1%.
A conclusão, portanto, é a seguinte: uma queda na cotação do dólar, como está ocorrendo, impacta negativamente mais a receita que positivamente a despesa das cadeias. O ganho com a redução de custos é menor que o risco de perda de mercado, frente ao produto importado, que fica mais acessível, porque fica mais barato. Em outras palavras, queda do dólar reduz a competitividade do produto lácteo nacional.
Não se trata de se estimular produtores de leite e demais agentes da cadeia produtiva a formar coro contra a queda do dólar, como empresários vêm fazendo. Mas é bom acompanhar a tendência das cotações, até para que medidas compensatórias sejam pleiteadas, se necessário. Por isso, é bom que fiquemos atentos à marcha das importações de leite. É sempre bom ter em mente que, a cada R$ 5.081,00 que importamos de leite, deixamos de empregar um brasileiro, por um período de um ano.
Tabela 01. Variação na Competitividade da cadeia produtiva do Leite Longa Vida quando ocorre variação de 1% no preço dos fatores e preço de venda, por corredor.

Tabela 02. Variação na Competitividade da cadeia produtiva do Leite em Pó quando ocorre variação de 1% no valor dos fatores, preço de venda, por corredor.