De fato, o otimismo com relação aos preços do leite, que têm se mantido firmes até com expectativa de aumentos em algumas regiões, ainda não trouxe muito alívio aos produtores.
Isso se deve ao fato do aumento dos custos de produção terem aumentado de em proporções superiores aos preços pagos pelo leite.
Hoje, os produtores de leite pagam preços mais elevados para produzir o mesmo litro de leite, ou seja, os custos aumentaram. Observe na tabela 1 a comparação entre os preços médios de alguns concentrados de agosto e setembro deste ano em relação aos preços praticados durante a entressafra de 2001.

A compra direta dos concentrados representa de 30% a 40% do total dos custos de produção de leite. Nos últimos dois meses, os produtores tem pago preços, em média, 50% acima dos valores pagos pelos concentrados durante a entressafra de 2001.
Observe que o farelo de soja, produto cujo preço atual praticamente proíbe seu uso na dieta, foi um dos que menos aumentou em relação ao ano passado.
Explica-se o fato pelo preço do farelo já ter sido alto em 2001, ocasião em que outros produtos eram selecionados para sua substituição parcial ou total nas dietas. Portanto, o que ocorre hoje é que as opções de substituição dos produtos também aumentaram consideravelmente.
As elevações nos preços do leite foram insuficientes para cobrir os aumentos nos preços dos insumos, aumentos estes que ocorreram por causa da maxidesvalorização do real.
Observe na figura 1 a relação de troca do leite tipo C para adquirir a maior parte dos concentrados citados na tabela 1.
Observe que, atualmente, demanda-se maiores quantidades de leite para adquirir a mesma quantidade de alimentos.

Para os que tem encabeçado um movimento de recuo nos preços, vale lembrar que apesar da maior parte dos produtores de leite do país não possuírem controles de custos de produção, todos os produtores entendem a linguagem da troca, ou seja, quantas unidades do seu produto para comprar uma unidade de insumos.
Em 2000, também houve um aumento nos preços médios do leite em relação ao ano de 1999. No entanto, mesmo com os novos valores, as condições dos produtores ainda se mantiveram desfavoráveis. Na verdade, os custos de produção haviam aumentado em proporções superiores aos aumentos nos preços do leite.
Em 2002 está sendo constatada a mesma situação observada em 2000. A vantagem deste ano em relação a 2000 é que as oscilações nos preços não ocorreram, o que pode favorecer uma recuperação nos valores pagos no campo e nos valores do atacado.
Evidente que tudo depende da escolha da indústria: é preferível trabalhar visando manter e gradualmente recuperar valores nas vendas ou colocar toda a pressão nas costas dos produtores ?
A segunda opção parece fácil, mas tende a trazer consigo um ambiente desfavorável como observado neste ano. Indústrias tendo que importar a preços em torno de 40% acima dos preços internos.