Luis Fernando Laranja da Fonseca
Para que o leitor possa contextualizar o cenário em que este artigo está sendo escrito, destaco que neste momento me encontro no hall de um hotel em Kyoto no Japão. Sao 10:30h da noite no país do sol nascente e o gerente do hotel acabou de passar por aqui solicitando silêncio, pois este é um país com muitas regras e depois das 10:30h pede-se para que seja feito silêncio. Hoje fiz uma viagem de 4 h de trem - período suficiente para muitas reflexões ao observar o `landscape` (paisagem) da terra japonesa. Nessa viagem de trem me dediquei tambem a ler com atenção o jornal local escrito em inglês chamado ` The Japan Times` . Este é um jornal muito voltado para a área de economia, alguma coisa em menor escala mas comparável à Gazeta Mercantil ou ao Valor Econômico no Brasil. Gostaria agora de trocar algumas impressões sobre essa minha leitura e meu ` passeio` de 4 horas pelo interior do Japão.
Para minha surpresa, encontro logo na seção de editorial do referido jornal um artigo intitulado `Happy cows make a difference for the best butter in Wales`. Nesse artigo, o autor faz a apologia da qualidade da manteiga produzida numa pequena fazenda no interior do País de Gales, basicamente usando-a como referência para justificar um determinado sistema de produção de leite baseado na pequena propriedade familiar, na qual os proprietários operam a fazenda com muito cuidado e ` carinho`, e com uma dedicação quase fraternal aos animais. Transcrevo a seguir parte fiel do texto* ` os proprietários, Mairie e Maurice Randerson decidiram não registrar a fazenda como orgânica (pois isso custaria muito); no entanto e difícil imaginar um casal que tenha tanto cuidado e dedicação para com o rebanho e para com a terra, ou que se preocupe mais com a qualiade do alimento que eles produzem`. Segue o artigo* ` alguns anos atrás, quando o preço do leite despencou para US$ 0.28/litro, uma ação drástica teve que ser tomada, e entao o casal resolveu fabricar a sua própria manteiga e creme de leite e vender para os vizinhos e restaurantes próximos`. Esse artigo acima descrito foi publicado originalmente no jornal ` Financial Times`, um dos periódicos mais respeitados da Europa.
Mas como se isso não bastasse, ainda na mesma seção do ` The Japn Times` havia outro artigo intitulado ` Hog high-rise:animal cruelty on farm of the future?`. Este artigo tratava de uma polêmica sobre a criação na cidadede Rotterdam na Holanda, de um complexo agroindustrial de 25 ha chamado ` Agropark`, que prevê a construção de 2 mega barracões para alojar 300.000 suínos e 1 milhão de frangos, alem de criatório para salmão, uma câmara para produção de cogumelos e estufas para produção de moranguinhos e verduras. Nesse projeto, o esterco dos suínos e frangos serviria para fertilizante e o calor dos animais seria convertido para aquecimento das estufas. Todo esse complexo agroindustrial teria a função, além de abastecer o mercado doméstico, de servir para exportação. Para um técnico menos avisado, as primeiras linhas do artigo que se referiam a descrição do projeto pareciam incrivelmente interessantes e adequadas. Tudo muito planejado e altamente eficiente. No entanto, a reação da opiniao pública na Holanda parece não concordar muito com essa visão. Veja as palavras transcritas no artigo de um diretor da Sociedade Protetora dos Animais da Holanda: ` quando o fazendeiro nao vai mais atá a criação onde ele conhece os seus porcos, mas a uma fábrica onde os porcos são empacotados juntos aos milhares, com todos os perigos de doenças, parece que nós realmente estamos apontando na direção errada` . Já um diretor da Fundação para Natureza e Meio Ambiente destaca: ` ao concentrar tantos animais numa área tão pequena, haverá um risco de doenças muito maior e, quando ocorrer um surto, ao invés de eliminar 50.000 porcos, nos teremos que abater 300.000.` Por fim o editor do texto conclui: ` Este é um mau momento para advogar uma maior industrialização das fazendas. O norte da Europa ainda nao esqueceu a epidemia de gripe epidêmica suína de 1997 ou o surto de encefalopatia espongiforme bovina (vaca louca) na Grã-Bretanha, a qual supostamente foi responsável pela morte de 80 seres humanos.
E, para minha surpresa final, ao virar a página do referido jornal japonês encontro um artigo intitulado ` Cenario de pesadelo desafia cientistas na luta contra nova variante da CVJ` . A CVJ (Creutzfeldt Jakob Disease) nada mais é do que a manifestação da doença da vaca louca em humanos. Em resumo, novos rumores surgiram na Inglaterra de que a doença da vaca louca poderia ser contraída também por ovelhas. O artigo, que foi transcrito do tradicional jornal britanico ` The Observer`, menciona em determinada altura que no caso de comprovação do problema, as medidas poderiam incluir inclusive a completa proibição do consumo de carne de ovelha na Inglaterra e a eliminação de grande parte das 40 milhões de cabeças do rebanho ovino daquele país.
Sugiro que o leitor vá armazenando os fatos!
Há dois dias fui visitar 3 rebanhos leiteiros japoneses. Todos rebanhos administrados com mão-de-obra familliar, com média em torno de 60 vacas em lactação e produção oscilando por volta de 6 a 7 mil kg leite/vaca/ano. O manejo era relativamente bom apesar de simples, e o rebanho, todo holandês, de razoável qualidade. Mas o que chamou a atenção foi o preço do leite pago aos produtores - US$ 0.90/litro! -. Aqui no Japão o governo garante um preço mínimo do leite em torno de US$ 0.83/litro e subsidia de forma consistente os produtores. Em conversa com os produtores, eles parecem nao achar a atividade uma dádiva econômica, mas também nao reclamam muito. Talvez acham o preco do feno de alfafa que eles importam do Canadá ou da Austrália um pouco salgado - US$ 400/ton posto na fazenda! - . Após a visita à última fazenda, fomos visitar um `complexo para tratamento de esterco`, que foi implantado através da associação de 4 fazendeiros vizinhos. Estes se uniram e, com a ajuda direta do governo (uma bela colaboração de algumas centenas de milhares de dolares) criaram uma unidade extremamente moderna e equipada, para qual todos trazem o esterco produzido nas suas fazendas para ser processado por uma parafernalha de máquinas até um produto final (composto orgânico) que é ensacado em sacos de 10 kg e vendido para a comunidade e donos de estufas de plantas para adubar jardins e verduras. Os fazendeiros e o governo decidiram investir nessa ` unidade processadora de esterco` em função da pressão da comunidade, decorrente de questões de poluição ambiental e mau cheiro dos dejetos. Parece que agora todos estão felizes!
Desde que cheguei neste país percebi que a ocupação do espaço só dá margem a 4 opções: ou há floresta, ou construção, ou rios/lagos ou alguma coisa plantada. Nao há um metro de terra vazia nao cultivada. E percebe-se uma infinidade de micro-fazendas, altamente exigentes em mão-de-obra. Parece que ninguém por aqui se preocupa muito com a questão de escala e de economia.
E uma maçã no supermercado custa US$ 3,00!
A primeira idéia que ocorreu de imediato foi a de plantar maçã no Brasil para vender aos japoneses... Ontem à noite, num jantar, um japonês veio reclamar para mim que apesar de 50% do frango consumido no Japão ser originario do Brasil, eles estavam muito preocupados, pois segundo ele, parece que tem havido problema de resíduo de antibiótico na carne de frango oriunda do Brasil.
Uma breve reflexao dos fatos acima relatados me leva a concluir que os países desenvolvidos e seus respectivos consumidores nao estão muito dispostos a abrir seus mercados para produtos agrícolas e alimentícios muito facilmente. Por conveniência, preferência, por medo ou por filosofia de vida, eles se dispõem a proteger seus mercados domésticos (e preservar empregos), proteger o meio ambiente e cuidar da segurança alimentar (sob dois prismas ` food safety` e ` food security`).
O que me pergunto é até que ponto a tentativa desesperada dos países subdesenvolvidos ou do hemisfério Sul de exportar produtos agrícolas e alimentícios tem fundamento. Será que o esforço que empregamos para tal e que nos consome empregos (como justificativa para aumentar a eficiência e a escala) e deteriora o nosso ambiente natural tem alguma lógica ?
Celso Furtado já falava há mais de 30 anos de que o Mito do Desenvolvimento nada mais é do que um mito, mas como tal tem sua função de fazer com que os países pobres não percam a esperança.
Luis Fernando Laranja (direto de Kyoto, Japão)
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Publicado por: Luis Fernando Laranja da Fonseca
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