Enquanto várias correntes do setor buscam divulgar o conceito da multifuncionalidade da agricultura - que, além de produzir alimentos, gera empregos, fixa o homem no campo, protege o meio ambiente, gera riquezas, etc. -, o mercado favorece, por outro lado, o aparecimento de linhas de raciocínio que pregam o retrocesso tecnológico.
Em termos de mercado, tal argumentação tem fundamento, pois, reduzindo a produção com o retrocesso tecnológico, certamente ocorrerá uma pressão sobre os preços, tendo como conseqüência a elevação dos preços.
Quando se fala em tecnologia, não necessariamente isso significa investimentos elevados, como é o caso do uso racional de pastagens para a produção de leite.
No entanto, a menos que a escala de produção seja muito baixa, este produtor hipotético será obrigado a investir em ordenha mecanizada, terá que remunerar melhor seus empregados, obtendo uma produção que será mecanizada, entre outras conseqüências. Ao final, com esta estrutura, o produtor terá que reduzir os custos fixos, o que exige uma alocação planejada e adequada dos recursos variáveis na propriedade.
Com os preços atuais, o que tem acontecido é preços de venda abaixo dos custos de produção. Hoje, os preços acabam não cobrindo nem mesmo os custos operacionais. Por crise semelhante passa a produção de café, cuja situação tem encorajado esta busca por quebra na produção por parte de parcela dos produtores.
Na onda desta argumentação, entram os "pseudo-ecologistas", sem conhecimento de causa, levantando novamente a bandeira da não utilização de insumos agrícolas (adubos e defensivos). Já nem se fala em produção orgânica, cujo valor agregado do produto justifica estratégias de produção, como tem sido feito com café, açúcar, frutas, boi e até leite.
Vale lembrar que a produção orgânica tem nichos de mercado específicos. Além disso, não é tão simples conseguir entrar neste mercado privilegiado. O processo de certificação de produção orgânica é demorado e exigente durante todo o período. O produtor trabalhará com custos mais elevados e preços médios comuns aos demais agricultores - perde-se competitividade.
Quando se vende a idéia da não utilização de insumos, acredita-se estar adotando uma postura de produção ecologicamente correta. No entanto, a utilização de produtos agrícolas (insumos) não é necessariamente prejudicial à agricultura, desde que usados corretamente. Pelo contrário, a tecnologia por trás destes produtos protege o solo de modo a não perder a camada mais fértil, busca técnicas de menor desperdício de energia, evita a todo custo a queimada da área e produz uma quantidade de alimentos maior, numa área menor.
Pensem em uma fazenda com produção de 15 mil litros de leite por hectare por ano. Se ela parar, qual área seria destinada à produção de leite para atender este volume com a média de 300 a 600 litros de leite por hectare por ano?
Negligenciar o conceito da multifuncionalidade da agricultura é um erro da sociedade, que segue o conceito dos famosos formadores de opinião, classe privilegiada com maior acesso às informações. Hoje em dia, no caso do leite e do café, o retrocesso tecnológico pregado por várias linhas de pensamento tende a promover um grande malefício à sociedade como um todo.
É ecologicamente correto produzir a maior quantidade de alimento pela mesma unidade de área, pois a simples prática da agricultura, independente da técnica utilizada, já causa algum impacto ambiental. Não se altera um ambiente sem causar impacto. O que é melhor? Causar impacto em um menor número de áreas ou numa maior?
Esse conceito deve ser divulgado pelos produtores de modo a defender seus interesses. A sociedade precisa dar importância à agricultura. Esta é melhor forma de pressionar preços a médio e longo prazo para o agropecuarista: ter o consumidor do próprio lado, ciente de seus problemas.
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A multifuncionalidade da agricultura
Enquanto várias correntes buscam divulgar o conceito da multifuncionalidade da agricultura o mercado favorece o aparecimento de linhas que pregam o retrocesso.
Publicado por: Maurício Palma Nogueira
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