A globalização e os preços do leite no Brasil

Pegando um gancho no comentário da semana, feito pelo engenheiro agrônomo Marcelo Pereira de Carvalho, vamos tomar por base a situação do mercado mundial.

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Maurício Palma Nogueira

Pegando um gancho no comentário da semana, feito pelo engenheiro agrônomo Marcelo Pereira de Carvalho, vamos tomar por base a situação do mercado mundial.

Talvez, com exceção dos assíduos na internet, pela primeira vez grande parte da população brasileira possa ter tido uma noção de como funciona o sistema globalizado, após a retaliação das exportações de carne brasileiras para o Canadá e demais membros do NAFTA (Estados Unidos e México). O caso, evidentemente resquício do problema Bombardier x Embraer, foi repassado a outros ramos do comércio entre os dois países.

E como disse um indignado: "Se boi nem tem asa, o que é que tem haver com avião?"

Como bem colocado pelo Marcelo, uma das boas lições que podem ser tiradas é a magnitude das ações que o Brasil e todos os demais países irão encontrar pela frente. A agressão de mercado, a briga por espaços, lembrando aquelas cotoveladas que vemos nas bolsas de valores e as artimanhas para se ampliar as fatias ou "market share" serão comuns no mercado mundial. As dificuldades serão maiores para os países em desenvolvimento como o Brasil.

As negociações não levarão em consideração apenas um produto, mas sim uma maior gama de todos eles, buscando a maximização dos resultados gerais.

É comum ver políticos, ativistas, baderneiros e até mesmo intelectuais pregando contra a globalização, e não é só aqui, mas principalmente na Europa, um continente rico que sai perdendo, e perdendo muito, terreno numa economia globalizada.

Os pregadores anti-globalização tem razão em um ponto: "Apenas os países mais ricos, especialmente os Estados Unidos, estão sendo beneficiados com a globalização".

Observação correta, mas conclusão equivocada. Apenas os países mais ricos, e mais industrializados, estão preparados, aliás se anteciparam à globalização, dando inclusive a idéia de que eles a impuseram ao resto do mundo.

Tom Peters, consultor empresarial norte americano, inicia um de seus livros chamando a atenção para os leitores (geralmente executivos de empresas e administradores) que países como Índia, China, Brasil, Argentina, México, Chile, Malásia, etc. estão acordando para o mercado. Segundo ele, estes países estão repletos de trabalhadores talentosos e qualificados, capazes de comandar uma produção sofisticada e competitiva, gerando bens de qualidade elevada.

Peters chama a atenção dos norte americanos, alemães e japoneses que, para ficarem no topo, terão que oferecer algo a mais, pois tais países estariam prontos para desbancarem a hegemonia industrial que já dura várias décadas.

Se Peters está certo ou não, se exagerou ou não exagerou, se o quadro não é bem este pintado pelo autor, o fato é que seus livros estão entre os mais lidos no gênero nos Estados Unidos, o que sugere que seus livros, artigos e entrevistas transcrevem os principais problemas e possibilidade de soluções para grande parte do empresariado norte americano. Uma das preocupações norte americanas é com relação à nossa economia, ao nosso crescimento.

A posição dos norte americanos (e também de alemães, japoneses, canadenses, etc.) com relação aos países citados é de prevenção e busca por superação antes mesmo de serem atingidos pelos demais. Buscam melhorar a qualidade, aumentar eficiência e superar seus próprios índices antes mesmo de serem ameaçados. É com este tipo de mercado que nós, brasileiros, estaremos competindo.

E afinal, Tom Peters tem razão ou não? É claro que tem! O brasileiro é capaz assim como os demais. A única diferença entre nós e os demais é que não estamos preparados e muitas vezes subjugamos ou mesmo sub-utilizamos nosso potencial.

É preciso, no Brasil, aumentar o sentimento de nacionalismo, de vontade de que o país dê certo. Parece poesia e romantismo falar desta maneira, porém nada mais lucrativo do que fazer um pouco de força para que a economia brasileira se fortaleça e vá para frente. Num mundo globalizado, esqueçam itens isolados: Aviões, carne, soja, computadores, leite, calças, couro, sapatos. Todos estarão interligados.

Medidas que prejudicam um setor da economia, aplicadas de maneira arbitraria sem conhecimento de causa, apenas servem para atrasar o crescimento do país, dando mais tempo aos leitores de Tom Peters e outros.

O crescimento do país, como um todo, só trará benefícios a todos.

Na conversa toda, como fica o leite? O Brasil, como todos sabem, não produz o que consome. E, se a situação para o pecuarista continuar como está, vai continuar não produzindo.

O Brasil fechou acordo com a Argentina de importações de leite em pó ao preço mínimo de US$1.900,00/tonelada, driblando as medidas anti-dumping contra aquele país (novamente mercado global - pensando das exportações de aves).

Este valor representa o preço de leite em torno de RS$0,42 a RS$0,47 / litro na plataforma.

No mercado internacional o preço melhor está por volta de US$2.000,00/tonelada de leite em pó.

Não entremos em detalhes de porque o leite do Brasil não pode valer igual aos demais. Isso é assunto para vários dias.

Tanto entidades governamentais como a iniciativa privada deveria aproveitar o potencial de produção de leite no Brasil, além da competitividade nacional.

Se os preços médios dos valores de mercado internacional fossem pagos aos produtores brasileiros, o país já poderia estar produzindo o que consome.

O Brasil, seguindo o exemplo de outros produtos, inclusive o da linha adotada pelo marketing da carne brasileira, deveria bater na tecla da qualidade do leite no que se refere a forma de produção, com alimentos estritamente de origem vegetal. Evidentemente há muitos pontos a serem melhorados no leite nacional.

Evidentemente não passaríamos de importador a exportador num primeiro momento, porém estaria traçada uma linha estratégica de marketing ou uma parte de caminho andado, falando de maneira mais simples, para gerar mercado e possibilitar o aumento da produção brasileira.

Se o Brasil, através de política adequada e da iniciativa privada, dobrasse a média de produção anual de leite por hectare, ao invés de déficit em torno de 10% de leite no mercado, teríamos 80% de excedente, o que representa um volume em torno 17 bilhões de litros, ou quase duas vezes mais que a exportação anual da Argentina.

Parece utopia, mas o dobro da produtividade atual fica em torno de apenas 3,5% da produtividade média observada entre algumas fazendas presentes no encontro de produtores de leite em Piracicaba.

Este aumento em volume também geraria cerca de 400.000 mil novos empregos diretos.

Como chegar a isto?

Educação; tanto do consumidor, valorizando o produto nacional, como do produtor aumentando eficiência de produção quali e quantitativamente.

Parceria; entre indústria e produtor, visando melhorar qualidade, condições de trabalho e imagem do leite no mercado nacional e internacional.

Mercado; que garantirá preços e será o fruto das medidas anteriores.

Quando o preço do leite aumenta, facilita-se as importações no Brasil visando reduzi-los. Se ao invés disto, reduzíssemos os impostos pagos, o resultado poderia ser melhor, com alguns problemas sociais de médio e longo prazo sendo evitados.

 

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