No artigo da semana passada, vimos que a produção de alimentos cresceu nos últimos anos de forma bastante acelerada e num ritmo superior ao crescimento populacional, graças às tecnologias disponíveis que possibilitaram uma multiplicação exponencial na produtividade das lavouras e criações animais. Esse pacote tecnológico que foi aprimorado nos últimos 50 anos ficou conhecido como "Revolução Verde" e basicamente se alicerçou no uso intensivo de insumos, tais como fertilizantes químicos, herbicidas e pesticidas, irrigação, melhoramento genético de plantas e animais etc.
A princípio, essa proposta de ação adotada em quase todo o planeta veio ao encontro da demanda da população por alimentos, além de possuir uma lógica tecnicista coerente. No entanto, este modelo de desenvolvimento da agricultura vem sendo criticado de forma crescente já há mais de 10 anos e uma série de estudos tem emergido, mostrando algumas facetas não tão animadoras deste modelo preconizado pela "Revolução Verde". E é justamente esse um dos capítulos mais interessantes do extenso relatório sobre agroecossistemas elaborado pelo Instituto Internacional de Políticas Alimentares, mencionado no artigo passado.
Em resumo, o relatório aponta que as perspectivas para a continuidade do desenvolvimento da agricultura mundial podem não ser tão animadoras e, conseqüentemente, a oferta de alimentos para atender uma crescente população mundial pode ser limitada. Cabe não esquecer que as estatísticas apontam que a população mundial deve passar dos atuais 6 bilhões de habitantes para algo em torno de 8 bilhões de habitantes no ano de 2050, ou seja, nos próximos 50 anos o mundo receberá um número de novos habitantes equivalente a quase 12 vezes a população brasileira. A grande questão é: "haja comida para alimentar mais 12 Brasis"!
E o que é mais surpreendente é que talvez a limitação para produzir alimento em quantidade suficiente não advém da falta de "tecnologia", pelo menos da tecnologia que se convencionou definir de forma tradicional e corriqueira. O problema pode ser exatamente o excesso dessa "tecnologia".
Mas vamos aos fatos. Os estudos recentes têm apontado questões críticas concernentes à moderna agricultura, quase todas relacionadas à dilapidação dos recursos naturais:
Limitação da disponibilidade de água:
Essa questão pode até parecer surpreendente uma vez que 71% da superfície do planeta (erroneamente neste caso chamado de Terra) é composto por água. No entanto, deste total, 97,4% correspondem aos oceanos e mares. Dos menos de 3% restantes, 1,98% são preenchidos pelas geleiras, 0,53% por águas subterrâneas e 0,03% pelos rios e lagos. Isso significa que de cada 1000L de água do planeta, 974L são de água salgada, 198L de água gelada, 59L de águas subterrâneas e apenas 3L estão facilmente à nossa disposição.
Pois bem, deste agora escasso recurso, as estatísticas apontam que dos sistemas de água doce disponíveis para consumo, cerca de 70% é utilizado para irrigação de lavouras, 15% é utilizado pelas indústrias e menos de 10% é utilizado para consumo direto da população humana. O mais surpreendente é que mesmo usando-se esse enorme volume de água para agricultura, apenas 17% das terras produtivas são irrigadas, sendo que esse pedaço de terra é responsável pela produção de 30 a 40% dos produtos agrícolas mundiais. Isto indica, logicamente, que as terras irrigadas apresentam maior produtividade. No entanto, às custas de um consumo elevadíssimo do insumo água, roubando mais de 70% da água prontamente disponível do planeta.
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Além disso, há um problema adicional, pois a distribuição da água é muito desuniforme no planeta, e várias regiões, tais como o continente africano e parte da Ásia, já sofrem severas restrições deste recurso natural. Já o Brasil foi agraciado com o privilégio de abrigar 12% da água superficial do mundo (se bem que muito concentrada na bacia amazônica).
O problema da falta de água decorre de dois fatores, considerando que o planeta Terra é um "sistema fechado" (vamos partir desse pressuposto grosseiro):
a) a população continua aumentando e, conseqüentemente, a demanda por um bem cuja oferta é limitada e estática;
b) grande parte dos mananciais que "abrigam"a água disponível para uso imediato vem sendo poluída e contaminada em ritmo crescente. Tal contaminação é oriunda não só das atividades industriais, mas também do uso de insumos químicos na agricultura, tais como herbicidas, inseticidas e mesmo fertilizantes químicos. Além disso, há grande preocupação com relação à contaminação dos mananciais pelos dejetos dos animais criados de forma intensiva.
O estudo em que se baseou este artigo aponta que o uso de fertilizantes em excesso pode causar a lixiviação ou percolação desses nutrientes, contaminando o solo e reservatórios de água. Ao atingir os corpos d´água esses nutrientes estimulam o crescimento de algas, que ao morrerem se decompõem e aumentam a demanda biológica de oxigênio, gerando danos à flora e fauna aquáticas, tais como mortandade de peixes. O mesmo problema ocorre com o excesso de utilização de esterco animal nas lavouras ou eliminação desses dejetos animais diretamente nos cursos d´água, sem tratamento prévio. Um estudo realizado nos EUA apontou que um terço do lençol freático da região sudeste daquele país estava contaminado por nitrato, atestando a poluição de águas subterrâneas e poços. Coincidentemente nessa região há uma imensa concentração de criatórios de frango. Esse mesmo problema já foi documentado no Brasil, na região oeste de Santa Catarina. Em alguns outros estados do país a situação já está chegando a um limite crítico devido à alta concentração de criatórios de frangos e de suínos. Além dos criatórios, os abatedouros também representam uma fonte poluidora em potencial e bastante significativa. Não podemos esquecer que a pecuária de leite e corte também geram riscos significativos ao meio ambiente. Basta analisar a situação crítica, por exemplo, do estado da Flórida nos EUA, onde a pecuária leiteira vem sendo monitorada de perto pela EPA (Agência de Proteção Ambiental) devido ao risco de contaminação dos mananciais pelo fósforo e nitratos oriundos dos dejetos de vacas leiteiras.
Cabe ressaltar que a demanda por carnes no mundo está longe de se estabilizar e, nos últimos 15 anos cresceu cerca de 3% ao ano, com forte aceleração de consumo nos países em desenvolvimento, tanto de carne bovina e suína quanto de frango. Estima-se que em meados da década de 90 havia cerca de 900 milhões de cabeças de porco e 13 bilhões de frangos e galinhas convivendo conosco no planeta Terra, e é conveniente não esquecer que esta "turma" também come muito cereal, bebe água e faz bastante "xixi e cocô". Ou seja, se quisermos continuar comendo carne (e parece que há esse desejo no mundo) é interessante pensarmos em racionalizar a disposição dessa enorme quantidade dejetos.
Mas além dos problemas mencionados, tais como a carência de água, concentração das criações animais em grandes unidades e conseqüente dificuldade de disposição correta de dejetos, uso indiscriminado de fertilizantes químicos e conseqüente poluição de mananciais, podemos destacar mais duas conseqüências nocivas do nosso padrão de produção agrícola: a aquisição de imunidade aos pesticidas por parte de pragas agrícolas e a degradação dos solos.
O estudo dos agroecossistemas relata que cerca de mil pragas agrícolas (incluindo ervas daninhas) adquiriram imunidade aos pesticidas agrícolas nos últimos anos. Nos EUA, há o relato científico de que 394 insetos não são suscetíveis aos inseticidas químicos disponíveis hoje no mercado, isso apesar do volume consumido de pesticidas ter aumentado 10 vezes naquele país no período de 1940 a 1990.
O relatório do Instituto Mundial de Pesquisas Alimentares também aponta que das áreas agrícolas exploradas no planeta, 40% apresentam solo com modesta degradação e 9% com degradação severa, situação na qual a recuperação do solo é tecnicamente inviável, ou muito cara. A degradação do solo, segundo o estudo, é responsável por uma perda de produtividade agrícola de 13%. Por fim, há o relato de que 20% das terras irrigadas apresentam problemas de salinização, indicando que esta técnica apresenta limitações sérias quando conduzida de forma inadequada.
Enfim, várias outras questões poderiam ser aqui discutidas no que diz respeito à sustentabilidade ameaçada deste modelo de produção de alimentos preconizado pela "Revolução Verde" e que coloca em risco a oferta de alimentos e água no futuro. Mas o objetivo desse artigo não é concluir catastroficamente que estamos fadados a morrer de fome ou de sede (ou pelo menos uma boa parte de nós), mas sim despertar uma análise crítica a respeito desse modelo tecnológico e, desta forma, gostaria de concluir com a apresentação de algumas considerações pessoais:
- Será que o incentivo desenfreado à agricultura irrigada é sustentável no longo prazo? A que custo econômico ou ambiental? Será que o governo, ao formular políticas públicas para as áreas agrícolas não deveria pensar no longo prazo e num modelo alternativo?
- A tecnologia continua sendo aliada do progresso e sobrevivência da humanidade. No entanto, há necessidade de direcionar os esforços de pesquisa e desenvolvimento no sentido de obter métodos e ações que visem a sustentabilidade do processo (por exemplo: controle biológico de pragas X novos insumos químicos).
- A agricultura e pecuária de grande escala tendem a agudizar os efeitos nocivos sobre o meio ambiente e, portanto, exigem cuidados redobrados com relação a esse quesito.
- A produção de alimentos com um viés ambientalmente correto envolve custos mais elevados, e esses custos precisam ser internalizados no processo e assumidos pelos consumidores. Uma sociedade urbana que exige respeito ao ambiente natural precisa estar consciente que isso implica em maiores custos dos alimentos, por exemplo, e deve pagar por isso, da mesma forma que o agricultor consciente deve encarar os maiores custos de produção para preservar o meio ambiente (por exemplo: custo da água).
Isso significa que talvez essa situação ocorrida nos últimos 50 anos, em que a oferta de alimentos cresceu de forma exponencial e os custos dos mesmos aos consumidores despencaram na mesma proporção, esteja com os dias contados. Talvez daqui para diante o modelo de produção agrícola tenha que mudar gradualmente (basta observar o crescimento vertiginoso dos alimentos orgânicos) e o consumidor, ao exigir produtos alimentícios de qualidade superior, produzidos de forma ambientalmente correta e preservando o bem estar dos animais, terá que pagar mais caro por isso. Caso contrário, vai faltar agricultor disposto ou capaz de produzir baseado nessas exigências.
Para finalizar, menciono uma frase da introdução do livro Feeding a World Population of More than Eight Billion People: a challenge to science, na qual o autor pondera: "...as principais questões relacionadas com a capacidade dos recursos naturais do planeta em suportar uma população de 8 bilhões de habitantes (ou mais) são: o potencial de produção da terra e as limitações que afetam este potencial, incluindo fatores climáticos, disponibilidade de água, nutrição de plantas, qualidade do solo e fatores ambientais e econômicos relacionados com o uso intensivo da terra...".