Luis Fernando Laranja da Fonseca
O título deste artigo pode parecer, num primeiro momento, esquisito ou até mesmo surrealista para alguns, mas, na verdade, o objetivo era chamar a atenção para um problema de extrema importância que é a fome - que, aliás, não por mera coincidência, está intrinsecamente relacionado com a produção de alimentos ou, como alguns preferem, com a dinâmica do agribusiness. O objetivo deste artigo é mostrar como um problema que aparentemente é abstrato e longínquo, a fome no mundo, relaciona-se com o dia-a-dia, e, mais do que isso, com o futuro da atividade agropecuária.
Este artigo será baseado em grande parte no relatório recém lançado pelo Instituto Internacional de Políticas Alimentares com o apoio da FAO (www.wri.org/wr2000). Este impressionante relatório foi fruto de um amplo e intenso trabalho desenvolvido por instituições públicas e privadas de pesquisa, organizações e agências intergovernamentais e não-governamentais de mais de 25 países.
O resumo e grande mensagem deste estudo é bastante positivo e muito simples: "A produção agrícola mundial cresce mais que a população". Isto simplesmente comprova o que todas as estatísticas vinham apontando até então, e enterra definitivamente a teoria do economista inglês Thomas Malthus (1766-1834), que afirmava que a população da terra tenderia a crescer em uma progressão geométrica enquanto a produção de alimentos cresceria em progressão aritmética - ou seja, faltariam alimentos e a fome estaria disseminada pelo mundo dentro de alguns anos. Para o bem de todos e a felicidade geral do planeta tal teoria foi por água abaixo...
Aliás, os dados deste relatório mundial trazem outras excelentes notícias (não tenho bem certeza se as notícias são boas para todos os cidadãos do planeta). De 1961 até o ano 2000, o fornecimento de alimentos per capita no mundo cresceu 24% e os preços reais dos produtos alimentícios caíram 40% em média nesses últimos 40 anos (esta é a parte da notícia que pode não ser muito boa para uma parte dos habitantes do planeta: os agricultores!).
Bom, mas nem tudo são flores. O sr. Malthus estava errado ao não conseguir prever a capacidade do homem superar desafios, neste caso através do uso da ciência e da tecnologia, que revolucionaram os conceitos de produção dos alimentos, o que possibilitou multiplicar exponencialmente a produtividade agrícola, especialmente nos últimos 50 anos. Basta lembrar que em 1940, há apenas 60 anos, a produtividade média do rebanho leiteiro norte-americano girava em torno de 2.500 litros/vaca/ano, e hoje já bate na casa dos 8.000 l/vaca/ano (e nós nos 1.300!), ou seja, um aumento de cerca de 220%. Mas, por outro lado, é importante lembrar que Malthus acertou uma previsão importante: "a fome seria disseminada no planeta". E isto fica claro ao vermos as estatísticas da FAO que apontam a existência de 800 milhões de pessoas famintas no mundo (cerca de 14% da população mundial). Mas, como vimos no início deste artigo, fica claro que a fome não é decorrente da falta de alimentos, pois a produção destes vem aumentando numa taxa muito superior ao crescimento da população. Portanto, o raciocínio lógico nos indica que o problema é má distribuição, e isto indica que alguém anda comendo demais em detrimento de outros e/ou tem muita comida sendo jogada fora e desperdiçada. O que todos os estudos mostram é que as duas coisas ocorrem, e é por essas e outras que tem muito americano gordinho e muito africano magrinho... Ah, e também muita lata de lixo cheia de alimentos (logicamente que a lata do gordinho!).
Mas para fugir um pouco do humor negro (expressão até sugestiva para a ocasião) eu, você, enfim, nós, técnicos e produtores ligados à produção agropecuária, pelo menos podemos ficar com a consciência um pouco mais tranqüila, afinal, se tem gente passando fome no mundo, a culpa, pelo menos primária, não é nossa, pois alimento, que é bom, a gente produziu. E bastante! Produziu tanto que o preço chegou até a cair, e continua a cair para desespero de alguns (veja artigo passado desta secção sobre a âncora verde).
E para finalizar esta primeira parte, gostaria apenas de destacar que os dados de 1997 apontavam que a produção de alimentos no mundo era avaliada em US$ 1,3 trilhão e a agricultura empregava, coincidentemente, 1,3 bilhão de pessoas, o que corresponde a quase 25% da população do planeta.
Enfim, esta é uma análise pontual sobre um grave problema que é a fome, e mostra como a agricultura, através do uso de técnicas aprimoradas de produção, tais como melhoramento genético de plantas e animais, uso de fertilizantes, aperfeiçoamento da nutrição e metabolismo animal, controle de pragas e doenças com uso de pesticidas, herbicidas e antibióticos, uso de sistemas de irrigação etc., conseguiu dar sua contribuição à humanidade aumentando a oferta de alimentos. No entanto, se até aqui a culpa da fome no mundo não recai sobre nossas costas, no próximo artigo tentarei demonstrar que o futuro nos apresenta novos desafios e que alguns dados apontados no amplo relatório citado neste artigo indicam que a agricultura pode passar de heroína a vilã no jogo da sustentabilidade do planeta Terra.
A fome no mundo: o que a minha, a sua, a nossa fazenda tem a ver com isso?
Este artigo será baseado em grande parte no relatório recém lançado pelo Instituto Internacional de Políticas Alimentares com o apoio da FAO.
Publicado por: Luis Fernando Laranja da Fonseca
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