A âncora verde sempre presente

Enquanto desfruto merecidas férias num hotel de praia no Nordeste, tenho me dedicado a ler calmamente vários jornais que me passam pelas mãos.

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Luis Fernando Laranja da Fonseca

Enquanto desfruto merecidas férias num hotel de praia no Nordeste, tenho me dedicado a ler calmamente vários jornais que me passam pelas mãos. Sem grandes preocupações mas com a mente já viciada para a questão da agricultura me desperta a atenção um conjunto de notícias publicadas em diferentes jornais apenas entre os dias 13 e 15 de Março. Vamos às notícias e depois às análises e comentários:

* Folha de São Paulo (13/Mar): "Safra cheia esvazia o bolso do agricultor" - ...renda no campo deve cair até R$ 3,5 bilhões neste ano, considerando as perspectivas dos cinco principais grãos...A previsão de safra recorde pela CONAB na última semana não significar,á uma boa renda no campo...Somente no que diz respeito a esses cinco produtos (soja, milho, feijão, arroz e algodão) a queda no Valor Bruto da Produção deverá chegar a 15%, o que representa uma perda de R$ 3,5 bilhões" (de renda para o campo).

* Valor Econômico (13/Mar): "Companhias brasileiras entram para o time dos R$ 10 bilhões" - ...Este ano, o Pão de Açúcar deve faturar R$ 12 bilhões, passando a ser a única companheira da Ambev no time dos R$ 10 bilhões, que não se originou do processo de privatização... O faturamento da rede varejista Pão de Açúcar passou de 6,9 bilhões em 1999 para 9,0 bilhões em 2000 e deverá superar os R$ 12 bilhões em 2001.

* Correio da Bahia (15/Mar): "Brasileiro está gastando menos com alimentação" - ...Atualmente 31% da renda familiar do brasileiro é destinada ao custeio da moradia, enquanto que outros 25% vão para alimentação...Até o período de 1993/94 a maior despesa das famílias brasileiras era com alimentação (30%), seguido da habitação (25%). De agosto de 94 a dezembro de 2000 os aluguéis subiram cerca de 300% e a energia elétrica 180%, já o preço dos alimentos também subiram, só que menos, em torno de 60%, o que explica a inversão dos pesos.

* Folha de São Paulo (15/Mar): "Brasileiros gastam mais com casa do que com comida" - ...Isso não quer dizer que o brasileiro está comendo menos. Significa que os preços dos alimentos subiram menos nos últimos anos em relação aos gastos com habitação...De acordo com o IPC a inflação acumulada durante o plano Real, de agosto de 94 a dezembro de 2000 foi de 94%. Enquanto os alimentos variaram abaixo da inflação - 45% no período -, os gastos com habitação tiveram aumento maior: 160%".

* O Estado de São Paulo (15/Mar): "Alimento em supermercado pode subir" - ...O setor supermercadista já se prepara para recuperar, pelo menos em parte, as perdas que teriam acumulado desde o início do plano Real, por conta de variações nos preços dos alimentos menores que a inflação do período. Neste mês os pontos de venda deverão apresentar pequenos reajustes principalmente nos itens de alimentação, com base num esperado aumento do consumo... Para o diretor comercial do D´Avó Supermercados, Martinho Moreira, ainda não há espaço suficiente para aumento de preço, especialmente para os produtos de maior valor. Como exemplo, ele cita a experiência da rede, com seis lojas espalhadas pela zona leste de São Paulo, em aplicar sobre a carne um reajuste de 5% no mês passado, "as vendas cairam imediatamente e nós tivemos de recuar", diz. Com relação ao leite longa vida, no entanto, ocorreu o contrário. Em 30 dias, Moreira registra alta de 43% no preço do produto, que passou de R$ 0,69 para R$ 0,99. Neste caso, não houve queda no consumo.

Apresentadas as notícias, vamos às análises e interpretações sobre como e porque tais notícias estão correlacionadas:

1) Mais uma vez , as notícias da mídia não são animadoras para o setor da agricultura, apontando queda de renda para o campo e aperto de margem para os produtores. Enquanto isso, para a outra ponta da cadeia, as notícias já são mais alvissareiras, uma vez que as grandes redes de varejo não páram de crescer e apresentam grande rentabilidade. Ou seja, as notícias explicitam a óbvia assimetria da cadeia agro-industrial brasileira, onde o setor varejista acaba agregando, por diversas razões, muitas vantagens e benefícios. Neste sentido, o depoimento mostrado acima, de um diretor de supermercado, mostra claramente as vantagens deste segmento por estar mais próximo do consumidor, ou seja, o nível de sensibilidade em relação ao comportamento da demanda. Com relação especificamente ao leite, que segundo esse diretor, apresentou um aumento de 43% nos últimos 30 dias, certamente o produtor ainda não usufruiu os benefícios dessa variação, ou seja, houve um ganho de margem que ficou diluído nos diversos segmentos que estão à jusante do produtor.

E vejam que esta não é uma crítica ao setor varejista, mas apenas uma constatação básica em relação a um setor bem articulado e que tem vantagens comparativas além de um gerenciamento altamente profissional. Além do mais, vivemos num sistema capitalista e de economia de mercado, isto é, salve-se quem puder e quem tiver forças. Por essas e outras é que o grupo Pão de Açúcar figura entre as 5 maiores empresas em termos de faturamento bruto listadas na Bovespa. E vejam que este fenômeno não ocorre somente no Brasil, mas na grande maioria dos países com economia desregulamentada e de livre mercado.

Julgo que a lição que se pode tirar desta análise, é que o setor de produção agrícola é naturalmente mais frágil, por uma série de motivos, e portanto precisa de uma certa proteção por parte do estado... Não é a toa que os países desenvolvidos protegem a sua agricultura custe o que custar, destacando-se aqui os EUA, EU e Japão.

2) Os alimentos se consolidam cada vez mais como um dos produtos mais estratégicos para a estabilidade da economia após a vigência do plano Real. A chamada âncora verde foi e continua sendo crucial para a manutenção da estabilidade econômica e controle da inflação, puxando para baixo os índices de preços ao consumidor, uma vez que os alimentos sobem sistematicamente abaixo da inflação nos últimos 6 anos.

3) Considerando que o setor de produção agrícola, apesar do crescimento da oferta de produtos, passa sistematicamente por situações de arrocho e que o setor de varejo vem crescendo de vento em popa, pode-se supor que quem vem arcando com o ônus de manter os alimentos com patamares de preços mais do que aceitáveis para a população (e para o governo) são os agricultores. Esta constatação não é novidade para muita gente, mas seria pertinente que a divulgação destes fatos fosse mais ampla para que a sociedade pudesse ao menos reconhecer e valorizar o trabalho realizado no campo. Além do mais, tal questão deveria servir como forte argumento para os agricultores negociarem benefícios e incentivos por parte do governo, que deveria proteger este setor estratégico para o país.
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Luis Fernando Laranja da Fonseca

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