Alertávamos sobre o risco desta prática à cadeia produtiva de leite, o que foi assunto dos dois últimos artigos desta coluna (O Cenário atual e Perspectivas de Curto Prazo e Momento Crítico!).
Em meados de outubro, o consumidor se deparava com duas condições distintas quando ia às compras nas grandes redes varejistas: os preços médios do Longa Vida subindo e os menores preços cerca de R$0,10/litro abaixo dos preços do mercado.
Evidente que nestas condições haveria migração para os produtos com menores preços, ao passo que a médio prazo (semanas) os preços gerais recuariam. Isso ocorreria no varejo e no atacado ao mesmo tempo, fazendo com que as margens do varejo, ampliadas em agosto e setembro, fossem mantidas durante a queda de preços.
Especulação? Observe o gráfico de preços no varejo e no atacado até o mês de outubro.

Até os preços de setembro este gráfico já havia sido apresentado no artigo "O Cenário atual e Perspectivas de Curto Prazo" veiculado no início de outubro.
Observe que a elevação citada nos preços de varejo de agosto e setembro provocou, em outubro, uma tendência de queda nos preços do mercado. Os preços, entre varejo e atacado, vinham se mantendo na diferença de 10 a 12%, em média, e hoje passaram aos patamares de 17% (valores médios).
Apesar de maléfica para o setor produtivo, produtores e indústrias, trata-se de uma maneira eficaz de manipulação nos preços.
Mesmo para os mais céticos, esta informação acaba endossando as denúncias das indústrias e dos produtores sobre a prática desleal de comércio por parte das grandes redes varejistas, assunto amplamente divulgado e discutido no início da terceira semana de outubro.
Pois bem, no início de outubro contrapunham-se duas forças: alta nos insumos, que poderia provocar aumentos aquém das perspectivas na oferta de leite, e a pressão do varejo em derrubar o mercado.
Ao que tudo indica, prevalecerá a força da falta de produto no mercado. Vários preços estão nominais no mercado de lácteos. Manteiga e alguns tipos de queijo praticamente "sumiram" do mercado para compras em grandes volumes. Evita-se desabastecer, em primeira instância, o mercado interno, onde está a quase totalidade do consumo da produção interna e importada.
A alta do dólar desencoraja as importações que, mesmo em volumes acima dos observados no ano passado, acabam não sendo suficientes para atender a demanda. Hoje há um real desequilíbrio entre oferta e procura no mercado de derivados, especialmente entre as indústrias.
No campo o mercado "spot" anda aquecido, com valores ainda superiores a R$0,50/litro, livre de frete. Há muitas informações de preços pagos bem acima destes patamares.
Produtores de diversas regiões estão recebendo propostas e contra propostas com valores cerca de 18% a 20% acima dos preços médios regionais do litro de leite, ou seja, dentro dos processos de pagamento das indústrias, está sendo mais fácil atingir o índice para as bonificações.
Aliás, nos últimos meses, os preços pagos aos produtores com maiores volumes ficaram bem próximos dos valores mais elevados pagos regionalmente.
Até a produção de setembro, paga em outubro, os preços médios do leite pagos aos produtores foram cerca de 2,5% superiores aos preços de 2001, enquanto a indústria, no mercado do longa vida, somou um aumento de 9,3% nos preços médios de venda.
Muitos produtores, leitores de A Nata do Leite, MilkPoint, Balde Branco, Boletim do Leite, AEX (Faesp), Faeg, e outras entidades que divulgam preços de leite, tem reclamado que os preços reais são mais altos que os que tem sido publicados pelos referidos veículos. Vale lembrar que o produtor que procura informações, e acompanha o mercado, geralmente representa uma condição diferenciada de tecnologia e volume de produção em relação ao grande universo dos produtores. Portanto, pela própria característica de sua propriedade e produção, os preços destes produtores tendem a ser os mais elevados, publicados na coluna de preços máximos ou mais altos em A Nata do Leite e MilkPoint.
Porém, na média geral, a realidade do produtor brasileiro é extremamente diferente dos empresários rurais que acompanham mercado. Segundo dados do IBGE, no Brasil, apenas 2% dos produtores produzem mais que 200 litros de leite por dia, e nem por isso pode-se dizer que a produção destes 2% é administrada empresarialmente.
O valor mix, a média paga pela indústria, para o leite tipo C, ainda está próxima dos R$0,36 a R$0,37/litro e R$0,41 a R$0,42 pelo leite tipo B. O valor do leite deste ano, portanto, realmente é apenas 2,5% acima do preço médio do ano passado, conforme descrito acima, um reajuste insignificante perto da realidade que o produtor enfrenta para comprar seus insumos.
Sendo assim, para aumentar, ou ao menos manter, o abastecimento de leite no próximo ano, não há outra alternativa que não seja através de preços.
Estamos, portanto, vivendo em 2002, uma situação inédita no mercado do leite dos últimos anos: preços sendo reajustados em pleno período de safra.
Observações feitas há alguns meses por algumas indústrias e, recentemente, pelo varejo de que a produção estaria aumentando não passam de especulações feitas com base em análises nos fatos dos outros anos. Este ano, as condições são outras.