O setor leiteiro do Uruguai está buscando saídas que permitam sua reativação. Foi exatamente com esta meta que o presidente da Cooperativa Nacional dos Produtores de Leite do país (Conaprole), ex-presidente da Associação Nacional dos Produtores de Leite (ANPL), Carlos Arrillaga, fez uma viagem à Austrália, a convite da Australian Dairy Corporation (ADC), órgão que coordena toda a atividade leiteira deste país.
Juntamente com Arrillaga estava o engenheiro Walter Lockhart, bem como representantes argentinos, que visitaram estabelecimentos, indústrias e reuniram-se com autoridades australianas. Em uma entrevista ao jornal uruguaio El País, Arrillaga informou sobre a decisão de criar um órgão internacional que defenda os interesses comuns dos países membros, contra os subsídios e tentando conquistar os mercados.
Em que consistiu a visita à Austrália?
Arrillaga: Foi uma experiência muito interessante, na qual visitamos estabelecimentos leiteiros, fábricas de última geração, cooperativas, e toda a organização do setor leiteiro, que é algo invejável e que podemos tomar como ponto de referência. Vimos uma organização leiteira que parte das associações e culmina na ADC, que articula uma coordenação total do setor leiteiro.
Qual foi a sua avaliação nesta viagem?
Arrillaga: O fundamental foi que comprovamos que existem políticas leiteiras e que, com essa organização, ficou claro que é possível crescer, ainda considerando um país que teve o setor leiteiro desregulamentado totalmente em 2000.
O que surgiu através destes contatos?
Arrilaga: Chegamos a um acordo para formar uma Associação global de países produtores e exportadores de leite, entre países que estão dentro do grupo de Cairns, mas temos diferenças com outros membros, como o Canadá, que cada dia subsidia mais a produção, que tem cada vez mais proteção e que provoca cada vez mais danos aos países que não são subsidiados.
Como será essa associação?
Arrillaga: Como temos este grupo de países - o grupo de Cairns -, a idéia é formar esta associação global de países sem subsídios e que produzem com base em pastagens naturais, como são Argentina, Austrália e Uruguai. O passo seguinte é incorporar, em etapas sucessivas, países como Nova Zelândia, Brasil e Chile.
Quais são os objetivos dessa associação?
Arrillaga: Como prioridade máxima, vamos trabalhar no assunto acesso a mercados. Essa pode ser a ferramenta mais adequada, a qual inclui o pagamento das tarifas que temos que pagar, por exemplo, para vender nossos produtos aos Estados Unidos. Poderíamos ter preços e colocações de produtos melhores que os que obtemos no mercado internacional. Claro que a luta contra os subsídios também é tema prioritário.
Já começam a trabalhar?
Arrillaga: Pretendemos ter uma posição mais decidida antes da reunião do Grupo de Cairns, que deverá ser realizada no mês de setembro, na Bolívia. Neste tempo, temos que realizar tarefas, como por exemplo entrar em contato com as autoridades oficiais, o que faremos nos próximos dias.
Quais são as políticas leiteiras que faltam ser realizadas no Uruguai?
Arrillaga: Falta nos organizarmos um pouco mais, já que temos um bom sistema de associações e um esqueleto fundamental do cooperativismo, onde mais de 90% do leite é trabalhado neste sistema. Devemos tratar de nos organizarmos, promover o mesmo tipo de organização interna que a Austrália tem. As políticas que faltam aqui deveriam organizar todos os membros da atividade leiteira, promovendo a soma de esforços, orientando uma política leiteira nacional que seja voltada para a exportação - que hoje equivale a apenas 50% -, mas com um reconhecimento sobre o que significa a produção, com um estímulo e uma possibilidade de transformar os produtores que necessitam de transformações, dentro das normas de livre comercialização que nos permita ser um país com maior projeção a nível internacional.
Agora que o senhor está do outro lado no setor leiteiro (a Conaprole está à frente da ANPL, da qual antes Arrillaga era presidente), que soluções possíveis vê para os produtores?
Arrillaga: Sabemos o que os produtores estão vivendo porque somos produtores. Sabemos como está a situação do setor, e estamos muito preocupados. Estamos trabalhando junto às associações de produtores em um projeto que, em poucos dias, será lançado, buscando atenuar esta difícil situação, buscando apoiar o preço do leite, apoiar a re-adequação do sistema produtivo. Isso será realizado nas associações, com o apoio total da cooperativa, buscando uma saída direta e uma melhora do preço, na base forrageira e na situação de vários estabelecimentos leiteiros que vêm sofrendo inúmeros golpes ultimamente.
Que financiamento receberá este projeto?
Arrillaga: Vamos bater em todas as portas que forem necessárias, a Corporação Nacional para o Desenvolvimento, a banca internacional e a nacional, para um projeto de desenvolvimento global do setor leiteiro nacional, que nos parece um dos setores que deve se manter produtivo no Uruguai.
Entrevista concedida ao jornal El Pais, publicada em Infoleche - Sistema Panamericano de Informação Leiteira
Dados do Uruguai
Segundo os dados divulgados pela publicação uruguaia Comércio Exterior & Transporte, seguem os números do setor leiteiro do principal exportador da América Latina, entre 1980 e 2000.
* A produção total do país é de 1,39 bilhão de litros de leite, dos quais 1,102 bilhão são enviados às indústrias;
* O consumo per capita é de 230 litros por ano;
* Há no país 5 mil produtores de leite e 258 mil vacas leiteiras;
* A produção por animal é de 4,5 mil litros por ano;
* O Uruguai representa 2,80 por mil da produção mundial de leite, e 2,4% da produção leiteira latino-americana;
* O país exporta 46,5% de sua produção, sendo o quinto país do mundo em porcentagem, e foi o principal exportador de lácteos da América Latina entre 1980 e 2000;
* A Conaprole é individualmente a principal empresa exportadora de produtos lácteos dos países em desenvolvimento em todo o mundo desde 1980. O Uruguai é o maior consumidor de produtos lácteos da América Latina, com 232 litros consumidos por ano por habitante, e tem a maior disponibilidade de leite por habitante da América Latina, com 412 litros por ano por habitante;
* A produção total cresceu de 800 milhões de litros em 1980 para 1,4 bilhão de litros em 2001, e o envio de leite para as indústrias cresceu de 450 milhões para 1,1 bilhão no mesmo período. Neste mesmo período, o consumo de leite fluido se manteve em torno de 200 milhões de litros e a elaboração de produtos passou de 500 milhões para 1 bilhão de litros;
* Dos últimos anos, o melhor faturamento do setor ocorreu em 1998 - quase US$ 417 milhões, sendo US$ 191 milhões de exportação e US$ 225,8 milhões ao mercado interno;
* Em 2001, o México comprou 28% das exportações, contra 16% comprados em 2000; o Brasil comprou 24%, sendo que em 2000 a compra foi de 54%; a Venezuela comprou 13%, contra 8% comprados em 2000; a Argentina comprou 10%, contra 9% comprados em 2000; a Colômbia, que não tinha importado produtos lácteos do Uruguai em 2000, comprou 10% em 2001; e os Estados Unidos compraram 9%, contra 5% comprados em 2000;
* Os produtos exportados foram 36% leite em pó, 36% queijos, 14% leite UHT e 11% manteiga e óleo de manteiga.
Fonte: Infoleche e Infortambo, adaptado por Equipe MilkPoin
Uruguai: uma associação contra subsídios
Publicado por: MilkPoint
Publicado em: - 5 minutos de leitura
QUER ACESSAR O CONTEÚDO?
É GRATUITO!
Para continuar lendo o conteúdo entre com sua conta ou cadastre-se no MilkPoint.
Tenha acesso a conteúdos exclusivos gratuitamente!
Publicado por:
MilkPoint
O MilkPoint é maior portal sobre mercado lácteo do Brasil. Especialista em informações do agronegócio, cadeia leiteira, indústria de laticínios e outros.