Desde sua criação, a Câmara de Produtores de Leite do Uruguai vem lutando para melhorar o preço do leite fluido ao produtor. A possibilidade de exportar leite cru - chamado de "leite em pé" - constituiu uma de suas bandeiras, com a argumentação de que todas as possibilidades de comercialização devem estar abertas para que o produtor de leite uruguaio tenha a liberdade de escolher onde operar.
O presidente da instituição, Conrado Ferber Arocena, vê com preocupação tudo o que se vem fazendo para impedir estas exportações, por parte daqueles que não estão de acordo com a exportação que está sendo feita para a Argentina. "A indústria assegura que não pode pagar mais, mas dizem uma coisa e fazem outra. A verdade é que nós temos visto tantos disparates, tantos gastos desnecessários, que chegamos à conclusão de que somos os restos. Há aqui um problema de opções. É como o cidadão que pode pagar o telefone, a luz e o cartão, mas não pode pagar o aluguel de seu apartamento ganho de um tio, porque é familiar e pode se arranjar. Esta é a situação do produtor, residual. Primeiro se paga tudo e, com o que sobra, pagam-se aqueles que lhes fornecem matéria-prima".
Bom negócio
A exportação de leite "em pé", para os produtores, "é um bom negócio", porque "a diferença é muito grande" em preços. Para o presidente da Câmara de Produtores de Leite, esta saída "é uma ferramenta básica e fundamental", que funciona como "testemunha". Ferber considerou que, se os produtores se agarraram a esta possibilidade é porque precisavam melhorar seus rendimentos. A empresa argentina SanCor estabeleceu uma ponte e facilitou que o produtor vendesse sua produção a empresas do país vizinho.
Ferber, que informou que não está exportando sua produção porque tem contrato com uma indústria local, valorizou a "decisão destes pioneiros" - chamando desta forma os produtores que estão negociando sua produção com a Argentina -, porque "nos abriu as portas para uma melhora no preço interno".
Pressões
O presidente da Câmara também se mostrou descontente porque a Cooperativa Nacional de Produtores de Leite do Uruguai (Conaprole), através de seus dirigentes, deverão falar com o Parlamento uruguaio em conjunto com chefes técnicos da cooperativa e o sindicato, expondo argumentos que "são distantes de ser reais em sua totalidade". Segundo ele, a Conaprole está pressionando sobre três assuntos: a devolução de impostos ou reembolso; o chamado "leite negro" (informal) e, por último, o Fundo de Financiamento da Atividade Leiteira.
Com relação à devolução de impostos, que agora o Poder Executivo do país eliminou, Ferber disse que a Conaprole denunciou que a SanCor começou pagando US$ 0,155 por litro e, ultimamente, este valor chegava a US$ 0,185. Porém, retirando-se o custo da pasteurização e a passagem pela fronteira, o valor líquido recebido é de US$ 0,165.
Leite negro
Outro protesto da indústria e da entidade de trabalhadores da Conaprole é que, em muitas cidades do interior, estão sendo vendidos leite cru diretamente e que isso deve ser proibido.
Ferber defende a idéia de que, ao invés de proibir, deve-se criar, argumentando que estes pequenos produtores familiares do interior do país podem criar pequenas indústrias, o que daria "trabalho justo onde mais se necessita. Bastaria se modificar as leis de 1935, assumindo que já estamos em 2003. Por que não podemos comprar uma pequena máquina para industrializar o leite? Por que as famílias que vivem no interior não podem ter leite pasteurizado? Por que tudo isso tem que estar sujeito à vantagem da grande indústria?".
Para Ministério, o reembolso não seria mais
O reembolso às exportações de leite fluido foi criado em um momento em que havia um volume muito importante do produto no Uruguai que, de alguma forma, não podia ser totalmente industrializado. Então, estimulou-se sua exportação como um mecanismo importante para eliminar a pressão que poderia exercer no mercado interno, segundo informou uma fonte do Ministério da Pecuária, Agricultura e Pesca (MGAP) do Uruguai.
Se este reembolso se manteve no tempo foi porque, embora a situação tenha mudado, as possibilidades não foram esgotadas. Agora, o Poder Executivo decidiu eliminar este reembolso, que consiste em 4,75%.
"Agora a situação é contrária. Há muito pouco volume de leite no mercado. Como vamos pagar esta devolução de impostos, quando o que temos que fazer é que nossas empresas trabalhem completamente, e não favorecer e motivar a saída de leite cru?", disse o funcionário do MGAP.
Fonte: El País
Uruguai: Produtores defendem exportação de leite cru para Argentina
Publicado por: MilkPoint
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