
Stuart Brander, neozelandês, é um produtor de leite na Ilha Norte da Nova Zelândia, possuindo 350 vacas em 180 hectares. Tornou-se produtor de leite cerca de 12 anos atrás, quando substituiu a criação de gado de corte pelo leite, após seu retorno da universidade.
Daniela Coco é engenheira agrônoma formada pela ESALQ/USP. Conheceu a Nova Zelândia ao fazer o estágio final de conclusão do curso de agronomia, quando freqüentou a renomada Massey University, sob a orientação do Prof. Perry Matthews, estudando em seu projeto de estágio a indústria de lácteos da Nova Zelândia e a cadeia do agribusiness do leite. Nesse período, fez também estágio na fazenda leiteira de Stuart, com quem acabou se casando. Ainda no ano 2000, após graduar-se no Brasil, retornou para a Nova Zelândia, indo ajudar Stuart nas tarefas diárias da fazenda, que, além do leite, explora o plantio de aspargos. Em 2001, iniciou mestrado na Massey University, onde estuda a estratégia de dez das principais empresas de lácteos do mundo, localizadas nos EUA, Alemanha, Suécia, Dinamarca, França, Reino Unido, Austrália, Brasil e Nova Zelândia.
Stuart e Daniela são produtores de leite globalizados, não apenas pelo fato da sua união, sem dúvida pouco usual em função da pouca proximidade e dos escassos pontos em comum entre Nova Zelândia e Brasil, mas, principalmente, por terem como parte de seu negócio uma atividade muito mais ampla e complexa do que a "simples" produção de leite: são sócios da Fonterra, a cooperativa neozelandesa que fatura mais de US$ 6 bilhões, é a 4ª maior empresa de lácteos do planeta e, ultimamente, tem feito parte do noticiário internacional em função de aquisições e parcerias estratégias com empresas como a Nestlé (nas Américas), a Arla Foods (na Europa), a Dairy Farmers of America (Estados Unidos) e a Britannia (Índia).
Veja a entrevista que deram com exclusividade ao MilkPoint e acompanhe porque eles são, de fato, produtores globais.

Há muitos produtores de leite iniciando a atividade na Nova Zelândia ?
Stuart: O que predomina principalmente é o investimento em fazendas já existentes, ampliando a produção. A tendência é termos um número menor de fazendas, cada vez maiores. Para produzir leite na Nova Zelândia, em geral é preciso ficar sócio da cooperativa Fonterra, e esta associação não é barata para quem quer começar. Além disso, os preços de terra estão bastante elevados, desencorajando novos investimentos. Não somos apenas fazendeiros, mas sim sócios de uma estrutura complexa, que envolve indústrias e empresas em diversos países do mundo.
De onde vem a maior parte de sua renda: da produção de leite ou do rendimento das ações da Fonterra ?
Stuart: Hoje, vem do leite, mas acredito que em 10 ou 20 anos, teremos um bom retorno por sermos acionistas da Fonterra.
O que pensam os produtores de leite da Nova Zelândia, ao ver sua cooperativa, a Fonterra, investindo em outros países ? Há um sentimento de que o dinheiro está sendo mal empregado e que poderia ser utilizado para pagar melhor o leite dos produtores locais ?
Stuart: Essa é uma pergunta muito boa e que tem gerado muita discussão na Nova Zelândia. Nós particularmente achamos que o investimento da empresa em outros mercados é bem vindo. A Fonterra precisa ser uma das 3 maiores empresas de lácteos em cada mercado mundial e essa posição só será obtida com investimentos em outros países. O mundo está ficando cada vez menor e temos de ser um grande produtor. Claro que esse investimento precisa retornar para os acionistas (produtores) para obter o apoio necessário.
Daniela: Há uma certa apreensão, junto aos produtores, de que se a Fonterra pode obter leite mais barato em outros países, porque então processaria o leite da Nova Zelândia ? De certa forma, há um temor de perder espaço para países com custo de matéria-prima menor, dentro da própria companhia. Porém, ao mesmo tempo em que existe esta dúvida, os produtores querem que sua empresa cresça e ganhe o mundo. Agora que os preços do leite estão muito baixos em função do mercado externo de lácteos, esse tipo de questionamento ganha corpo. É um sentimento misto, que gera discussões, mas que não tem impedido o apoio às muitas iniciativas da Fonterra.
Há então o sentimento de que a Fonterra pode agir contra os produtores ?
Ambos: nunca !
Stuart: A Fonterra é uma cooperativa, ligada aos seus fornecedores de leite. Eu tenho um parte da cooperativa, assim como os outros produtores, e exercemos o controle da empresa.
Daniela: A Fonterra não pode tomar grandes decisões sem o apoio de 75% dos produtores. A fusão entre a New Zealand Dairy Group, a Dairy Board e a Kiwi Dairy Cooperatives precisou contar com esse índice de apoio para ocorrer.
Quantas empresas captam leite na Nova Zelândia ?
Stuart: Nos últimos ano, a indústria láctea da Nova Zelândia passou por um processo de consolidação sem precedentes. Nos anos 50, tínhamos centenas de cooperativas e hoje temos apenas três, sendo uma delas, a Fonterra, responsável pela quase totalidade do leite captado no país.
Daniela: As outras duas são a Westland e a Tatua, de pequeno porte mas com altíssima especialização, com produtos de alto valor agregado e diferenciados.
Como funciona o processo de participação dos produtores nas decisões da Fonterra ?
Stuart: Há um conselho de acionistas, que recebe as posições e opiniões passadas pelos representantes dos produtores e as levam ao Board (diretoria) da empresa.
Daniela: Há uma reunião do Conselho de Acionistas, onde se explica como está a empresa, quais são os próximos passos, quais as perspectivas. É uma reunião aberta aos acionistas da empresa, ou seja, aos produtores de leite que fazem parte da Fonterra. Os diretores vão às reuniões e conversam com os produtores, revelando os detalhes sobre a situação da empresa.
Vocês não são simplesmente produtores de leite, mas sim sócios de uma empresa global. É muito complicado acompanhar essa nova realidade ?
Stuart: Temos de nos manter bem informados. O boletim Farmlink, disponibilizado no site da Fonterra, traz todas as informações que necessitamos. Somos a 4ª maior empresa de lácteos do mundo e, por isso, estamos muito satisfeitos e orgulhosos !

Qual é o potencial de crescimento da produção de leite na Nova Zelândia ?
Stuart: Enorme. Poderíamos dobrar a produção facilmente.
Daniela: A indústria pretende crescer 4% ao ano em produtividade, ou seja, melhorando a eficiência de produção apenas, sem falar em expansão da área produtiva. Há ainda muita terra que pode ser convertida para a atividade leiteira. Vai depender da atratividade econômica do leite em comparação a outras possibilidades de uso da terra, como gado de corte e culturas.
O que vocês sabem sobre os investimentos da Fonterra no Brasil, em parceria com a Nestlé ?
Daniela: Sabemos o que está no website da Fonterra, nos boletins Farmlink e o que os diretores nos dizem nas reuniões, o que não tem ido muito além do que foi divulgado à imprensa.
O que explica o fato da Fonterra estar investindo ao mesmo tempo, de forma agressiva, em diversos países, como Índia, Austrália, Brasil, Chile e Estados Unidos ?
Daniela: Acredita-se que vários negócios com grandes empresas estavam pré-arranjados, ou em vias de ser concretizados, mas não o foram antes em função da estrutura anterior do setor de lácteos da Nova Zelândia, que, de certa forma, "confundia" potenciais parceiros. Quando a mega-fusão ocorreu, com a criação da Fonterra, todos esses negócios engatilhados viraram realidade rapidamente. A joint-venture com a Nestlé, por exemplo, estava sendo negociada havia 2 anos, e assim que houve a mega-fusão, ela foi assinada.
Stuart: um dos dirigentes mundiais da Nestlé esteve na Nova Zelândia, viu nossa estrutura de produção, industrialização e comercialização e disse: "não podemos competir com eles". O passo natural, nesses casos, é buscar a cooperação.
O que o setor lácteo da Nova Zelândia representa para o país ?
Stuart: Um total 24% das exportações. Isso certamente tem um peso significativo no fato do setor ter a importância que tem e ser ouvido como é no país.
A Fonterra está adquirindo empresas de lácteos na Austrália, país vizinho, bem maior e que também visa o mercado de exportação de lácteos. Existe rivalidade, ou clima de insatisfação em função disso, na Austrália ?
Stuart: Não. A Austrália quer nosso direcionamento no setor de lácteos, uma vez que a Nova Zelândia tem grande know-how e tradição nessa área. Por outro lado, precisamos ter um mercado doméstico, onde lançamos produtos e testamos novas possibilidades de mercado. A Austrália representa essa possibilidade. Precisamos um do outro e nosso objetivo é o mercado mundial, de forma que não faz sentido ficarmos disputando um contra o outro. Há um respeito mútuo entre os dois países.
