Setor precisa eliminar entraves para se consolidar no mercado internacional de lácteos

Publicado por: MilkPoint

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O Brasil tem enorme potencial para crescer no mercado internacional de lácteos, mas é preciso ainda criar cultura exportadora em todos os elos da cadeia e no próprio governo. É o que se concluiu do I Seminário "Removendo Obstáculos para a Exportação de Lácteos do Brasil", realizado na tarde de ontem (27), no auditório da Leite Brasil, em São Paulo. O evento, organizado pela Leite Brasil, teve o patrocínio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e apoio da Faesp/Senar (SP), Leite Nilza, Tortuga, Tetra Pak e DeLaval.

Mesmo sem tradição exportadora, o país tem conseguido entrar em alguns mercados, com exportações atingindo US$ 40 milhões em 2002, valor que deve ser atingido novamente em 2003, caso os níveis verificados em julho se repitam nos próximos meses.

"O Brasil tem competitividade em leite em pó, condensado e leite evaporado. No caso do leite condensado, temos o menor custo de produção do mundo," afirma André Jacintho Mesquita, diretor da Serlac, trading exportadora que reúne Itambé, Embaré, Ilpisa, Confepar e CCL, além da trading SerTrading. Mesquita apresentou a primeira palestra do evento, seguido de Vicente Nogueira Netto, diretor do departamento econômico da CBCL (Confederação Brasileira das Cooperativas de Laticínios) e de Alexandre Gomes Fernandes, fiscal federal do SIPA de Minas Gerais.

A Serlac está atuando no mercado internacional com duas marcas: Daylac, produto de consumo, e Brazilian Dairy Board, para fins industriais. Segundo Mesquita, o produto de consumo, de maior valor agregado, tem tido boa aceitação no mercado internacional. A empresa tem focado os mercados dos países do Norte da África e Oriente Médio, além da América Latina. Angola, no sul da África, tem sido também um bom destino para lácteos brasileiros, especialmente leite UHT (longa vida). México e Costa Rica são mercados que permanecem fechados.

Entre os entraves apontados por Mesquita à consolidação das exportações brasileiras, está a eliminação de barreiras sanitárias e a padronização das embalagens para exportação. Ele aponta que, muitas vezes, as exigências feitas no Brasil, inclusive com variações estaduais em relação à rotulagem, atrasam as exportações e podem dificultar até a entrada de produtos em determinados mercados.

Nogueira Netto apontou a demora em alguns procedimentos oficiais como um entrave à participação no mercado internacional. Segundo ele, o Brasil deve procurar, o mais rápido possível, realizar acordos de equivalência sanitária com potenciais mercados, além de procurar a abertura de mercados estratégicos, como o México, que enviou uma missão ao Brasil nos dias 15 e 16 de julho. O México é um dos maiores importadores de leite e a logística favorece o Brasil em comparação a outros exportadores, como a Nova Zelândia e a Austrália. Ele ponderou que, como a exportação de lácteos ainda é algo muito novo, o setor está ainda aprendendo a operar no mercado internacional, incluindo a iniciativa privada e o governo, mas que é preciso correr, ainda mais considerando que uma nova safra se aproxima, de forma que o Brasil precisa ter o maior número de canais abertos no mercado internacional.

Nogueira Netto mencionou a necessidade de harmonizar a tributação, oferecer financiamentos a taxas de juros fixas ao produtor e à indústria, estimular o Programa Fome Zero fortalecer o cooperativismo leiteiro como itens importantes para a evolução do mercado nos próximos meses.

Outro entrave refere-se às exigências de alguns países. Angola, por exemplo, quer leite UHT com 8 meses de validade, produto não disponível no Brasil. Fernandes, do SIF, citou que muitas vezes os países aos quais o Brasil pretende exportar relutam ou demoram em retornar os contatos feitos, o que atrasa o processo. Ele informou que, dos 1931 estabelecimentos na área de lácteos, com SIF no Brasil, 88 estão habilitados a exportar. Fernandes explicou também como se enquadram os diversos mercados em relação às exigências. Países do Mercosul, Chile e Estados Unidos, por exemplo, têm procedimentos diferentes em relação à habilitação de empresas para exportação de lácteos. Já para a União Européia, nenhuma empresa brasileira está habilitada a exportar, uma vez que as exigências de qualidade do leite superam os padrões atualmente vigentes no Brasil, mesmo considerando a Instrução Normativa 51, prevista para entrar em funcionamento em 2005 no Centro-Sul. É necessário ter contagem de bactérias inferior a 100.000 UFC/ml, crioscopia máxima de - 0,520 ºC e contagem de células somáticas máxima de 400.000/ml. "Nada impede, porém, de determinada empresa atingir estes limites e se habilitar", informa ele.

Longo prazo

Mesquita alertou que a participação do Brasil no mercado internacional não deve ser vista sob a ótica da oportunidade de momento, mas sim de uma estratégia de longo prazo. "Não se pode pensar em vender apenas quando há excesso de produção, mas sim estar presente durante todo o todo, ainda que com volumes reduzidos", afirmou. Ele lembrou o comportamento de indústrias com maior cultura exportadora, como a do aço. Mesmo com câmbio desfavorável, o Brasil não deixou totalmente o mercado externo; hoje, com câmbio favorável às exportações, está colhendo os frutos. Com lácteos, o mesmo deve ser feito.

Para Mesquita, a cultura exportadora não se resume às empresas, mas também ao sistema bancário. É necessário ter financiamentos para exportação e facilitar o desconto de cartas de crédito referentes ao comércio internacional de lácteos. Segundo ele, os bancos não estão acostumados a estas operações com lácteos como ocorre com outros produtos do agronegócio brasileiro.

Tanto Mesquita quanto Nogueira Netto consideram que, no médio longo prazo, deve haver maior intercâmbio entre empresas brasileiras, argentinas e uruguaias visando ações conjuntas no mercado internacional, mas que, no curto prazo, o Brasil ainda é visto como importador e não exportador pelos países vizinhos, mesmo porque ainda não é auto-suficiente. "Hoje, a Argentina é nosso maior concorrente no mercado internacional", cita Mesquita.

Panorama para 2004

Para Mesquita, 2004 deverá ser um bom ano para a participação brasileira no mercado internacional. Segundo ele, a crise de oferta na Oceania deverá continuar, o mesmo ocorrendo na Argentina e Uruguai. Na Europa, a seca e o forte calor já estão reduzindo a oferta e o envio de leite como ajuda humanitária ao Iraque está consumindo as reservas americanas. Além disso, segundo Mesquita, os subsídios europeus por tonelada devem cair.

Fonte: MilkPoint
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