Revista do Idec traz análise do leite longa vida

Publicado por: MilkPoint

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O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), uma organização não governamental sem fins lucrativos, analisou, em maio deste ano, amostras de 27 marcas de leite longa vida (UHT) integral nas cidades de São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza e Rio de Janeiro, contando com a colaboração, para a pesquisa de mercado e compra dos produtos, da Associação de Defesa e Orientação do Cidadão (ADOC-PR), da Associação de Educação e Defesa do Consumidor (ADEC-CE) e do Movimento das Donas de Casa e Consumidores de Minas Gerais (MDC-MG).

Comentário MilkPont: Para quem é do setor lácteo e não viu ainda a matéria, capa da edição de outubro/novembro deste ano, é interessante conhecê-la. O IDEC já esteve envolvido em questões relacionadas ao leite antes, tendo um grande espaço na mídia. A reportagem desta edição não é tão negativa como poderia se supor, além de pouco conclusiva pela reduzida amostragem, mas reflete a atuação das entidades ligadas ao consumidor - o que devemos nos acostumar. Em contato com o IDEC, cujo site hoje está hospedado no portal UOL, fomos informados que a revista tem tiragem de 32.000 exemplares. Abaixo, um resumo da reportagem.

Entre junho e agosto, os laboratórios do Centro de Pesquisa e Processamento de Alimentos da Universidade Federal do Paraná (Ceppa/UFPR) avaliaram a composição e as condições higiênico-sanitárias dos produtos. Foram adotadas como parâmetro as determinações da Portaria 370/97 do Ministério da Agricultura e do Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária dos Produtos de Origem Animal (RIISPOA). A análise da rotulagem foi feita pelos técnicos do Idec.

O resultado geral encontrado foi que as amostras não apresentavam contaminações nem fraudes mas, em alguns casos, apresentaram uma concentração de nutrientes abaixo do esperado e um volume menor que o anunciado no rótulo.

O primeiro e mais importante critério - presença de microrganismos - apresentou um bom resultado - não foram encontrados microrganismos. Depois de serem mantidos em uma estufa por sete dias, os leites permaneceram íntegros, sem contaminação. Só houve um problema com uma amostra da marca Carrefour. A caixa estufou, o que indica a penetração de micróbios no produto. A hipótese mais provável para explicar esse fato é que a embalagem dessa marca é a única que possui uma tampa de plástico para facilitar sua abertura. Pode ter surgido uma microabertura nessa área, menos protegida que o restante da caixa.

Foi, porém, nos exames de composição que apareceram os maiores problemas do teste. Dez produtos apresentaram uma concentração de gordura menor que a exigida pela legislação; dois não passaram na prova de extrato seco desengordurado, que permite verificar se o leite mantém uma quantidade mínima de nutrientes, além da água e da gordura; e nove tinham um nível de acidez abaixo do permitido.

Essas anomalias indicam má qualidade da matéria-prima e foram encontradas em treze marcas. Seis desses produtos (Betânia, Cemil, Jaguaribe, LAC, Leco e Paulista) não passaram no exame de gordura nem no de acidez. O leite da marca CCPL ficou fora do padrão nos três itens. Para um produto que tem menos gordura e nutrientes que o desejado, seria possível supor que ele houvesse sido adulterado. Por isso, foram feitos exames para detectar possíveis fraudes. Mas nenhuma irregularidade desse tipo foi encontrada.

Na análise do volume, a pesquisa descobriu que todas as caixas declaravam conter 1.000 mililitros, mas algumas - Cemil, Lírio ou Parmalat - apresentavam até vinte mililitros a menos. O Idec, porém, só mediu uma embalagem.

Caso isso se repetisse em outras, uma caixa com doze unidades de leite poderia ter até um copo a menos (240 mililitros) do que o total declarado. Por isso, o Instituto solicitou ao Inmetro uma avaliação completa de todas as marcas do mercado a esse respeito. Porém, as normas do Inmetro toleram uma variação de até 2% no volume do leite.

Quanto à rotulagem, a maioria das embalagens exibia as informações exigidas por lei. Parmalat e Frimesa até apresentavam dados nutricionais mais específicos.

Clique aqui
para ver tabela completa da avaliação do leite longa vida.

O que foi avaliado

Esterilidade

As caixas foram deixadas à temperatura de 35oC por sete dias e, depois, em um meio de cultura propício ao desenvolvimento de microrganismos. Se a caixa estufasse ou os micróbios proliferassem, estaria constatada a contaminação.

Gordura

O leite longa vida integral deve conter no mínimo 3,0%. Produtos com mais de 3,5% receberam pontuação maior.

Extrato Seco Desengordurado

Este exame determina o percentual de nutrientes que sobram do leite depois de retiradas a água e a gordura. Esta concentração não pode ser menor que 8,2%. Produtos com mais de 9,0% receberam pontuação maior.

Acidez

Medida com base no ácido lático, cujo peso deve corresponder ao intervalo de 0,14 a 0,18 por cento do total do produto.

Inexistência de fraude

Neste item, estão compreendidos quatro exames: a medição da densidade (que permite descobrir se houve adição de água ou outra substância) e as verificações da presença de formol, água oxigenada (substâncias que matam bactérias) e peroxidase, uma enzima que deve desaparecer quando o leite é submetido ao tratamento térmico adequado.

Aspecto, cor e sabor

É o exame das características percebidas pelos sentidos, ou organolépticas.

Empresas contestam

A Cemil, a Cotochés e a Capil Vida comunicaram ao Idec que utilizam, para a determinação da concentração de gordura do leite longa vida, que seria homogeneizado, uma metodologia diferente da oficial. As empresas centrifugam por mais tempo e com maior velocidade o produto e isso, alegam elas, poderia influenciar os resultados.

O Idec esclarece que utilizou a metodologia oficial do Laboratório Nacional de Referência Animal (Lanara) e que os leites que apresentaram menor quantidade de gordura não informavam que o produto era homogeneizado. Além disso, a metodologia oficial não prevê nenhuma diferença no exame de leites homogeneizados.

Clique aqui para ver a reportagem do Idec.

Fonte: Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, adaptado por Equipe MilkPoint
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Antonio J. Xavier
ANTONIO J. XAVIER

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 04/01/2002

1 - O sistema de aquecimento por injeção direta de vapor pode reduzir a acidez do leite pela eliminação de gases (gás carbônico) na seção de vácuo do equipamento. Se a matéria-prima tiver acidez limite, pode se apresentar, depois de processada, com acidez inferior a 0,14% sem contudo ter sido fraudulentamente reduzida. Essa ocorrência se tornou mais comum com a generalização das boas práticas de produção acompanhadas da refrigeração e do transporte a granel.

2 - A depressão do ponto crioscópico não é apropriada para deteção de fraudes em leites contendo o estabilizante citrato de sódio.

3 - Segundo a tabela de aditivos do MAPA e da ANVISA, os citratos são apenas estabilizantes.

4 - Não encontrar microrganismos viáveis significa também que a amostra/alíquota analisada se apresentava estéril ou "comercialmente estéril". Existindo mais de uma explicação para um fato, adoto sempre a mais simples e plauzível.
Vanerli Beloti
VANERLI BELOTI

LONDRINA - PARANÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 19/12/2001

Sou professora de Inspeção de produtos de origem animal na Universidade estadual de Londrina, e gostaria de comentar o artigo sobre leite longa vida. Tenho que discordar um pouco das conclusões feitas a partir dos resultados mostrados. Em relação à acidez, ela não pode ser inferior a 0,14, quando isso ocorre, o motivo mais provável é a adição de substâncias neutralizantes de acidez, prática aliás bastante freqüente, e que tem o objetivo de permitir que o leite de péssima qualidade utilizado na produção do leite longa vida, suporte as altas temperaturas sem precipitar ou coagular.

A prova para verificar fraude por adição de água deveria ser a crioscopia e não a densidade que só é sensível para quantidades muito grandes. Desta maneira, por esta análise, não se pode dizer que não houve fraude.

Não encontrar microrganismos em nenhuma amostra também é estranho, mas pode ser explicado, em parte, pela adição de citrato de sódio como estabilizante da caseína, permitida pela legislação. Em quantidades um pouco maiores, o citrato torna-se um potente inibidor do crescimento microbiano, utilizado, desta forma e com este objetivo, com grande freqüência pelas indústrias. Assim, provas que detectassem de maneira inespecífica a presença de inibidores de crescimento ao invés das específicas para formol e água oxigenada seriam mais indicadas. Por fim, desnate excessivo também é fraude. A grosso modo, mesmo sem olhar números, posso assegurar que a interpretação dos dados foi bastante otimista.

Enviei estes comentários também ao IDEC. Profa. Vanerli Beloti
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