O programa Via Lácteo foi implementado há seis anos; município é o 58º produtor do país, com mais de 85 mil litros por dia
Em 1997, a partir de uma pesquisa realizada por entidades, Prefeitura Municipal, Emater, sindicatos, associações e comércio local, constatou-se que, dos 1.426 produtores de leite de Crissiumal, RS, 71% produziam menos que 30 litros por dia, chegando à situação de exclusão do setor produtivo. Em 2002, a cidade foi a 58ª maior do Brasil em produção de leite, com média de 85,61 mil litros por dia, segundo ranking do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). No RS, fica atrás de Marau, com 87,414 mil litros por dia (55ª posição).
Foi a partir desses dados que teve início a história do Programa Municipal de Fortalecimento da Atividade Leiteira, chamado de Programa Via Lácteo, idealizado pelo prefeito Valter Heck, e colocado em prática com o apoio de técnicos da Emater, pessoal das cooperativas Cotrimaio e Cotricampo, e do Senar, este de âmbito financeiro. O Programa é administrado por um conselho formado por produtores eleitos pelos sindicatos dos trabalhadores rurais. O Programa rendeu a Heck o Prêmio Gestor Público do Rio Grande do Sul em 2002 e 2003, atribuído pelo Sindaf (Sindicato dos Auditores de Finanças Públicas) e pela Assembléia Legislativa.
O Via Lácteo capacita os produtores em grupos de 25 pessoas, oferecendo um bônus, revertido em insumos para a produção de leite, adquiridos nos estabelecimentos do município, exigindo-se comprovação. No início, o bônus correspondia a R$ 200, mas, por decisão dos produtores, recentemente, passou para R$ 50.
"O envolvimento dos pequenos comerciantes, estabelecendo uma relação de co-responsabilidade, é uma mudança de conceito que nos orgulha. Na comunidade agrícola, um depende do outro", reforçou.
Segundo o prefeito, Crissiumal tem cerca de 2,7 mil propriedades, com uma média de 9,8 hectares por família, tendo no leite uma possibilidade de viabilizar a propriedade. "Seis anos atrás, devido a pouca tecnologia, baixa produtividade e ao desestímulo, eles começaram a abandonar a produção de leite. Hoje, são 1,2 mil a 1,3 mil produtores. O programa evitou significativamente sua exclusão", comemorou, revelando que, em 2001, Crissiumal alcançou uma produtividade média de 2.879 litros por vaca por ano. "Cerca de 1.845 litros acima da produtividade do Rio Grande do Sul", acrescentou.
A união das entidades foi, na opinião de Heck, decisiva para o sucesso do programa, no qual a principal ação - "a única eficiente" - seria colocar os produtores ou produtoras em salas de aula, estabelecendo cursos intensivos com duração de três dias.
Já passaram pelo curso 912 pessoas, cerca de 75% dos produtores de Crissiumal, sendo que, desses, as mulheres representam 35%. "À medida que um produtor fazia o curso, melhorava a pastagem, destinando a esta parte da área da soja, e obtinha bons resultados, os vizinhos começaram a fazer também. Hoje, muitos têm pastagem praticamente perene", comemorou o prefeito.
O prefeito revelou que, para chegar a essa abrangência, foram muitos os desafios. "O primeiro foi o alojamento, pois faltavam camas e colchões, superado pelo envolvimento da comunidade na 'campanha da cama' e na 'campanha do colchão'", relembrou. Heck contou que o Hospital de Caridade, único do município, como incentivo aos produtores, disponibilizou um médico para cada grupo e passou a fazer consultas e exames solicitados por ele.
Outro problema foi a falta de alimentação para o pessoal, sanado com a filiação de pequenos comerciantes ao programa. "Com isso, foram mais que quatro mil refeições, oferecidas sem tirar um centavo dos cofres públicos", reforçou o prefeito de Crissiumal. Segundo ele, cada uma das mais de 30 empresas paga R$ 50 por mês para manter a alimentação dos produtores, depositando os recursos ao Via Lácteo. O conselho do Programa administra a verba, arcando com os custos do material didático.
Frutos
O Via Lácteo, segundo Heck, teve bons frutos, entre eles os cursos de dois dias, mas com linguagem mais técnica e conteúdo mais aprofundado. Para participar, os produtores precisam ter participado da primeira etapa e ter elevado a produtividade em 50% no mínimo.
Os cursos envolvem temas como alimentação, pastagens melhoradas, piquete ou pastoreio Voisin, manejo, sanidade e criação de terneira. Este último levou à criação do Centro de Criação de Terneiras, recém-inaugurado. "Um dos grandes argumentos dos produtores para a baixa produtividade era a dificuldade de produzir matrizes. Com o Centro, eles colocam as novilhas após nascerem, o Centro cria e devolve a vaca coberta, formada, oferecendo aos animais tecnologia, alimentação e assistência veterinária", explicou.
O Centro é administrado por uma associação, segundo o prefeito. A Prefeitura paga o valor correspondente ao arrendamento da terra, auxilia no pagamento de despesas de pessoal e disponibiliza os veterinários. Os produtores arcam com um valor equivalente a 30 litros por mês por animal alojado, sendo que esses recursos são usados para o restante das despesas, como energia elétrica e taxas de saneamento.
O maior benefício, segundo Heck, não é tanto em termos de custo, mas da tecnologia e do tempo. No Centro de Criação, há visitas diárias dos veterinários às novilhas. "Isso é impossível nas propriedades, que são pequenas e sofrem com a falta de recursos humanos para se dedicarem com tanto zelo aos cuidados que as terneiras exigem. É um grande lucro, pois 30 litros são o que o animal come. Em troca, o produtor recebe a novilha sadia, vacinada, inseminada e testada para brucelose, tuberculose e outras doenças", esclareceu, comentando que é uma forma de tornar o município menos dependente de animais de outras localidades, pois os produtores podem colocá-las no Centro e vender depois.
Outro fruto do Programa foi a construção, pelo município, de uma indústria de laticínios, na qual foi investido R$ 1 milhão. A Crissiumal Industrial de Produtos Lácteos nasceu da idéia de evitar que o produto saia de Crissiumal in natura e seja industrializado em outros locais, em função de geração de impostos e emprego, e deverá iniciar suas operações em março de 2004, com capacidade para 100 mil litros diários. A instalação do laticínio está sob responsabilidade da Laticínios PIC NIC, sediada em Tapejara, PR, informou Leomar Martinelli, gerente de Área Primária da empresa.
Valter Heck destacou que, visando à competitividade, a indústria comprará parte do produto no município e que deverá ser elaborada uma legislação para devolução do imposto da industrialização aos municípios vizinhos que vierem a fornecer leite.
Fonte: Mirna Tonus, da Equipe MilkPoint
Programa em Crissiumal, RS, objetiva incrementar a produtividade da pecuária leiteira
Publicado por: MilkPoint
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