


Hoje é o último dia do protesto dos produtores de leite na Argentina e a solução decidida foi a de doar o leite ao invés de jogá-lo fora, a fim de impedir que a matéria-prima chegasse até as indústrias para ser processada. Sendo assim, uma fila de famílias querendo receber leite crescia ontem na entrada da fábrica da La Sereníssima.
"Ao invés de dar o leite à Mastellone, decidimos dá-lo aos que necessitam", disse o presidente da Sociedade Rural local, Juan Viñas Urquiza. A doação foi bem recebida por cerca de 150 pessoas que cercaram a entrada da fábrica. Ontem, cerca de 1500 litros de leite foram distribuídos. O prejuízo para uma propriedade que produz 2 mil litros por dia (a média da região) foi de 320 a 340 pesos (US$ 159,6/169,58).
Decisão limite
Com evidente desgosto, os produtores de leite decidiram reter a produção para forçar a negociação com as empresas lácteas que, em poucas horas, ficaram inativas. A intransigência das indústrias acabou opondo resistência. "Depois de tantas horas vamos voltar para nossas propriedades com os braços cruzados. Acreditamos que é possível encontrarmos uma solução regional", disse Urquiza.
O dirigente liderou uma negociação com três fábricas líderes instaladas em Trenque Lauquen, com a intenção de obter o compromisso de um preço próximo de 20 centavos (US$ 0,095) o litro, além da promessa de um adiantamento do pagamento. "Primeiro temos que resolver a que preço pagarão a produção deste mês e depois, estabelecer mecanismos de fixação de preços. Não podemos estar brigando a cada 15 dias."
Segundo ele, os produtores de maior capacidade produtiva têm maior margem para escolher soluções, mas os pequenos produtores não. "Precisamos que o preço se recomponha hoje, não dentro de três meses. É evidente que este ano as indústrias vão competir pelo leite e que, desde já, precisam cuidar de seus fornecedores. Em junho vão querer aproveitar negócios interessantes e não haverá leite."
Uquiza disse que, a partir da desvalorização, produziu-se uma ruptura da cadeia de pagamentos. "Nós não temos financiamento comercial para adquirir insumos, temos que pagar à vista. O problema é que não temos dinheiro para bancar os custos básicos de implantação de pastagens para iniciar a estação 2002/3".
Diálogo frustrado
O titular das Confederações de Associações Rurais de Buenos Aires e La Pampa (Carbap), Dardo Chiesa, disse ontem que poderiam ser estabelecidos preços para cada bacia leiteira, mas a indústria não vem demonstrando vontade de negociar. Ele disse que se o protesto acabar hoje sem resultados, serão organizadas outras formas de protesto, como a entrega do leite quente (para saturar a capacidade das fábricas de resfriá-lo), ou a entrega de panfletos nos supermercados.
O bloqueio da principal fábrica da La Sereníssima, em General Rodríguez, estendeu-se da madrugada de ontem até o meio-dia, e foi a maior demonstração de força desde o início do protesto. Porém, ontem começaram a aparecer os primeiros sinais da pressão exercida sobre os dirigentes do setor. Em algumas cidades, foi impossível manter o bloqueio devido ao pequeno número de produtores e ao cansaço que se acentuava com o passar das horas.
No final do dia de ontem, os produtores reafirmaram que somente desistirão quando obtiverem uma mudança favorável no preço do leite. Isso significa que se manterão "em luta" até a noite de hoje e que depois vão avaliar, juntamente com as demais bacias leiteiras do país, como poderão levar suas reivindicações adiante.
Reunião com o presidente
O presidente argentino, Eduardo Duhalde, recebeu ontem, durante quase duas horas, os representantes da Carbap para tomar conhecimento do problema dos produtores de leite. O presidente, em suas habituais declarações na Rádio Nacional, considerou que o valor que está sendo pago pelo litro de leite aos produtores é "notavelmente injusto" e se manifestou em favor de que "tenham um pouco mais de renda".
O vice-presidente da Carbap, Roberto Coquet, reconheceu que a reunião com Duhalde teve um caráter mais informativo, sem soluções efetivas. "Falamos a ele sobre uma lei italiana do setor que determina a participação dos produtores de leite sobre os preços dos produtos no varejo", disse Coquet, e explicou que o Presidente deu indicações ao ministro da Produção da Argentina, José Ignacio de Mendiguren, que também participou da reunião, para que analisasse o projeto. Porém, o Governo informou que não aplicará um preço obrigatório de 20 centavos o litro - que tinha sido aprovado semana passada - , mas sim, que haverá apenas um valor de referência para o mercado.
Os dirigentes da Carbap explicaram também que a intenção do protesto não era buscar o desabastecimento e classificaram de "roubo" o aumento de 20% registrado nos últimos dias nos valores dos produtos lácteos no varejo. "No caso dos queijos, que representam 40% do mercado total, os supermercados aumentaram em 100% o preço do produto".
Leite cortado
Em Santa Fé, as principais usinas locais das empresas SanCor e Milkaut não puderam entregar mercadoria aos comerciantes. Nas gôndolas dos supermercados, houve uma queda nos produtos das principais marcas, ficando somente aquelas de menor participação no mercado, além dos produtos de marca própria das grandes cadeias.
O secretário da Agricultura de Santa Fé, Oscar Alloatti, advertiu que se a atividade leiteira diminuir, serão perdidos 25 mil postos de trabalho na Província e cerca de 75 mil em todo o país. Nesta Província, onde localiza-se a bacia leiteira mais importante da América Latina, cerca de 1800 produtores bloquearam 60 locais de produção e comercialização de produtos lácteos.
Fonte: La Nación (por Analía A. Testa e Franco Varise), adaptado por Equipe MilkPoint