Durante uma visita à fazenda, o diretor da propriedade, Sérgio Soriano, destacou uma escolha que, segundo ele, faz diferença para a sobrevivência e a saúde dos animais: a cama utilizada no nascimento. “A melhor cama para um bezerro nascer em uma fazenda fechada como a Colorado é a de feno. Não é maravalha, não é areia, não é casca de arroz, não é palha de café”, afirmou. Segundo Soriano, embora a utilização do feno tenha um alto custo, a escolha oferece melhores condições ao bezerro em um dos momentos mais críticos de sua vida. “Sem dúvida, é para o bezerro a melhor oportunidade que ele tem para sobreviver”, destacou.
A preocupação também se estende à vaca. Para Soriano, a estrutura do local de parto faz parte da prevenção de infecções e, consequentemente, da redução da necessidade de tratamentos. “Quando falamos em biosseguridade, também precisamos pensar em estrutura e fazer com que as coisas aconteçam. Não é simplesmente não utilizar antibiótico: precisamos entender o que é melhor para quem está nascendo, o que é melhor para quem está parindo, para reduzirmos as doenças e gastar menos com antibióticos”, explicou.
Aquecimento e cuidado nas primeiras horas
Após o parto, a vaca permanece alguns minutos com o bezerro. Em seguida, o recém-nascido é separado da mãe e levado para uma baia com aquecimento. A fazenda utiliza talco sobre os pelos das bezerras para ajudar a eriçá-los e favorecer a manutenção do calor corporal, medida que também está relacionada ao bem-estar.
O cuidado é importante porque, quando sente frio e começa a tremer, o bezerro consome suas reservas energéticas. Para a Colorado, portanto, evitar que o animal passe frio é parte do manejo do recém-nascido.
Colostro é "rei"
Os bezerros nascem sem receber imunidade materna significativa pela placenta e, por isso, dependem da ingestão adequada de colostro nas primeiras horas de vida para adquirir proteção imunológica. Na Colorado, a preocupação se traduz em estrutura e planejamento. Soriano mostrou a área de armazenamento do colostro, com identificação das datas, registros de Brix e equipamento para descongelamento.
A ideia é manter uma reserva disponível para que a fazenda não dependa do colostro produzido no momento exato de cada parto. “Cada fazenda tem que ter o máximo de colostro possível”, afirmou.
Prevenção antes do antibiótico
O cuidado com os bezerros faz parte de uma estratégia mais ampla da Colorado para reduzir doenças e o uso de antimicrobianos. A mudança começou após Soriano participar, em 2017, de uma palestra sobre secagem seletiva na Itália. A adoção foi gradual e, em 2024, 64% das vacas já eram secas somente com selante de teto, enquanto 36% ainda recebiam antibióticos. Em 2026, a participação sem antimicrobianos chegou a 80%.
A evolução ocorreu simultaneamente ao crescimento do rebanho em lactação, que passou de 1.700 para 2.400 vacas entre 2016 e 2024. No mesmo período, os tratamentos para mastite apresentaram queda. “A seleção baseada em critérios técnicos substitui o tratamento universal. A execução e a disciplina vêm norteando a nossa rotina, conectando a saúde dos animais, do ambiente e das pessoas para entregar produtos com maior valor agregado ao consumidor”, afirmou Soriano.
As práticas apresentadas na fazenda fizeram parte de um encontro promovido pela Boehringer Ingelheim em 16 de setembro, na própria Fazenda Colorado, para discutir biosseguridade, resistência antimicrobiana (AMR) e uso racional de antibióticos na produção animal.
Na propriedade, a lógica é clara: criar condições para que vacas e bezerros adoeçam menos e, assim, reduzir a necessidade de tratamentos. E, para o bezerro, essa estratégia começa no nascimento — inclusive na cama onde ele coloca os primeiros cascos.