Pecuária de leite dá prejuízo a quem investe na tecnologia

Publicado por: MilkPoint

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Os baixos preços estão desestimulando os produtores de leite no Paraná, principalmente os mais tecnificados, que têm custo de produção maior e não conseguem equilibrar as contas. É o que informa reportagem de José Marinho, publicada hoje na Gazeta Mercantil.

"Estamos lutando com muita dificuldade e muitos já acumulam dívidas", lamenta José Theodoro Lopes de Oliveira, dono da Fazenda Stela Pedras, em Castro, na região dos Campos Gerais, que acumula prejuízo mensal entre R$ 5 mil e R$ 6 mil. "Conheço vários outros pecuaristas nesta mesma situação", reforça.

Há 32 anos na atividade, Oliveira diz que não dá para abandonar a atividade, porque no decorrer do tempo realizou investimentos pesados na propriedade de 270 hectares, onde mantém um rebanho de 500 cabeças. São todos animais holandeses P.O. (puro de origem), que exigem um tratamento especializado, ração balanceada e manejo específico. As 200 fêmeas em lactação produzem em média 5,3 mil litros de leite por dia. "O que recebemos não cobre as despesas. Estamos pagando para trabalhar", observa.

Somente para montar a sala de ordenha, há quatro anos, ele importou um equipamento da Suécia, pagando US$ 240 mil. "O que vou fazer com isso? Quem vai querer comprar?", questiona, justificando a necessidade de, apesar da situação, acreditar em dias melhores. No entendimento do pecuarista, a instabilidade no segmento não vem de hoje, principalmente devido à ausência de uma política eficiente por parte do governo e da competitividade com produtos subsidiados em até 60% em outros países que são trazidos para o Brasil. "O preço de comercialização deles, muitas vezes, acaba sendo inferior ao nosso custo de produção", comenta Oliveira.

Quem pode, segundo ele, está partindo para outros setores. Conta que muitos deixaram de produzir, razão pela qual o volume de leite na região de Castro, que variava entre 500 mil e 700 mil litros por dia, caiu para cerca de 300 mil litros. "A pecuária não é como ave, que tem um ciclo curto. A vaca precisa de dois anos e meio para dar leite, por isso nosso trabalho é muito complicado", salienta, explicando que não tem outras alternativas a não ser continuar produzindo, mesmo com prejuízos.

Raul da Fonseca Guimarães, que tem rebanho de 150 cabeças de animais holandeses P.O. na Granja Rag, em Carambeí, lamenta as dificuldades e acrescenta outra causa à queda do preço. Ele lembra que as indústrias "fizeram uma manobra" e importaram, no meio do ano passado, leite em pó, conseguindo derrubar o valor pago ao produtor. Assim, os R$ 0,42 que recebia por litro, cairam para R$ 0,30, uma redução de 28,5%. "É praticamente o que gasto para produzir", compara.

A produção diária na Granja Rag, onde existem 70 vacas em lactação, varia entre 2 mil e 2,5 mil litros de leite, que são entregues ao grupo alimentício Kraft Food, em São Paulo. Guimarães está na pecuária de leite há 35 anos e também investe em tecnologia, em busca da melhoria da qualidade do produto. Executa ordenha mecanizada e utiliza resfriador para manter o produto na temperatura de 4º centígrado, recomendada para evitar a proliferação de bactérias.

Carambeí e Castro integram a maior bacia leiteira paranaense, englobada pela região de Ponta Grossa. De acordo com dados do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento (Seab), ali foram produzidos no ano passado 256,6 milhões de litros de leite, representando 12,74% da produção total no Paraná, que foi de 2,01 bilhões de litros. É nesta região onde se aplica em maior escala o sistema intensivo de criação de gado leiteiro, justamente devido à especialização dos animais. Por isto, o preço médio do litro de leite pago ao produtor, apesar de considerado aquém dos custos em certos casos, é o maior do Estado. Na semana passada, conforme o Deral, estava cotado a R$ 0,28. Na região Norte, onde predomina o sistema extensivo, o valor caia para R$ 0,20, e em Campo Mourão, no Centro-Oeste, era menor ainda: R$ 0,17.

A produção paranaense em 2000 foi 5,5% maior que os 1,9 bilhão de litros do no ano anterior. O que mais cresceu, porém, foi o número de produtores, passando de 32,4 mil para 36,6 mil (13%) entre um ano e outro. Considerando que na região especializada em pecuária leiteira houve redução, o crescimento registrado globalmente significa que mais pessoas ingressaram na atividade, com plantel misto. Segundo Athaide Rodrigues de Miranda, médico veterinário do Deral, a tendência é de que a produção continue aumentando e que o preço melhore para o produtor a partir do final deste mês, com o início da entressafra.

Na Cooperativa Central Agropecuária Sudoeste (Sudcoop), que tem unidades industriais em Marechal Cândido Rondon, no Extremo-Oeste, e Curitiba, fabricante de 35 itens da marca Frimesa, o valor já começa a subir. O diretor-executivo, Elias José Zydek, disse que ontem variava entre R$ 0,28 e R$ 0,30, acima do custo de produção quando se trata de sistema extensivo, porém, ainda, abaixo ou empatando com o custo do produto oriundo das regiões especializadas.

Zydek acha que, na verdade, talvez seja o caso de se rever este sistema produtivo de tecnologia intensiva, que eleva os custos, porque a tendência no Brasil seria acompanhar Nova Zelândia, onde foram feitas adequações genéticas para melhor conversão do pasto para litro de leite. Em função de possuirem áreas grandes, os Estados de Minas Gerais (maior produtor nacional, com produção de 6 bilhões de litros em 2000 ) e Goiás (segundo, com 2,2 bilhões), estariam sendo os Estados preferidos pelos pecuaristas na hora de ampliarem seus negócios no País, que produziu no ano passado 20 bilhões de litros, 5% acima do volume de 99, segundo o diretor da Sudcoop. O que está em jogo, no entendimento dele, é o preço do leite que chega ao consumidor. "Existe um limite de pagamento final", salienta, acrescentando que, nos últimos 30 dias, o litro do longa vida, no atacado, subiu 12%, passando de R$ 0,70 para R$ 0,82. E o pasteurizado saltou de R$ 0,60 para R$ 0,66 (10%).

Wilson Thiesen, presidente do Sindicato das Indústrias de Laticínios e Derivados de Leite no Paraná (Sindileite), considera a época de excesso de produção e a concorrência entre os Estados, aliados à importação de produtos subsidiados, responsáveis pelo quadro desalentador do pecuarista. Mas diz que as indústrias também sofreram pressões dos preços, tanto que o quilo de queijo mussarela (que consome 10 litros de leite) chegou a ser vendido a menos de R$ 3. Segundo ele, existem aproximadamente 200 indústrias no Paraná neste segmento, entre cooperativas, laticínios e usinas.

Uma das alternativas para aliviar a cadeia produtiva, enfatiza Thiesen, é a adoção de medidas preconizadas no Programa Paraná Agroindustrial, em fase de finalização. Faz parte das discussões uma readequação tributária no Paraná, para tornar o setor mais competitivo. "O leite em pó é tributado aqui a 17% e em vários outros Estados a alíquota é de 7%. E para o leite longa vida há imposto de 7% internamente e 12% em transações interestaduais. Em alguns é isento", ressalta o presidente do Sindileite. O Paraná Agroindustrial é desenvolvido pelo Sindicato e Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), e secretarias estaduais da Indústria e Comércio, Ciência e Tecnologia, Agricultura, Trabalho e Planejamento.

Além desse fatores internos, a competitividade com o mercado internacional está gerando reclamações e insatisfações em todo o País. Principalmente devido ao fato de a Argentina e o Uruguai terem sido acusados de utilizar o Mercosul para importar produtos lácteos de países europeus, geralmente o excesso subsidiado, e reexportarem para o Brasil, praticando o dumping. Paulo Roberto Bernardes, presidente da Comissão Nacional de Pecuária Leiteira, estava ontem em Brasília discutindo as medidas que seriam tomadas no sentido de penalizar os vizinhos.

Segundo Bernardes, deveria ser fechado com o Uruguai acordo semelhante ao já acertado com a Argentina, estipulando preço mínimo de US$ 1,9 mil a tonelada de leite em pó que exportar para o Brasil. Isto equivaleria a quase R$ 0,40 o litro, fora as despesas de transporte, bem acima do preço praticado no mercado brasileiro. Caso o Uruguai rejeite o acordo, continuará valendo a cobrança de taxa de 16,9% para os produtos que embarcar para o Brasil. "Parece que a situação está ficando mais favorável para o produtor nacional", avalia Guimarães.

(Por José Marinho, para Gazeta Mercantil, 14/03/01)<
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