Parmalat deve vender subsidiárias não-italianas

Publicado por: MilkPoint

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Produtores de Goiás demonstram interesse em fábrica de Santa Helena

A Parmalat, que está sendo administrada por um interventor do governo italiano, tentará manter coesos os seus ativos na Itália, mas suas subsidiárias estrangeiras deverão ser vendidas.

O ministro italiano da Agricultura, Giovanni Alemanno, reuniu-se ontem com o executivo designado para traçar o plano de reestruturação da empresa, Enrico Bondi. Segundo o ministro, a preocupação do governo é que as operações da empresa na Itália sejam mantidas em mãos de empresários locais.

Alemanno admitiu que a Eurolat, distribuidora de leite fresco da Parmalat, pode ser vendida a investidores italianos, mas ressalvou: "o que deve ser evitado é uma divisão [do grupo] que se torne alvo da aquisição de estrangeiros". E prosseguiu: "O grupo Parmalat provavelmente buscará vender suas empresas internacionais, mas não as italianas".

Oitavo maior grupo industrial da Itália, a Parmalat está presente em cerca de 30 países e emprega 36 mil pessoas. Envolvida em um escândalo contábil estimado em € 10 bilhões, a empresa entrou em concordata no final do ano passado. As operações brasileiras estão entre as principais do grupo italiano no exterior.

Interesse

As cooperativas de leite e alguns produtores isolados de Goiás estão dispostos a assumir a indústria da Parmalat localizada em Santa Helena, caso a empresa tenha interesse em vendê-la.

Na próxima semana, representantes do setor estarão reunidos na Federação da Agricultura e Pecuária (Faeg) para discutir o assunto e elaborar a proposta para ser levada à multinacional italiana.

O presidente da Faeg, Macel Caixeta, lembrou que essa é a oportunidade de as cooperativas e os produtores de leite terem indústria própria, tornando-se donos do negócio, como acontece na Nova Zelândia, França, Estados Unidos, Canadá, Argentina e Uruguai. "Essa é uma idéia que defendemos há anos. Faltava a oportunidade, que agora parece surgir".

Caixeta lembrou que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) já manifestou interesse em apoiar financeiramente os produtores de leite, até mesmo financiando a implantação de indústrias. Há ainda linhas de crédito do Fundo Constitucional do Centro-Oeste (FCO) que poderiam ser usadas.

A possibilidade de concretização do negócio ficou mais fácil, após a declaração do ministro italiano da Agricultura, Giovanni Alemanno, de que as unidades da empresa fora da Itália poderão ser vendidas.

O presidente da Centroleite, Haroldo Max de Sousa, afirmou que, se a Parmalat tiver interesse em vender sua indústria de Santa Helena, as seis cooperativas de leite ligadas à central têm interesse no negócio. "Assumir a unidade de Santa Helena é apenas uma idéia. A empresa nada manifestou sobre o assunto e ela não entrou em concordata no Brasil", acrescentou.

A Parmalat deve ainda à Cooperativa dos Produtores Rurais de Quirinópolis e Região 20 toneladas de leite em pó, equivalente a R$ 120 mil, como pagamento de dívidas referentes à entrega de leite in natura no último trimestre do ano passado. Em dezembro, a empresa repassou à cooperativa 42 toneladas de leite em pó para quitar débitos.

O presidente da cooperativa, Luiz Antônio Andrade, é um dos que apóiam a idéia de assumir a unidade da Parmalat de Santa Helena de Goiás. "Estamos dispostos a ter a nossa indústria e sair das mãos de poucas empresas que dominam o mercado".

O presidente do Sindicato Rural de Morrinhos, Lauro Sampaio, contou que é grande o entusiasmo dos pecuaristas da região sul, a maior produtora de leite do Estado, com a possibilidade de assumir a indústria da Parmalat, a exemplo do que está acontecendo no Rio de Janeiro. Ele informa que as cooperativas goianas respondem por 1,5 milhão de litros de leite/dia.

A unidade goiana da indústria italiana tem capacidade para processar 1,2 milhão de litros de leite diariamente, transformando-o em leite em pó e em leite longa vida. Em Goiás, cerca de nove mil produtores, 15% dos pecuaristas goianos, fornecem 900 mil litros de leite/dia para a unidade da Parmalat.

Desapropriação em Itaperuna

As 11 cooperativas produtoras de leite do Rio de Janeiro querem que o governo federal desaproprie a fábrica da Parmalat em Itaperuna, caso a empresa não pague até a próxima sexta-feira, os R$ 6,6 milhões que deve pelo fornecimento já realizado.

Dados da Federação de Agricultura do Estado do Rio de Janeiro (Faerj) mostram que 80% dos produtores das 11 cooperativas são de pequeno porte e recebem menos de dois salários mínimos ao mês. Embora participem com cerca de 25% da produção comprada pela fábrica da Parmalat de Itaperuna, eles correspondem a 12 mil do total de 14 mil ligados às cooperativas.

Segundo a Faerj, a produção de leite emprega, direta ou indiretamente, cerca de 42 mil pessoas na região, sendo que mais de 70% são donos das propriedades rurais em que vivem e não têm outra opção de trabalho, pois a atividade envolve, além do produtor cooperativado, dois ou três membros da família. "A situação é mais desastrosa porque a produção é exclusiva para a Parmalat. No momento, não há ninguém que possa comprar os 350 mil litros diários", disse o presidente da Faerj, Rodolfo Tavares, acrescentando que, mesmo sem receber, os produtores continuam fornecendo leite à Parmalat.

Ele disse que o governo pode intervir e desapropriar a fábrica de Itaperuna com base em uma legislação que protege os créditos dos produtores rurais, o Decreto-Lei 167, de 14 de fevereiro de 1967. "O governo italiano não teve dúvida em intervir na empresa", disse.

"No momento em que a Parmalat ficar inadimplente e ficar estabelecido um quadro de caos social, só caberá ao Estado desapropriar", acrescentou. Sua intenção é que, após a desapropriação, os pequenos produtores possam adquirir a fábrica, pagando ao governo com a produção de leite.

A Parmalat deve às cooperativas fluminenses R$ 1,6 milhão referente ao fornecimento de leite realizado na segunda quinzena de novembro e R$ 2,5 milhões que deveriam ter sido pagos a 5 de janeiro. Outros R$ 2,5 milhões vencem na quinta-feira (15).

Do total de 1,2 bilhão de litros comprados pela multinacional no Brasil em 2003, correspondente a 5% do mercado, apenas 96 milhões de litros vieram da fábrica de Itaperuna.

Pedido de falência

A empresa de produtos alimentícios Orlândia S.A., com fábricas localizadas em quatro estados, pediu ontem a falência da Parmalat Brasil S.A. O pedido foi ajuizado na 29ª Vara Cível de São Paulo, mas, caso o requerente entre em acordo com a empresa, pode ser retirado.

A Orlândia é fabricante de gordura vegetal, farelos e grãos em geral usados na produção de alimentos. Procurada, a Parmalat não se posicionou sobre o assunto.

Esse é o segundo pedido de falência da Parmalat em sua história em São Paulo. O primeiro aconteceu em maio de 2002, por atraso no pagamento de dívidas.

Fonte: Folha de S. Paulo (por Ana Paula Grabois) e O Popular/GO (por Sônia Ferreira), adaptado por Equipe MilkPoint
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