Para onde vai o rebanho leiteiro paulista

Publicado por: MilkPoint

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A pecuária de leite em São Paulo vem passando por um momento delicado, com migração de vários plantéis para regiões nas quais manter os animais produzindo é mais barato. Segundo dados da Embral Leilões Rurais, especializada em remates de gado leiteiro, cerca de 15 mil fêmeas de diversas raças dessas regiões foram levadas a leilão no ano passado, migrando para outros Estados. Deste total, 70% foram animais de pequenos e médios criadores que abandonaram a atividade. A liquidação de rebanhos, marcante no ano passado, continua com a mesma força este ano. Um dos indicadores disso é que, até agosto, não há vagas na agenda de leilões da Embral, ocupada, principalmente, pelas liquidações.

Alto custo de produção, baixos preços pagos aos produtores por litro de leite a grande concorrência oferecida por leite longa-vida são fatores apontados por especialistas para explicar a migração do gado paulista. Está, na verdade, cada vez mais caro manter o rebanho em São Paulo.

Pesquisadores afirmam que o movimento apenas segue regras de mercado baseadas na livre concorrência. As indústrias procuram instalar fábricas em regiões nas quais haja oferta da matéria-prima por um bom preço. Prova disso é o grupo Parmalat, que conta com 11 fábricas para processar e embalar leite longa-vida, sendo três no Sudeste (SP, MG e RJ); duas no Sul (RS); três no Nordeste (RN, CE e PE); duas no Centro-Oeste (MT e GO) e uma no Norte (RO). A unidade de Goiás, em Santa Helena, foi inaugurada no ano passado. O objetivo, segundo a empresa, é aumentar em quatro vezes a produção de leite em pó na região e em 30% a de leite fluido.

Para o professor da Universidade de Viçosa (UFV), Sebastião Gomes Teixeira, o pior ainda não passou. "São Paulo não chegou ao fundo do poço", garante. Segundo ele, a cada dia que passa, torna-se mais difícil para médios e pequenos produtores manterem-se no setor. Conforme Gomes, a atividade leiteira exige produção em grande escala para dar lucro. "Só os grandes têm conseguido manter-se. Eles produzem milhares de litros por dia, ganhando pouco em cada litro, e assim conseguem tocar a atividade relativamente bem."

Mesmo com tantas vendas em São Paulo, a produção leiteira vem crescendo modestamente, segundo estimativas do Instituto de Economia Agrícola (IEA).
De 1999 para 2000 o volume subiu de 1.832.203 litros, para 1.891.101, ou 3,2% a mais, apesar do êxodo de animais, para um crescimento médio nacional de 4%.

Para o Secretário da Agricultura e Abastecimento de São Paulo, João Carlos de Souza Meirelles, não há motivo para pânico. Ele afirma que o governo está trabalhando em projetos, como o Viva Leite, que visam incentivar produtores paulistas, com a compra 350 mil litros/dia de leite fluido. "É uma maneira de prestigiar o nosso produtor e oferecer à população um produto de alta qualidade", diz. "Mas falta, mesmo assim, uma política mais clara de agronegócios por parte do governo federal, que possibilite maior proteção à agricultura em geral", conclui.

Postos de trabalho são perdidos

O pecuarista e ex-secretário de Agricultura do Estado de São Paulo, Nelson Nicolau Mancini, diz que há muitos anos vem alertando para o problema. "Quando aconteceu a conversão da Unidade Real de Valor (URV) para o real, houve uma pequena perda no preço do leite", diz. Segundo seus cálculos, aplicando as devidas correções, o preço do litro do leite em São Paulo deveria estar cotado em R$ 0,50.

Mancini alerta ainda que o problema causa grande impacto sobre os postos de trabalho no campo. "A cada fazenda produtora de leite desativada pode-se calcular, pelo menos, dez trabalhadores desempregados", diz.

Um dos temores do ex-secretário é o de que o problema se alastre por outros Estados. "Não se pode achar que a acomodação seja a melhor saída", diz. Para ele, pecuaristas de todo o País devem atentar para a questão. "Hoje são os produtores de São Paulo que estão atravessando problemas, amanhã, não se sabe", questiona.

Partilhando da opinião do ex-secretário está o ex-produtor de leite A, da região de Brodowski (SP), Martins Vasconcelos de Oliveira. Seu rebanho, de 450 vacas holandesas, foi vendido há pouco mais de um mês, e seus 50 funcionários foram demitidos. Seus 356 hectares de terra foram arrendados para o cultivo da cana-de-açúcar. "Não sei o que eles vão fazer da vida, mas com o preço do leite tornou-se inviável continuar."

Vasconcelos conta que sua fazenda tinha uma grande estrutura de produção, contando com usina de leite e distribuição. Por dia o fazendeiro estava produzindo 6.200 litros. Num dos momentos mais críticos ele conta que chegou a fazer até doação de leite para escolas da região.

Parte do gado vendido por Vasconcelos foi para as mãos do grupo Jandaia, em Fortaleza (CE), especializado na fabricação de sucos variados. Segundo um dos sócios, Pedro José Philomeno, a empresa pretende estender o ramo de atividades. Para que os objetivos do grupo Jandaia sejam alcançados, a empresa conta com estrutura para 3 mil animais confinados. O rebanho antigo, girolando, foi vendido. No seu lugar chegaram vacas holandesas de alto potencial genético. No momento, a empresa está com cerca de 400 cabeças e produção de 30 mil litros/dia.

A pesquisadora do IEA Eloísa Bertoleto diz que é necessário um contraponto ao sistema imposto hoje pelas grandes indústrias. "Cabe aos produtores unirem-se e discutir maneiras de se organizar", diz. Uma das possíveis saídas, segundo ela, é buscar parcerias na iniciativa privada para capacitar os produtores. "Alguns trabalhos feitos com o auxílio do Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae) têm dado bons resultados em outros Estados", comenta.

A utilização de linhas de créditos especiais, como o Pronaf e o Feap, deve ser estimulada, na opinião da pesquisadora. Ela alerta, porém, que só o dinheiro não resolve. "É muito importante que os produtores estejam aptos a trabalhar antes de sair gastando o dinheiro", diz.

Um dos problemas que Eloísa destaca é quanto à municipalização de alguns escritórios da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati).
"Perdemos muitos técnicos e hoje está difícil fazer um diagnóstico preciso de como está a pecuária de leite em São Paulo", afirma. E conclui: "É importante que estudos sejam feitos para que se possa chegar a alguma conclusão mais definitiva."

Para o presidente da Associação Brasileira de Produtores de Leite (Leite Brasil), Jorge Rubez, um dos grandes problemas é a falta de união do setor. "As cooperativas não perceberam a tempo que o ponto de venda mudou e hoje a grande distribuição é feita pelas cadeias de supermercados." O futuro, segundo Rubez, está na oferta de um produto de qualidade superior.

"São Paulo é o maior mercado consumidor de leite da América Latina, e há uma fatia de mercado que pode pagar mais por um produto melhor." As grandes campanhas publicitárias, porém, ainda são vistas com ressalvas. "A população acredita que o leite longa-vida é melhor e até agora ninguém nem sequer tentou dizer o contrário."

Mesmo produzindo qualidade, porém, manter-se na atividade é difícil. Prova disso foi a desistência da Fazenda Serramar, de Caraguatatuba (SP), que em outubro do ano passado realizou a maior liqüidação de plantel leiteiro da história, de uma só vez, vendendo 3.500 vacas puras holandesas. O vice-presidente da empresa, Thadeu Penido, anunciava que o preço pago pelo leite, na época, não compensava a grande estrutura empregada. Depois da venda do gado leiteiro, a empresa passou para o gado de corte e cria 12 mil cabeças de nelore. Para Penido, "o mercado de carne tem-se mostrado mais atrativo do que o de leite".

Outro exemplo é a recente venda em leilão, dia 8, de parte do rebanho leiteiro pertencente à família do ex-ministro e ex-secretário estadual de Agricultura Antonio Cabrera. No ramo há 40 anos, na região de São José do Rio Preto, Cabrera acredita que o gado leiteiro em São Paulo tende a acabar.

"A migração é clara e ao que tudo indica parece irreversível", declara. A venda do rebanho foi uma difícil decisão. "Atualmente o setor está até apresentando possibilidades de melhora, mas para nós as perdas ao longo dos últimos anos foram muito grandes", diz. A produção de sua fazenda estava em torno de 19 mil litros/dia. "Tínhamos de escolher: ou começávamos a liqüidar o rebanho agora ou liqüidaríamos a fazenda daqui a algum tempo", lamenta.

(Por Ibiapaba Netto, para Suplemento Agrícola, O Estado de São Paulo, 11/04/01)
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