As manifestações contra a Portaria 56 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento continuam no Sul do País. Ontem alguns laticínios entraram em acordo com os produtores que invadiram as fábricas no início da semana. As indústrias que ainda enfrentam problemas devem encontrar uma solução hoje.
O prefeito de Carazinho, Rio Grande do Sul, é contra a invasão da Parmalat e decretou estado de emergência no município. A CNA e a Farsul repudiaram o movimento.
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Trezentos e cinqüenta pequenos agricultores que estavam acampados no Parque da Harmonia, em Porto Alegre, invadiram uma indústria de leite nesta quarta-feira pela manhã na capital gaúcha. Armados com foice e pedaços de pau, os agricultores invadiram a fábrica da Parmalat, em Porto Alegre, por volta das 6h30. Não houve incidentes. A polícia acompanhou tudo sem oferecer reação.
Dentro da fábrica, os invasores do MST e do Movimento dos Pequenos Agricultores retiraram iogurtes da linha de produção para comer. Em todo o Rio Grande do Sul, três milhões de litros de leite deixaram de ser entregues pela manhã. Na Parmalat, nem os caminhões de abastecimento nem os funcionários puderam entrar na fábrica para trabalhar. Foram dispensados 350 funcionários.
Também ontem pela manhã, produtores de leite aceitaram a proposta da indústria de laticínios Elegê. O acordo foi fechado em reunião entre representantes dos pequenos agricultores e da empresa, realizada na Secretaria da Agricultura. Em Santa Rosa, os produtores que invadiram o prédio da empresa deverão desocupar o local na manhã de hoje. Em Teutônia, depois de 35 horas, os manifestantes deixaram pacificamente o pátio da fábrica na tarde de ontem. Em São Lourenço do Sul, a Elegê foi desocupada por volta das 19h30min.
A empresa apresentou proposta de reajuste de dois centavos no preço do produto, o que eleva de R$ 0,23 para R$ 0,25 o preço mínimo do leite. O MST e o Movimento do Pequenos Agricultores avaliam se vão deslocar os produtores que estavam nas unidades da Elegê para Carazinho ou Porto Alegre. Nenhum representante da Parmalat ou do Ministério da Agricultura compacereu à reunião onde a Elegê e os produtores entraram em acordo. A Parmalat suspendeu o pedido de reintegração de posse, obtido na terça-feira, até hoje, às 10h, quando ocorre reunião na Secretaria da Agricultura, em Porto Alegre, com dirigentes do movimento. A expectativa é de que, como ocorreu com a Elegê, ela também conceda reajuste no preço do leite.
No prédio da Delegacia do Ministério da Agricultura em Porto Alegre, onde cerca de 600 produtores permanecem acampados do lado de fora, a desocupação está condicionada, segundo os manifestantes, à abertura de negociações em Brasília para a derrubada da portaria do governo federal que exige a instalação de tanques de resfriamento de leite nas pequenas propriedades. Acionada por advogados da União, a Justiça concedeu 72 horas para que os invasores deixem o local.
O delegado do ministério, Flávio Vaz Netto, disse que o problema pode resultar em atraso no repasse de recursos do Programa de Desenvolvimento Agropecuário (Prodesa) às prefeituras gaúchas. O presidente da Federação das Indústrias (Fiergs), Renan Proença, solicitou ao governo do Estado garantias para que as empresas mantivessem suas atividades, impedidas pelas série de invasões.
Protesto mantido
Um grupo de produtores de leite de Santa Catarina mantém vigilância em frente à unidade da Tirol em Chapecó, desde o início da manhã de terça-feira. Eles reivindicam uma audiência com representantes do governo do Estado para pedir apoio ao setor e uma audiência com a direção do Laticínios Tirol.
Segundo um dos coordenadores do Movimento dos Pequenos Agricultores do Estado, Charles Reginatto, a reivindicação é que a empresa se posicione contra a portaria 56 do Ministério da Agricultura, que exige novos padrões de qualidade. Os produtores querem também um reajuste de preço que remunere os produtores com 38% do valor pago pelos consumidores. Como atualmente o preço do leite em supermercados é de cerca de R$ 1, os produtores aumentariam os ganhos de R$ 0,19 a R$ 0,29 para R$ 0,38. O acréscimo seria de até 100%, em alguns casos.
O Sindicato das Indústrias de Leite de Santa Catarina deve se reunir hoje, em Lages, para discutir o assunto. O gerente industrial da Tirol em Chapecó, Auri Meisterlin, disse que ontem a empresa funcionou normalmente. O acordo permite que os manifestantes fiquem próximos à empresa, mas não poderão impedir a passagem dos caminhões de leite.
Um dos líderes do movimento dos produtores, Cledecir Zuchi, disse que a mobilização vai continuar enquanto não forem atendidas as reivindicações.
Prefeito decreta emergência
Mais de seis mil alunos de Carazinho (SC) ficaram sem aula ontem. Nas repartições municipais, o ponto foi facultativo. O motivo da parada foi um decreto assinado pelo prefeito Iron Albuquerque (PSDB), que instituiu situação de emergência em protesto contra a invasão da Parmalat por pequenos produtores ligados à Via Campesina, na terça-feira.
O prefeito alegou "inércia dos órgãos da segurança pública estadual por descumprirem ordem judicial" e a prefeitura espalhou faixas pela cidade protestando contra a atitude dos agricultores. "É a maior empresa que temos, responsável por 22% da arrecadação de ICMS do município. Se a Brigada não fizer nada, vou invadir o gabinete do governador Olívio Dutra. Não vou respeitar liminares, já que os órgãos públicos não respeitam a Justiça", ameaçou.
Um dos dirigentes do Movimento dos Pequenos Produtores (MPA), Flávio Vivian, afirmou que as negociações irão continuar com a condição de o prefeito não intervir mais no processo. "O prefeito não sabe quanto custa produzir um litro de leite e não ser valorizado pelo que se faz", reclamou o dirigente.
O tenente-coronel Jorge Miguel Gonçalves Barcelos, responsável pelo Comando Regional de Polícia Ostensiva da Região da Produção, ressaltou que a Brigada Militar jamais se esquivou de cumprir as obrigações determinadas pela Justiça.
Repúdio
Produtor de leite em Minas Gerais, o presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), Antônio Ernesto de Salvo, condenou, durante sua passagem pelo Rio Grande do Sul, as invasões às indústrias leiteiras promovidas no Estado. Ele lembrou que todos os produtores buscam preços mais justos, mas essa reivindicação não autoriza nenhum tipo de atentado à propriedade privada.
O presidente da Comissão do Leite da Farsul, Jorge Rodrigues, concorda com essa posição e ainda afirma que as invasões não ajudam à pecuária leiteira. Pelo contrário, "o produtor profissional da atividade pode ser prejudicado por essas invasões", reclama Rodrigues, enquanto admite que a Federação também busca alterações na política leiteira.
Dentre os principais pontos defendidos pelo dirigente está a necessidade da criação de um programa de qualidade oficial que inclua todos os produtores e que regulamente a produção, trazendo a possibilidade de abertura de mercados para exportação do leite brasileiro.
Fonte: Diário Catarinense (por Darci Debona), Zero Hora/ RS e Clic RBS/Agrol, adaptado por Equipe MilkPoint
Manifestações continuam no Sul do Brasil
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