Opiniões divergem quanto aos agentes responsáveis pela redução dos preços do leite; em alguns estados, reflexos têm sido menos intensos
A redução dos preços tem preocupado os produtores e as lideranças do setor lácteo desde o final da última entressafra. Em dezembro, um evento conturbaria ainda mais o mercado de leite: a crise da Parmalat. Em que medida, no entanto, isso pode interferir nos preços do leite no Brasil?
Maurício Palma Nogueira, da Scot Consultoria, disse que, antes de a crise ser concretizada, no mercado spot em 2003, o preço caiu de R$ 0,42 para R$ 0,35 e até para R$ 0,25. Em sua análise, pode ser que a situação piore, pois os produtores temem vender para a Parmalat. Segundo ele, o spot derruba o mercado, à medida as cooperativas, por não terem como pagar, abaixam os preços. "Um aumento estava previsto para fevereiro, pois existia uma ótima expectativa com relação a 2004. Agora, a previsão é de queda", comentou, destacando que, nos estados de onde a empresa compra leite, o impacto é maior. "O reflexo é geral", acrescentou.
Para Nogueira, é difícil fazer previsões neste momento, pois "tudo está acontecendo agora". Provavelmente nesta semana o mercado poderá ter uma idéia melhor de preço e comportamento, mas ele reforçou que, ao que parece, "2004 não será fácil".
Na opinião de Antônio Julião, diretor-administrativo da Colaso (Cooperativa de Laticínios de Sorocaba), no interior de São Paulo, apesar de esta não ter negócios com a Parmalat, no setor lácteos, em geral, os preços têm demorado a subir, sendo que já deveriam ter aumentado em torno de 10% - em Sorocaba, estão entre R$ 0,40 e R$ 0,48 -.
"Os preços não sobem por causa da crise, pois os produtores querem parar de fornecer à empresa e oferecem o leite para outras empresas. A crise tem efeito no leite e não no produto para consumo", disse, acrescentando que o mercado já não estava bom, registrando queda de consumo, e o efeito da Parmalat só ajudou a piorar a situação.
Julião acredita que, dentro de 90 dias, os preços já estarão regularizados, devido ao início da entressafra, reduzindo o efeito da crise. No entanto, admitiu que há uma incógnita quanto à crise: "Se acertarem todas as contas, estaremos em situação melhor".
De acordo com ele, o que a Parmalat precisa não é ter dinheiro, mas credibilidade. "É o mais importante, e não sei se a empresa conseguirá recuperá-la. Caso recupere, creio que terá condições de sair dessa. É uma empresa grande, com mercado interessante, nome interessante, tem condições", animou, reforçando que o setor tem de tomar cuidado para não piorar a situação, pois, caso o faça, "respingará" no produtor.
Paraná
Conforme Arnaldo Bandeira, do Pool de Leite ABC, em Castro, PR, o qual não fornece diretamente à Parmalat, mas a sua controlada Batávia, o Pool continua a fornecer os volumes programados e tem recebido corretamente. "Está tudo bem até agora", disse, admitindo que o episódio afeta o mercado de alguma forma, "pois serve de desculpa a algumas empresas de laticínios e ao varejo, para fazer preço, o que é absolutamente indevido à medida que o produto e o consumo continuam o mesmo, não justificando a especulação". Em dezembro, o Pool pagou em torno de R$ 0,48 o litro.
A tendência derivada da crise, a seu ver, é um desequilíbrio e o alongamento do período de instabilidade que já era verificado no mercado, provavelmente, em função de demanda baixa. "O País deve crescer e o consumo também, as importações foram menores, ou seja, o quadro é de otimismo, mas não de euforia. Os preços tendem, rapidamente, a voltar a subir, pois não há oferta tão grande de leite", avaliou.
De acordo com Bandeira, a expectativa era que, em janeiro, já se estabilizariam, o que não tem acontecido devido ao episódio da Parmalat. Entretanto, em sua análise, a partir da segunda quinzena de janeiro e começo de fevereiro a tendência é a normalização dos preços. Bandeira acredita que, cessada a especulação, os preços se formarão com base no que chamou de "concreto" no mercado: oferta e demanda.
Rio Grande do Sul
"Por enquanto, não houve nenhuma influência dessa crise, os preços estão normais. Identificamos que os produtos têm sido consumidos com normalidade, inclusive os da Parmalat, e que os produtores recebem normalmente. Os recolhimentos também não tiveram alteração", testemunhou Jorge Rodrigues, presidente da Comissão de Leite da Farsul (Federação de Agricultura do Rio Grande do Sul). Hoje, o preço médio pago pelo leite no Estado é R$ 0,46.
Segundo ele, não há reflexos no momento, mas preocupação com o futuro: "Cada momento de vencimento gera ansiedade", completou.
Mato Grosso do Sul
No Mato Grosso do Sul, de acordo com a assessoria de imprensa da Famasul (Federação de Agricultura do Mato Grosso do Sul), a crise ainda não teve reflexos significativos, mas a Comissão da Pecuária de Leite da entidade está preocupada. "Segundo o presidente da Comissão, Dário Alves de Souza, a crise poderá refletir daqui a dois ou três anos se o produtor começar a cruzar gado leiteiro com Nelore ou abatendo as vacas leiteiras, fazendo assim com que a produção de leite fique escassa", revelou notícia divulgada pela assessoria.
De acordo com essa mesma fonte, conforme declaração de Ademar da Silva Júnior, diretor-secretário da Famasul, "dos 28 mil produtores do Estado, classificados em pequenos e médios produtores, uma pequena parcela, que chega a ser insignificante, é fornecedora da Parmalat. Trata-se de uma categoria muito sacrificada", afirmou ele à assessoria, acrescentando que "esses produtores não teriam condições de investir em pecuária de corte", diante da alternativa de transição para esta atividade.
"Caso isso ocorra, o setor terá que passar por uma reorganização, um entendimento entre todos os segmentos da cadeia, desde a produção, carregamento até a distribuição. Outra saída seria a formação de cooperativas e a produção de queijos e outros derivados, que poderia redirecionar o produtor e sua produção", continuou o comunicado da Famasul à imprensa, segundo o qual o Estado exporta aproximadamente 60% de sua produção, principalmente para Paraná e São Paulo, é o nono produtor de leite do País e, com base nas informações do presidente da Comissão de Pecuária de Leite, tem vendido leite abaixo do preço de custo, cerca de R$ 0,22, com custos variando entre R$ 0,28 e R$ 0,30.
Sousa declarou à assessoria que "o norte do Estado é o mais prejudicado, por tratar-se de regiões mais distantes das divisas com Paraná e São Paulo".
Fonte: Mirna Tonus, da Equipe MilkPoint
Lideranças do setor avaliam impacto da crise da Parmalat nos preços do leite
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