O leite pasteurizado praticamente desapareceu das gôndolas dos supermercados nordestinos, derrotado pela invasão do longa vida. Em Pernambuco, por exemplo, o consumo deste tipo de produto apresentou retração de 30,7% nos últimos cinco anos, caindo de 130 mil para 40 mil litros por dia. Criado na década de 90, o processo longa vida se consolidou como o maior avanço na área alimentícia do último século, desbancando um hábito que perdurou por 50 anos.
Com a mudança de cenário, os produtores pernambucanos de leite pasteurizado restringiram seus mercados a padarias, hotéis e supermercados de pequeno porte, reduzindo as margens de lucro. "Os pecuaristas não têm condições de bancar os custos com embalagem para concorrer com o longa vida", reclama o presidente do Sindicato dos Produtores de Leite de Pernambuco (Sindleite), Paulo Correia, dizendo que as grandes redes de supermercados fazem restrições à embalagem plástica batizada de "barriga mole". Segundo ele, enquanto o preço da caixa oscila entre R$ 0,25 e R$ 0,28 (a unidade), o saquinho custa R$ 0,05.
Para se ter uma idéia do crescimento do mercado de longa vida, o leite representa 79% do mix da sueca Tetra Pak no Brasil, que em 2001 produziu 6,8 bilhões de embalagens. No mercado mundial, o produto representa apenas 33% do mix.
O coordenador do Programa do Leite de Pernambuco, Cosmo Joaquim da Silva, admite que a embalagem cartonada garante uma logística imbatível, diminuindo o poder de competitividade dos produtores locais, "enquanto a validade do pasteurizado é de 72 horas, o longa vida garante seis meses de durabilidade", compara.
Por outro lado, os pecuaristas discutem a qualidade do tipo longa vida, que chamam de leite morto. "Microbiologicamente é um leite ruim porque é pasteurizado a cerca de 140º, enquanto no tipo C fica em 65º", defende o coordenador.
De acordo com Silva, Pernambuco importa uma média de cinco milhões de litros de leite/mês de estados como Goiás, Minas Gerais e São Paulo (Interior). Outro gargalo apontado pelos criadores pernambucanos é o preço praticado pela concorrência. "Existe uma matemática impossível de ser solucionada na cadeia do leite longa vida, que chega às prateleiras custando em média R$ 1,00. Como o produto pode chegar a esse valor com custos de embalagem, impostos, frete e margem dos supermercados?", questiona o presidente do Sindleite, alertando para a possibilidade de concorrência desleal.
"Suspeito que são produtos importados de países que subsidiam sua produção (como a Argentina) ou leite de má qualidade de fronteiras agrícolas de Goiás e do Pará", argumenta. Paulo Correia também levanta a hipótese de se tratar de leite em pó diluído e maquiado de longa vida.
O diretor-presidente da indústria Bom Leite, Stênio Galvão, também compactua da mesma opinião. "Existem supermercados comprando esse leite por R$ 0,55. Como os produtores conseguem tal façanha, se têm que pagar pelo menos 21% de ICMS, Pis e Cofins?", desconfia.
Na opinião do pecuarista, o crescimento do longa vida tem sido mais acentuado no Nordeste. "Em São Paulo e no Rio de Janeiro, o consumo do pasteurizado tem voltado a uma escalada de crescimento", observa.
Representação
A solução, segundo o diretor-presidente da Bom Leite, é desovar a produção em pequenas queijarias e para o Programa do Leite, que adquire 40 mil litros/dia de 17 laticínios pernambucanos. Galvão lembra que o Programa do Leite paga R$ 0,40 pelo litro. Atualmente, a produção de Pernambuco é de 600 mil litros/dia.
O presidente da Associação Brasileira de Leite Longa Vida (ABLV), Almir Meireles, contesta as informações dizendo que a competitividade é o termômetro do mercado. "Os empresários precisam definir os preços de acordo com as leis de cada praça, fazendo a conta pela média. Em alguns mercados ele ganha e em outros ele perde", destaca. "A oferta também estabelece o preço. Em momentos de escassez já chegamos a vender o litro por R$ 1,80", completa.
Adleite estimula consumo do tipo C em Alagoas
Diante da forte concorrência, da queda de preços e da perda de espaço para o leite longa vida, os produtores de leite tipo C em Alagoas se organizaram em uma associação e começam a traçar uma estratégia para aumentar o consumo desse tipo de leite pasteurizado e de seus derivados no mercado local.
O leite tipo C é processado manualmente, diferente do tipo B, que conta com tanques mecanizados, e do A, produzido apenas pela alagoana Fazenda Boa Sorte, e que dispensa todo e qualquer contato humano.
A recém-criada Associação dos Dirigentes das Usinas de Beneficiamento de Leite de Alagoas (Adleite) é formada por dez laticínios de diversas regiões que compõem a bacia leiteira do Estado e vai empreender ações para disputar o mercado com produtos longa vida. Marcas como Batalha, Pajuçara, Campo Verde, Ouro Branco e Duvala vêm sofrendo forte pressão no mercado e perdendo consumidores mesmo tendo preços bem mais baixos que o leite longa vida e o leite em pó.
Para o presidente da Adleite, Antônio de Pádua, é preciso medidas rápidas e agressivas para que os fabricantes de leite tipo C retomem sua posição no mercado consumidor, "o leite tipo C está praticamente em vias de entrar em extinção no mercado por causa do longa vida, que está colocando a nossa bacia leiteira numa situação bastante difícil", observa.
Comercializado principalmente em supermercados de bairro, padarias e mercearias, o produto será o foco de uma campanha de incentivo ao consumo. A bandeira dos fabricantes para conquistar adesão das pessoas vai se basear no argumento de que o leite tipo C é mais fresco e mais saudável que o produto em caixinha ou em pó. Tudo isso como forma de combater o grande vilão da história, que é a durabilidade na conservação do produto. "Vamos combater isso mostrando ao consumidor que nosso produto dura menos porque é natural. E, além disso, muito mais barato", explica Pádua.
A unificação dos laticínios é o grande trunfo da associação, uma vez que os pequenos fabricantes de manteiga, queijo, leite e bebidas lácteas deixaram de ser concorrentes para formar uma espécie de cooperativa. O plano deu tão certo que em apenas dois meses a associação já passou a comprar leite de terceiros.
O foco da campanha para aumento de consumo serão as padarias, mercearias e supermercados de bairro, que recebem diariamente cerca de 30 mil litros de leite dessas pequenas indústrias. Os produtores pretendem investir em divulgação na mídia, cartazes, folhetos e promoção de degustação em supermercados. "Antes era cada um por si e isso seria praticamente impossível de ser realizado", observa o presidente da associação.
O presidente da Cooperativa dos Produtores de Leite de Alagoas (CPLA), Ricardo Barbosa, aposta no incremento do consumo do leite tipo C nos próximos meses devido ao fechamento de contrato das pequenas fábricas para o fornecimento na merenda escolar.
Outro ponto que deve impulsionar o aumento da produção desses laticínios é o fato de eles estarem pagando o preço mais alto que as indústrias de grande porte. "Os produtores de leite de Alagoas estão empreendendo uma verdadeira corrida às fabriquetas e isso faz com que elas se tornem mais fortes no mercado", observa.
Fonte: Gazeta Mercantil (por A. Guarda), adaptado por Equipe MilkPoint
Leite pasteurizado perde espaço nas gôndolas nordestinas
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