Outras indústrias estão trabalhando com estoques elevados, como a Cooperativa Central Agropecuária Sudoeste Ltda. (Sudcoop), de Medianeira, na região Oeste, que mantém armazenados perto de nove milhões de litros, o correspondente a 15 dias de produção e três vezes o tamanho de seu estoque no mesmo período do ano passado, calculado em três milhões de litros.
A situação do setor se agravou em janeiro em todo o País, mas principalmente no Paraná, segundo levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP). A pesquisa do Cepea, feita em seis Estados, revelou que o Paraná registrou queda de 26,9% nos preços pagos ao produtor pelo leite tipo "C" na primeira quinzena de janeiro, em comparação com dezembro. Foi a maior redução. Em todas as demais regiões a diminuição foi menor: -1,6% em Goiás, -1,5% na Bahia, -4% no Rio Grande do Sul, -4,4% em Minas Gerais, -2% em São José dos Campos, -5,5% em São José do Rio Preto, e -2% em Ribeirão Preto e em Franca - todos estes quatro municípios no Estado de São Paulo.

Mas a queda dos preços nos últimos meses não é tão grande, de acordo com levantamento do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab). No Paraná, o órgão registrou valores médios ao produtor de R$ 0,31 em agosto, R$ 0,36 em setembro, R$ 0,34 em outubro, R$ 0,31 em novembro, R$ 0,28 em dezembro e R$ 0,31 em janeiro, segundo informa Vera Zardo, agrônoma do Deral em Curitiba. A queda dos preços do leite "C" no varejo no mesmo período, no entanto, é acentuada: R$ 0,91 em agosto, R$ 0,87 em setembro, R$ 82 em outubro, R$ 0,71 em novembro e R$ 0,73 em dezembro.
Houve nesse período a redução tradicional no consumo, mudança comumente ocorrida no verão, que coincide ainda com o pico da safra, que permite uma elevação da produção. O Paraná foi prejudicado neste ano, além dos tradicionais fatores que provocam a redução dos preços, pela excepcional safra de leite de Goiás, que foi comercializada em todo o Centro-Oeste e até no Paraná, segundo informa Elias Zydek, diretor executivo da Sudcoop, ao comentar o excedente de oferta deste período. A alta produção também foi garantida pela boa quantidade de chuvas, que deram condições para melhorar as pastagens e garantir grande volume de massa verde para o consumo animal, segundo observa Vera Zardo.
O preço médio ao produtor de R$ 0,30, em 2000, foi o melhor dos últimos três anos. Em 98, o pecuarista recebeu R$ 0,23 e, em 99, R$ 0,24. Os valores pagos ao leite subiram depois da estiagem e das intensas geadas que castigaram os pastos paranaenses ao longo do ano passado. Os preços aumentaram em média 10%, mas o incremento foi logo perdido nos meses subsequentes.
A Sudcoop informa que o preço do longa vida baixou no varejo de R$ 1,38, no inverno passado, para os atuais R$ 0,68, uma diminuição de 56%. No mesmo período, o valor pago ao produtor caiu de R$ 0,39 para R$ 0,25, o equivalente a quase 36%. No levantamento da cooperativa, o leite tipo "C" reduziu 31,57%, saindo dos R$ 0,95 praticado na metade de 2000 para os R$ 0,65 de hoje.
"A expectativa do setor é de uma recuperação dos preços a partir de fevereiro. Mas acredita-se que não será nada acentuado", prevê Nelson Costa, gerente técnico e econômico do Sindicato e Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar). Atualmente, segundo a Ocepar, o custo de produção está variando entre R$ 0,22 e R$ 0,28 o litro, dependendo do nível de tecnologia empregado. "Receber abaixo de R$ 0,30 é prejuízo", discorda Oliveira.
Representando 4,5% (R$ 483 milhões) do valor bruto da produção agropecuária paranaense, calculada pelo Deral em R$ 10,73 bilhões, o leite deve continuar a ter importante papel na economia estadual, mesmo diante da atual crise. "Por causa da recuperação da massa salarial e uma expectativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 4,5%, acreditamos num aumento de 6% no consumo nacional de leite e derivados", estima Zydek, da Sudcoop.
Por Newton Chagas, para Gazeta Mercantil, 22/01/01