Laticínios resgatam entrega domiciliar no Nordeste

Publicado por: MilkPoint

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A última reportagem da série, editada pela Gazeta Mercantil, sobre o leite na região Nordeste, mostra que criatividade e qualidade são armas poderosas para reagir à crise. Clique nas datas desejadas para ver as reportagens anteriores - 21/03/02 e 22/03/02 e 25/03/02.

Dois laticínios nordestinos estão recorrendo a práticas do passado para avançar num segmento cada vez mais dominado por grandes empresas e pela alta tecnologia. A estratégia envolve não só explorar os benefícios do leite fresco sem conservantes, como resgatar a entrega do produto em domicílio.

Diferentemente do leite longa vida e do leite tipo C, o processo de fabricação do leite tipo A requer cuidados especiais, como, por exemplo, não comprar leite de terceiros, sendo necessário que o laticínio tenha seu próprio rebanho. Uma outra exigência é que todo o processo seja mecanizado (principalmente a ordenha), sem qualquer contato humano até o leite ser empacotado.

Apesar de todas as suas qualidades há uma característica que acaba pesando no quesito comodidade: a perecibilidade. A validade do leite é de até cinco dias, o que torna o longa vida um forte concorrente.

Esse problema foi contornado pelas empresas de forma criativa. "Como quem mora nas cidades não pode ir até à fazenda para tomar o leite fresquinho saído da vaca, e como ninguém quer estar indo ao supermercado todos os dias comprar o produto, nós resolvemos ir até o consumidor com o nosso serviço de entrega diária", explica a diretora de marketing da Boa Sorte, Themis Vilela. A mesma estratégia foi adotada pela Villa Rial, em Salvador.

O pioneirismo neste mercado coube à Boa Sorte, que, em 1996, deu início à sua produção. Localizada no município de Viçosa, a 81 km de Maceió, a empresa conquista cada vez mais consumidores utilizando a estratégia de explorar os benefícios da pureza de seu produto, um leite fresco, sem conservantes nem aditivos químicos, que conserva vivos os lactobacilos, normalmente destruídos na fabricação do longa vida.

Apesar de mais caro e com um custo de produção 50% maior do que os leites tradicionais, o leite tipo A tem a seu favor a higiene e a preservação das substâncias benéficas. E foram exatamente essas as armas das duas empresas para derrubar os entraves na introdução de um produto completamente desconhecido pelo mercado nordestino.

Segundo Themis Vilela, o grande diferencial é vender qualidade de vida e não apenas uma mercadoria. "Inicialmente isso parecia restringir bastante o nosso nicho, mas acabamos encontrando um perfil de consumidor diferenciado e muito fiel à marca", observa a diretora de marketing.

A Villa Rial, que iniciou suas atividades em dezembro de 2000, também focou seu negócio na idéia de restaurar valores antigos de relacionamento com o cliente, fugindo ao mesmo tempo dos riscos em relação ao transporte e acondicionamento da mercadoria por parte de terceiros. O diretor do empreendimento, José Rial Filho, diz que sua empresa, instalada em Cachoeira, a 109 Km de Salvador, conta hoje com uma carteira de 7 mil clientes na capital baiana, número que deve dobrar até agosto deste ano, atingindo a capacidade plena de produção da fazenda. "Acreditamos que há potencial para atendimento a 20 mil famílias, mas estamos nos concentrado na meta de atender a 12 mil", explica.

O litro é vendido a R$ 1,40 nas versões integral e desnatado. A empresa também produz queijos e iogurtes de vários sabores. Os produtos são entregues três vezes por semana nas residências e o pagamento é feito através de boleto mensal. O cliente pode alterar sua cota fixa de produtos ou pedir a suspensão da entrega a qualquer momento através do serviço 0800.

Para garantir agilidade na entrega, a empresa conta com um centro de distribuição situado no bairro de Itapuã, em Salvador. Além dos clientes residenciais, atende a delicatessens e hotéis cinco estrelas.

Um dos principais obstáculos à expansão da Boa Sorte e da Villa Rial é a dificuldade do consumidor em distinguir o leite tipo A dos tipos C, B e longa vida. A estratégia para derrubar essa dúvida baseou-se não em explicações técnicas, mas na construção da imagem do produto como algo de qualidade indiscutível, associando-o a um estilo de vida.

Desta forma, além das campanhas e das degustações em locais estratégicos como escolas, academias, universidades e shoppings centers, as empresas trabalharam no sentido de atrair o consumidor para suas instalações. "Passamos a convidar o cliente para acompanhar todo o nosso processo produtivo na fazenda para que ele próprio pudesse perceber o cuidado, a higiene e a alta tecnologia utilizada, as quais eram a nossa maior propaganda", diz Themis Vilela, da Boa Sorte. A previsão da empresa é passar de um processamento diário de 6,5 mil litros para 10 mil litros (a capacidade máxima) até metade do ano que vem.

A Villa Rial fez o mesmo para ganhar a fidelidade do público. A empresa instalou em sua propriedade um hotel fazenda com 40 apartamentos com o principal objetivo de fazer com que o público conheça o processo produtivo e o leite fabricado no local. "Quando o leite é de qualidade, o ganho de valor agregado pertence ao produtor e não ao laticinista", comemora Rial.

O projeto do empreendimento nasceu, conforme explica Rial, a partir da concepção de que o leite é o alimento mais completo à disposição do homem e que, apesar disso, não tem o seu potencial devidamente explorado. "A falta de qualidade do leite brasileiro tem gerado perda nutricional e de sabor, levando o País a se transformar no grande paraíso para as indústrias de laticínios", critica.

Na avaliação dele, o interesse na comercialização de derivados tem levado o leite a funcionar como "mera âncora de marcas", afastando o consumidor do produto. "O hábito de consumo do leite puro vem desaparecendo diante do incentivo ao produto aromatizado, vitaminado, achocolatado e outros, que fazem com que a indústria de alimentos progrida enquanto o produtor de leite decai e se transforma em refém das indústrias", conclui.

Metade da produção não é inspecionada

A qualidade do leite produzido no Nordeste é hoje uma das principais preocupações dos governos estaduais. A difícil concorrência com as indústrias do setor motivou um retrocesso na atividade leiteira da região. Estimativas apontam que a produção informal foi a que mais cresceu na última década, registrando incremento de 197%. Já a venda inspecionada (com controle do Ministério da Agricultura ou secretarias estaduais) foi ampliada em apenas 7,5% no período analisado.

Para inibir o avanço da clandestinidade algumas iniciativas surgem na Região, como o Laboratório de Análises de Rebanhos Leiteiros (Pernambuco) e o Núcleo Nordeste de Apoio à Pesquisa e Transferência de Tecnologia em Pecuária de Leite, em Salvador. No ano passado, 50% do leite produzido no Nordeste não passou por nenhuma fiscalização, sendo consumido in natura (cru) ou destinado à produção de derivados.

Contaminação

A professora do Departamento de Medicina Veterinária da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Maria José de Sena, diz que o País vai precisar de pelo menos mais dez anos para atingir um padrão satisfatório de qualidade. "O Brasil produz hoje um leite com alto grau de contaminação, colocando em risco a saúde da população", diz Maria José, alertando que é comum encontrar microorganismos nas análises do leite nordestino. O clima da Região, favorece a proliferação dessas bactérias, que diminuem o valor nutritivo do leite e podem provocar intoxicação alimentar.

Apesar de conhecer os riscos do consumo do leite cru, o produto tem um forte apelo junto à população carente: custa 30% menos que o pasteurizado e 60% que o longa vida.

Núcleo de apoio ao setor vai atender a produtores da Região

O processo de apoio tecnológico para a produção leiteira do Nordeste registra importante avanço com a instalação, em Salvador, do Núcleo Nordeste de Apoio à Pesquisa e Transferência de Tecnologia em Pecuária de Leite. A entidade funciona desde 1o de março na sede da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb) e tem a participação dos setores público e privado.

O objetivo da unidade é facilitar o acesso dos produtores às tecnologias mais avançadas do setor, melhorando a eficiência da atividade e assim aproximando o desempenho do Nordeste daquele alcançado por tradicionais pólos produtores, como Minas Gerais e São Paulo.

O trabalho da entidade vai contemplar todas as etapas de produção, desde a parte de manejo de gado e pastagens até os cuidados com alimentação e melhoramento genético. O Núcleo, que, por enquanto, funciona de forma extra-oficial, deve ser inaugurado no final de março com a assinatura de um protocolo entre a Secretaria de Agricultura do Estado, a Faeb e a Embrapa Gado de Leite, sediada em Juiz de Fora (MG) e considerada centro de excelência na atividade. Um grupo de pesquisadores da instituição dará apoio ao trabalho desenvolvido.

De acordo com o presidente da Faeb, João Martins, o plano de ação do Núcleo, desenhado em conjunto com a Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA), prevê a realização, nesta fase inicial, de um trabalho junto a 30 propriedades situadas em seis regiões da Bahia. Técnicos da Embrapa vão discutir ações com os produtores visando alcançar maior eficiência e competitividade.

De forma paralela, serão realizados testes relacionados a aspectos como a introdução de alguns tipos de gramíneas, capazes de sustentar o rebanho durante o ano todo, evitando assim o problema da sazonalidade da produção. "Só numa segunda etapa estas iniciativas serão estendidas para os outros estados nordestinos", explica Martins.

A idéia, segundo ele, é montar espécies de vitrines de tecnologia do leite que sirvam como referência para os pecuaristas de toda a região. "Além de garantir eficiência temos que tornar a atividade menos vulnerável a interferências como as climáticas e também as políticas", diz o presidente da Faeb.

Responsável na área técnica pela implantação do Núcleo Nordeste, o engenheiro agrônomo da Embrapa, Carlos Alberto Santos, conta que a troca de informações entre a Embrapa Gado de Leite de Minas Gerais e instituições de outros estados já foi aplicada com sucesso em outros lugares. O trabalho será pautado pela aplicação dos conhecimentos acumulados pelo órgão à realidade do Nordeste.

Uma das preocupações dos técnicos é incentivar o desenvolvimento de áreas que reúnam condições ideais para a pecuária leiteira, de forma a impulsionar a qualidade na produção. "Queremos, por exemplo, aproveitar as características favoráveis das regiões úmidas, próximas ao litoral e onde antes existia Mata Atlântica", aponta Santos.

O pesquisador relata que a instalação do Núcleo Nordeste integra a estratégia de diversificação dos pólos produtores de leite no País, previsto desde a criação do Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Leite em 1976. Há três anos o órgão foi rebatizado para Embrapa Gado de Leite.

Laboratório para controlar qualidade

Pernambuco vai sediar o Laboratório de Análise de Rebanhos Leiteiros do Nordeste, que será instalado na Universidade Federal Rural de Pernambuco (URFPE). A iniciativa é parte da estratégia do Governo Federal de criar uma rede nacional de laboratórios para melhorar a qualidade do leite produzido no País. Atualmente, cinco já estão em funcionamento no Brasil: São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais e Goiás.

A construção do laboratório nordestino consumiu R$ 300 mil em investimentos e será necessário mais R$ 1,5 milhão para a aquisição de equipamentos importados da Alemanha e dos Estados Unidos. Na semana passada, o secretário de Produção Rural, André de Paula, e o presidente da Federação de Agricultura do Estado de Pernambuco (Faepe), Pio Guerra, entregaram ao vice-presidente da República, Marco Maciel, e ao ministro da Agricultura, Marcus Vinícius Pratini de Moraes, o projeto executivo para a instalação do laboratório.

"Depois dessa audiência, o Governo Federal deve liberar os aportes para dar início à compra de equipamentos", observa o coordenador do laboratório em Pernambuco, Severino Benone. A expectativa é que a construção seja concluída em abril e a inauguração aconteça ainda no primeiro semestre.

O laboratório de rebanhos leiteiros terá área de 360 metros quadrados e vai funcionar em sintonia com o laboratório de nutrição animal, que vai fazer pesquisas sobre a alimentação de várias espécies e também está em fase de construção.

Segundo Benone, o objetivo é atender às exigências da resolução 56 do Ministério da Agricultura, que vai intensificar as exigências no controle de qualidade do leite pelas indústrias. "Com esse projeto, ganham o consumidor e o produtor. Será uma maneira de forçar os pequenos pecuaristas a aumentar os cuidados em toda a cadeia produtiva, antes de fornecer o leite para as indústrias. Isso sem falar no aumento das chances de conseguir financiamento, a fim de profissionalizar a produção", destaca o coordenador.

Benone adianta que o laboratório nordestino será um dos mais bem equipados do Brasil. Para se ter uma idéia, o espaço terá capacidade para realizar de 150 a 300 amostras de produto por hora. "É verdade que, num primeiro momento, essa capacidade vai ficar ociosa, mas com a divulgação do programa em todo o Nordeste essa lacuna vai ser preenchida rapidamente", acredita.

Apesar da tradição no consumo de leite cru e queijo de coalho na Região, boa parte da produção regional está fora dos padrões de higiene. Análises realizadas pela secretaria estadual de Agricultura em municípios do Agreste pernambucano apontaram para a existência de resultado positivo para a Salmonella, quando é exigida ausência em cada 25 gramas de amostra. Também foram encontrados resultados acima da média para coliformes fecais e Staphylococcus aureus.

Fonte: Gazeta Mercantil (por Adriana Guarda e Mariana Carneiro), adaptado por Equipe MilkPoint
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