MKP: O que é a Minas Leite?
JAS: No final de 2003, iniciamos uma organização de cooperativas (10, inicialmente), como um grupo para troca de idéias e informações sobre o setor. Durante o desenvolvimento, algumas cooperativas acabaram sucumbindo, sendo que outras se integraram na organização. A consolidação ocorreu, oficialmente, no final de 2004, quando foi criada a Associação das Cooperativas de Leite no Sudoeste Mineiro - Minas Leite. Atualmente, 13 cooperativas e uma associação fazem parte da Associação. Estas entidades reúnem por volta de 6.000 produtores de leite, dos quais 80% produzem menos de 250 litros/dia, dirigindo uma grande responsabilidade para o grupo de criar meios de fazer com que estes produtores participem do mercado com competitividade.
MKP: Qual é a estrutura administrativa?
JAS: A Associação é composta por um presidente, um diretor/tesoureiro e um secretário (Diretoria Executiva), cujos integrantes são eleitos segundo regulamenta o Estatuto Social da entidade. O presidente é o Luiz Fernando César Siqueira (presidente da Cooperativa Regional dos Produtores de Leite de Serrania - Corples). O tesoureiro é Cesomar Passos de Oliveira (presidente da Cooperativa dos Ruralistas de Alpinópolis - Cooral) e o secretário é Paulo Calixto (Apromeg, Associação dos Produtores de Leite do Médio Rio Grande). A Apromeg é a única associação de produtores dentro do grupo. A gestão operacional da Associação fica a cargo de profissionais contratados, com foco em resultados.
MKP: Em que contexto surgiu a Associação? Qual o volume atual de leite comercializado?
JAS: Nesse grupo inicial de cooperativas (final de 2003), existiam alguns dirigentes que já apostavam na idéia de que a união seria o caminho, mas nem todos sabiam como fazer isso [união]. Eu e o Luis Antônio Ribeiro Leite tivemos um contato com o Fábio Chaddad (atualmente professor da Universidade de Missouri, nos EUA, especializado em cooperativismo leiteiro), em 2002, e conversamos a respeito, de maneira informal. Em outubro de 2003, é feito em nossa região um seminário sobre a organização das cadeias produtivas da região Sudoeste de MG, organizado pela Adebras (Agência de Desenvolvimento Sustentável do Sudoeste Mineiro) e pelo Sebrae Minas (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas). Entre os setores contemplados pelas análises e discussões no Seminário encontrava-se o setor leite. Cientes disso, solicitamos ao palestrante Roberto Jank a possibilidade de direcionar a palestra, nesse momento, para a unificação das cooperativas, auxiliando na idéia já existente, direcionando-a, portanto, para essa questão.
O Sebrae disponibilizou os serviços de consultoria, durante três anos, visando a organização e o desenvolvimento do nosso grupo [de cooperativas]. Desde então, firmaram-se reuniões para definir quais seriam as prioridades do setor, segundo a interpretação do grupo, sendo elencados 11 itens e escolhidos 3 prioritários: organização da cadeia e da captação; capacitação técnica e gerencial dos dirigentes, dos assistentes técnicos e dos cooperados; e marketing institucional, não se deixando de lado, em todos os aspectos e abordagens, o fortalecimento do cooperativismo. Quanto aos itens restantes, deliberou-se que fossem abordados e efetivados com o desenvolvimento do grupo e dos trabalhos, estando, entre eles, a fusão das operações das cooperativas. Nesse período, o consultor (Marcos Ramos) disponibilizado pelo Sebrae, agendava e conduzia os encontros mensais de dirigentes, de maneira que todos pudessem conhecer as estruturas operacionais de todas as cooperativas participantes do grupo (à época no total de 10 cooperativas).
É interessante ressaltar que, nessa época, o dirigente de uma cooperativa não conhecia e não mantinha contato com o dirigente da cooperativa vizinha. Essa troca de experiências foi consolidando o sentimento de confiança de um dirigente para com o outro. Obviamente que ocorreram muitos conflitos nesse período, discutidos durante as reuniões, na presença do mediador e de representantes daquelas cooperativas que não se encontravam, pontualmente, naquele conflito, sedimentando as relações e consolidando a coesão do grupo.
No final de 2004, chegamos à decisão de que chegara o momento de formalizar a relação existente e começar a decidir e agir efetivamente enquanto grupo, decidindo-se pela constituição da Associação. Já no início de 2005 dá-se a comercialização conjunta do leite cru. Atualmente, o volume de leite captado está entre 1 e 1,2 milhão de litros por dia, em média.
MKP: Para quem vai o leite?
JAS: Fornecemos leite para várias indústrias, sendo que 80% do volume captado fica em MG e o restante (20%) destinado ao mercado de SP, já que nossa região não dispõe de indústrias suficientes para processar todo o volume. Pela proximidade, sempre estivemos ligados ao estado de SP, sendo este, também, o maior mercado consumidor.
MKP: A Minas Leite tem contrato para venda de leite, ou comercializa toda a produção no mercado Spot?
JAS: Grande parte do leite é vendida com contrato, com preço definido a partir da indexação com indicadores de mercado, especificamente os índices Cepea-MG e Conseleite-PR, como bases de alimentação da fórmula que define o preço pago às cooperativas associadas. Os contratos são anuais, com volumes de entrega pré-definidos, sendo que o preço varia, mês a mês, de acordo com esses índices. O volume excedente daquele fixado em contrato é negociado no mercado spot, quinzenalmente. Todas as cooperativas associadas recebem o mesmo valor pelo leite entregue, sendo que o pagamento ao produtor pode variar de acordo com a qualidade da matéria-prima e por políticas definidas pela própria gestão de cada cooperativa.
Contudo, gostaria de destacar que, na nossa visão, esse modo de pagamento não é o melhor. Nós deveríamos atrelar o pagamento com o produto acabado (derivados), para o qual nós fornecemos a matéria-prima. Porém, esse tipo de pagamento ainda não é muito difundido no mercado.
MKP: Vocês têm informação a respeito de quanto a Minas Leite consegue agregar no valor do litro de leite ao produtor?
JAS: Podemos afirmar que, com a Minas Leite, o preço pago ao produtor, em relação ao preço Cepea-MG, cresceu percentualmente, mostrando que nós remuneramos melhor o produtor. Essa melhora se deu em função das cooperativas associadas terem reduzido o valor retido por litro de leite devido aos custos administrativos e operacionais que hoje são menores, e que ainda têm como ser reduzidos, refletindo em maior preço repassado ao produtor.
MKP: Quais as perspectivas de aumento na captação de leite das cooperativas da Minas Leite?
JAS: A idéia é nos consolidarmos enquanto grupo ainda mais, buscar a profissionalização das cooperativas e melhorarmos cada vez mais o que fazemos. Estamos dispostos a ajudar outros grupos com a mesma iniciativa da Minas Leite e, futuramente, esses grupos se unirem, aumentando o volume captado em mais regiões. As cooperativas precisam se unir, essa é uma tendência do mundo todo, ganhando competitividade.
MKP: Há planos de industrialização, ou vocês entendem que a reunião de grande volume de leite já é suficiente para garantir boa remuneração?
JAS: Nós temos que seguir cada fase. Temos que ser extremamente competentes na captação, do produtor até a indústria. Depois de dominados os desafios dessa etapa, aí sim poderemos dar outro passo. Nós precisamos ter a consciência de que nós não vamos industrializar todo nosso leite, as empresas processadoras precisam ser abastecidas e que nós podemos ser importantes e fundamentais parceiros dessas indústrias. Um exemplo disso seria a DFA - Dairy Farmers of America (maior cooperativa de lácteos dos Estados Unidos), que capta quase 30 bilhões de litros por ano - mais do que a produção brasileira - dos quais 50% são fornecidos para empresas que processam o leite.
Nós temos que dar um passo de cada vez. Precisamos melhorar a capacitação técnica e gerencial dos nossos produtores; isso é primordial para que, além de fazermos nosso trabalho bem feito, possamos dar respaldo ao nosso produtor. Profissionalizando o setor de produção, conseqüentemente haverá o aumento do volume, aumentando a competitividade do setor.
Contudo, a Lei que regulamenta o cooperativismo no Brasil coloca alguns impedimentos, os quais nos impossibilitam de evoluir. Por exemplo, firmar parcerias com empresas não cooperativas, do setor ou mesmo fora do setor. Entretanto, cabe a nós fortalecermos, também, os aspectos que nos leve a ter maior representatividade e influência na fixação das regulamentações.
MKP: Como você vê o atual momento de mercado (queda de preços em MG e GO)?
JAS: Fazer uma análise pontual do mercado é algo bastante complexo. O mercado de leite é muito dinâmico. Falando do mercado de Minas Gerais, no qual atuo e, portanto, tenho mais conhecimento, vivemos um momento em que a produção nacional está alta, em relação ao ano passado - apesar de que já houve volumes maiores do que esse. Informações de mercado indicam queda do consumo de lácteos, embora não acredite muito nisso. O ponto mais relevante, a meu ver, é essa guerra fiscal entre os estados, que num momento prejudica um estado, em outro momento prejudica outro. Isso se passa em todos os setores, porém é visto com mais nitidez e rapidez no setor do leite devido ao fato do leite ser um produto perecível e que precisa de destino imediato, não podendo 'ficar para amanhã'. Minha opinião é que a guerra fiscal entre os estados é que está impactando o mercado. Porém, ao longo do tempo, o mercado deve se acomodar e ficar em patamares próximos ao do ano passado, apesar dos custos de produção estarem em elevação constante.
MKP: As mudanças no ICMS em MG e SP afetaram os preços recebidos pela Minas Leite?
JAS: Na verdade, nós [Minas leite] fizemos uma "preparação" para esse fato, colocando o leite dentro do estado, em indústrias de MG, evitando a saída para SP. Também procuramos parcerias para trazer indústrias para MG; exemplo disso é a construção da fábrica de alimentos Nilza, em Alfenas, como também o comportamento de outras empresas como a Perdigão que adquiriu a mineira Cotochés. Contudo, apesar dessas indústrias estarem vindo para MG, existe a dificuldade de mandarem o produto acabado para SP, devido à guerra fiscal. Nós conseguimos minimizar o problema, mas a grande maioria das empresas não fez isso, o que acabou impactando no estado e, por conseqüência, em nossos associados. Agora, essa guerra fiscal não está só entre MG e SP. Já vemos o PR e GO tendo reações e isso acaba impactando em MG, por ser o maior estado produtor e exportador de leite (consumimos 30% do nosso leite). Minas é o estado mais afetado com essa guerra fiscal.
MKP: Quais são as perspectivas para o mercado de leite nos próximos meses, em sua opinião?
JAS: Eu acredito que o mercado tende à estabilidade, porque se não acontecer isso, o desestímulo do produtor deve ser grande, por conta dos custos de produção e do momento que o setor de carne atravessa, este que tem íntima relação com o setor leiteiro. Os atores dessa cadeia devem ter muita sensibilidade e responsabilidade nas ações tomadas nos próximos meses, pois isso pode causar problemas futuros muito maiores do que aqueles que possamos prever.
