Por Roberto Amaral1
Resumo
Neste trabalho, apresentamos um breve histórico da industrialização do leite no Estado de Alagoas, destacando a ação empreendedora de homens que fizeram da adversidade uma condição imediata para a mudança na linha de desenvolvimento de nossa região, especificamente no semi-árido alagoano. Apresentamos também ilustrações dos momentos históricos na inspiração de escritores expoentes que conheceram de perto nossa realidade, a exemplo de Graciliano Ramos, que inclusive foi prefeito de Palmeira dos Índios/AL. Numa seqüência cuja formação das bases foram iniciadas no início do século XX, por Delmiro Gouveia, descrevemos o importantíssimo papel desempenhado pela família Amaral até chegarmos na moderna indústria alagoana, que é destaque no cenário da indústria leiteira nacional. Damos ênfase também às importantes conquistas desse setor industrial que é o de melhor qualidade no Nordeste brasileiro, que usa tecnologia de ponta e que recebeu o reconhecimento da crítica especializada.
INDÚSTRIA LEITEIRA EM ALAGOAS
1. Antecedentes Históricos
A Indústria Leiteira Alagoana, que hoje é destaque no cenário nacional, teve na formação de suas bases e no seu processo histórico uma coleção de ações empreendedoras, as quais foram executadas por homens regionalistas e compromissados com o desenvolvimento regional. Suas iniciativas foram revolucionárias para as respectivas épocas e são grandes exemplos para nossas gerações. Isto porque, dentro de uma condição política, econômica, geográfica e social bastante adversa, vivida no nosso semi-árido, tudo conspirava contra o sucesso.
Na busca do desenvolvimento e da auto sustentabilidade na Região Nordeste, Delmiro Gouveia não poupou esforços na procura incansável de caminhos que promovessem o desenvolvimento local. Em uma de suas viagens ao Estado do Texas, na América do Norte, início do século XX, trouxe as primeiras sementes de palma forrageira que hoje, após vários aprimoramentos genéticos e tecnológicos, é o alimento mais estratégico de nossa pecuária leiteira.
"São plantas da família das cactáceas, que se constituem em importantíssimas forrageiras para as regiões áridas e semi-áridas do Nordeste brasileiro, dada sua rusticidade e resistência à seca. A [...] palma gigante, ou graúda, ou azeda, ou ainda santa, é a mais produtiva de todas. A [...] palma redonda, apresenta grandes rendimentos de um material mais tenro e palatável que a anterior. Finalmente, a terceira é a chamada palma doce ou miúda. Das três, é a mais nutritiva e apreciada pelo gado, porém a que menor resistência à seca tem apresentado." (PUPO, 1979, p. 250).
O uso da palma forrageira, como alimento de nossos animais, crescia na proporção que novos pecuaristas eram influenciados por outros, e também por técnicos que orientavam sobre o manejo correto. Ao passo que traziam inovações tecnológicas à medida que as pesquisas eram desenvolvidas.
Já nos anos sessenta emergia outro nome que depois se tornou o maior símbolo da exploração de leite do Nordeste e um dos maiores ícones da pecuária leiteira nacional. O nome de Mair Amaral ficou registrado na história do desenvolvimento agropecuário alagoano e está intrinsecamente ligado ao melhoramento genético de nosso rebanho leiteiro, à produção em escala e à industrialização.
1.1 A Seca de 1970
O ano de 1970 foi o ápice de um ciclo terrivelmente seco que assolou nosso Nordeste, provocou legiões incontáveis de retirantes pelas ruas dos centros urbanos e que resultou em muitas mortes de animais e seres humanos. Como também contribuiu para a formação de uma geração raquítica de homens, vitimada pela desnutrição e pelas suas seqüelas irreparáveis. Um quadro muito bem identificado com o poema Morte e Vida Severina, do escritor pernambucano João Cabral de Mello Neto. Foi exatamente naquele ano onde a arte do escritor alagoano Graciliano Ramos, no livro Vidas Secas, foi mais bem retratada e identificada com nossa dura realidade.
"A caatinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas. O vôo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos. - Anda, excomungado. O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou mata-lo. Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário - e a obstinação da criança irritava-o. Certamente este obstáculo miúdo não era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde." (GRACILIANO RAMOS, 1975, p. 10).
Porém, ainda no ano de 1970, regionalista relutante, o pecuarista Mair Amaral ordenhava suas vacas de leite e era o responsável por uma incrível produção de dez mil litros por dia. Ocasião em que, com a atividade leiteira, empregou e deu moradia a centenas de migrantes vítimas das conseqüências daquela grave seca e que não tinham nada para comer, chegavam padecendo na miséria com toda a família.
1.2 Paradigmas Avançados
Para se ter uma idéia da proeza de Mair Amaral, se ainda estivesse vivo e se esta mesma produção fosse hoje repetida, trinta e dois anos depois, ele seria o maior produtor de leite individual de todo Norte e Nordeste e ainda estaria entre os 20 maiores produtores de leite do Brasil. Em 2001, o seu filho Paulo Amaral, com uma produção individual de 7.000 litros de leite por dia, foi classificado pelo Site MilkPoint como o maior produtor do Norte e Nordeste. Como também, fruto daquela produtiva semente, toda família Amaral em Alagoas produz hoje 35.000 litros de leite por dia, e tem uma história moderna marcada por ações empreendedoras e auto-sustentáveis.
Na melhoria da qualidade genética de nossas espécies leiteiras, ele era um incansável pesquisador e por diversas vezes importou do sul do Brasil matrizes e reprodutores, de altas linhagens de origem européia, objetivando formar um cruzamento racial ideal para nosso semi-árido. Teve na raça holandesa sua principal preferência para a inserção de cargas genéticas altamente especializadas nos cruzamentos que programou para o seu rebanho.
"A holandesa [...] não encontra competidora como raça leiteira, pois não só é a maior produtora como produz leite mais economicamente. Por isso ela se tornou tão popular em quase todos os países do mundo. Em boas condições de criação, as vacas dão uma produção média de 4.452 Kg de leite por ano e os melhores rebanhos atingem 8.000 Kg com 250 Kg de manteiga." (TORRES; JARDIM; JARDIM, 1982, p. 18)
Muitas vezes este empreendedor recebeu críticas de reacionários que não enxergavam no mesmo alcance da visão de um homem que, pela criatividade, mudou para melhor o rumo da história agropecuária do sertão alagoano.
2. Anos 70, início da Industrialização do Leite em Alagoas
Após contatos e negociações com empresários pernambucanos, convenceu-os a instalar pioneiramente em Alagoas, mais precisamente na Fazenda Morros que ainda é de propriedade da família, uma filial da Indústria de Laticínios Santa Maria. Depois, resultante da evolução do processo de industrialização do leite em Alagoas, já na cidade de Batalha, instalou-se uma unidade de beneficiamento do Leite Nordeste, para depois surgir a CILA, Companhia Industrial de Laticínios de Alagoas, que era dirigida pelo seu tio Luiz Amaral. Em seguida, a CILA passou por um processo de estatização e finalmente terminou na fundação, em 1980, da unidade industrial da CAMIL, Cooperativa Agropecuária de Major Izidoro Ltda. Cuja fábrica ainda é sediada na cidade de Batalha.
A CAMIL foi por muito tempo líder de vendas de leite tipo C no Estado de Alagoas. Produziu também muito leite em pó, manteiga, queijos, iogurte etc. Hoje, sua produção concentra-se na secagem de leite para comercialização em pó.
2.1 O Nascimento de Modernas Indústrias de Laticínios
Nos anos 80, pela melhoria da qualidade genética de nossos rebanhos, a produção de leite em Alagoas já tinha uma das maiores médias nacionais, conforme dados oficiais. A exposição de animais de Batalha integrava calendários internacionais de referência em gado de leite. Uma indústria de porte apenas, a CAMIL, não estava absorvendo a oferta de nosso leite, e grande parte da produção em Alagoas dependia de mercados industrias em Pernambuco, Bahia e Sergipe. Fato que resultava numa série de transtornos comerciais. Até que José de Azevedo Amaral, natural de Correntes, no Estado de Pernambuco, primo de Mair Amaral, decidiu montar mais uma indústria em Alagoas e equacionar os problemas comerciais de nossa produção. Atitude altamente louvável que resultou num Projeto SUDENE (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), que implantou a Indústria de Laticínios Palmeira dos Índios S/A (ILPISA). A qual nascia em 1985 naquele mesmo espírito empreendedor e na promessa de ser a nova redentora da pecuária leiteira alagoana.
"O país vai terminando a década de 80 com o setor de pecuária leiteira e de laticínios no mesmo estágio em que iniciou: altas importações de leite em pó e outros produtos lácteos; promessas do governo de recuperação dos preços do leite não cumpridas; filas de consumidores para comprar leite pasteurizado; queijarias pagando mais pela matéria-prima e tirando produtores das cooperativas; consumidores dependendo de um leite reidratado difícil de engolir. Por tudo isso, a existência de um setor especializado de pecuária leiteira, capaz de atender à demanda nacional sem que o país tenha necessidade de gastar dólares com importações de produtos lácteos, permanece, ao final desta década, uma quimera." (MEIRELES, 1996, p. 35)
Inaugurada em 1987, na cidade de Palmeira dos Índios, manteve-se sob o comando acionário de José de Azevedo Amaral até o ano de 1990, quando então foi assumida pelo empresário Ricardo de Souza Leão Sampaio. Através dele foi inserida a Marca Valedourado nos produtos beneficiados até os dias de hoje.
Coincidentemente, Ricardo Sampaio, advindo da zona da mata e tradicionalmente comprometido com a cultura da cana-de-açúcar e a sua industrialização, já se encontrava inserido na industrialização de leite em Alagoas quando comprara, no final da década de oitenta, o Laticínio Alapenha Amaral, na cidade de Major Izidoro, o qual pertencia ao empreendedor Luiz Amaral. Fábrica que passou a ser denominada de Laticínios RS.
Em 1991, dois empresários que atuavam como distribuidores dos produtos ILPISA, Paulo e Daniel Domingos, inauguraram o Laticínio São Domingos, na cidade de União dos Palmares, e a partir de 1997 passaram a beneficiar um mix diversificado de lácteos, incluindo leite longa vida. Período em que, José Aprígio Brandão Vilela, na cidade de Viçosa, passava a empacotar leite pasteurizado tipo "A" de sua produção na modernizada Fazenda Boa Sorte.
2.2 A Evolução da Indústria Moderna
A ILPISA focou suas atividades iniciais no beneficiamento de leite tipo C, manteiga e queijo mussarela. A partir de 1992, dentro de uma visão global e enxergando uma tendência mundial, diversificou progressivamente sua produção, incluindo queijo prato, ricota, queijo soft (tipo desenvolvido na própria ILPISA), requeijão cremoso, bebida láctea achocolatada, iogurtes, bebidas lácteas com frutas, leite fermentado, leite longa vida, leite achocolatado esterilizado, leites enriquecidos, leite com frutas, iogurtes batidos, coalhadas, bebidas isotônicas, chás prontos para beber, suco tampico etc. Esta diversificação de produtos, no objetivo de atender a um mercado que entrava realmente num processo globalizado, foi fator decisivo para o sucesso da empresa. Até porque o governo federal já tinha dado sinais em vários momentos quanto à sua política leiteira para o Brasil.
"Nos últimos 15 anos, o governo federal fez três tentativas de formalizar e dotar o setor de pecuária leiteira e de laticínios de uma política global: em 1975, no governo Geisel; em 1980, no governo Figueiredo; e em 1986/87, no governo Sarney." (MEIRELES, 1996, p. 65).
Com apenas uma unidade industrial localizada na cidade de Palmeira dos Índios, unidade esta dirigida pelo Médico Veterinário Roberto Amaral de 1991 a 2000, que também era o responsável técnico pelo desenvolvimento dos produtos Valedourado, a empresa teve um crescimento espetacular no seu faturamento justamente em um período de crise setorial. A partir de um faturamento de 9,6 milhões em 1994, passou para um faturamento de 116 milhões em 2000.
No ano de 2000, adquiriu duas unidades industriais que pertenciam à multinacional Fleishmann & Royal, detentora do Leite Glória, sendo uma sediada no Estado da Bahia e outra em Minas Gerais, tornando-se o primeiro caso brasileiro em que uma indústria de laticínios nordestina adquiriu unidades estratégicas de empresas multinacionais.
A marca Valedourado, que nasceu no semi-árido alagoano, despontou no novo século como o 8o nome do leite nacional, segundo crítica especializada, motivo pelo qual recebeu premiação do Jornal Gazeta Mercantil, em São Paulo, além de ter sua área de qualidade contemplada com o cobiçado Prêmio Internacional de Qualidade Assegurada da Marbo Inc, Chicago, USA (Quality Assurance Award), em 2001. Título que na ocasião foi dado apenas a dez indústrias processadoras de Tampico nos quase sessenta países onde este produto é beneficiado.
Referências Bibliográficas
PUPO, N. J. H. Manual de Pastagens e Forrageiras. Campinas: Instituto Campineiro de Ensino Agrícola, 1979.
RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 34 ed. Rio de Janeiro: Record, 1975.
TORRES, A. P. ; JARDIM, W.R.; JARDIM, L. F. Manual de Zootecnia. 2 ed. São Paulo: Agronômica Ceres, 1982.
MASTELLONE, Pascual. El mundo de La Leche. Buenos Aires: Angel, 2000.
MEIRELES, Almir José. A Desrazão Laticinista. São Paulo: Cultura, 1996.
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1 Médico Veterinário e Gerente de Desenvolvimento e Qualidade da Valedourado/ILPISA
Indústria Leiteira em Alagoas - Sua história e conquistas
Publicado por: MilkPoint
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MilkPoint
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ALDA MARIA L. AMORIM
SÃO LUIZ DO QUITUNDE - ALAGOAS - ESTUDANTE
EM 12/10/2011
Parabens pelo artigo, o Nordeste é conhecido apenas pela seca que castiga nossa região, está na hora de mudarmos os conceitos e mostrar que Alagoas é muito mais. Empreender é necessario. Diversificar gerando qualidade e renda. Agregar desenvolvimento tecnológico aos conhecimentos específicos do setor reduzirá custos e garantirá melhores produtos. Alda Amorim - Contabilista - Alagoas

EDSON FELIX COSTA
GRAVATÁ - PERNAMBUCO - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS
EM 21/11/2002
É uma grande alegria ler a respeito de empreendimentos vitoriosos ocorridos no nordeste do Brasil.
Não há dúvida que a cadeia do leite é uma importante geradora de emprego e renda, principalmente no meio rural, que tanto necessita.
O exemplo de Alagoas vale para todo o Nordeste brasileiro e é um sinal de que a tenacidade do nosso povo, aliada ao desenvolvimento tecnológico, pode mudar a história de comunidades inteiras.
Parabéns, Roberto Amaral, pelo excelente artigo que retratou com tanta fidelidade o história de sucesso da cadeia produtiva do leite em seu Estado.
Desde o primeiro momento em que decidi ser produtor de leite, que tenho notícias do exemplo de sucesso da família Amaral na atividade, só não conhecia esse lado escritor dos Amaral que, de hoje por diante, passarei a respeitar, também, como intelectuais da cadeia do leite.
Edson Felix Costa,
Produtor de Leite - Pernambuco
Não há dúvida que a cadeia do leite é uma importante geradora de emprego e renda, principalmente no meio rural, que tanto necessita.
O exemplo de Alagoas vale para todo o Nordeste brasileiro e é um sinal de que a tenacidade do nosso povo, aliada ao desenvolvimento tecnológico, pode mudar a história de comunidades inteiras.
Parabéns, Roberto Amaral, pelo excelente artigo que retratou com tanta fidelidade o história de sucesso da cadeia produtiva do leite em seu Estado.
Desde o primeiro momento em que decidi ser produtor de leite, que tenho notícias do exemplo de sucesso da família Amaral na atividade, só não conhecia esse lado escritor dos Amaral que, de hoje por diante, passarei a respeitar, também, como intelectuais da cadeia do leite.
Edson Felix Costa,
Produtor de Leite - Pernambuco