Governo argentino fracassa nas negociações com os produtores e as indústrias de leite durante o protesto
As negociações que o governo da Argentina promoveu ontem para alcançar um acordo entre a indústria láctea e os produtores de leite não obtiveram resultados satisfatórios. O ministro da Produção, José Ignacio De Mendiguren, recebeu do Centro da Indústria Leiteira (CIL) uma dura crítica referente à fixação, por parte do Estado, de um preço de 20 centavos (US$ 0,095) pelo litro de leite aos produtores, bem como frente à ameaça de que os produtos lácteos sofreriam novos aumentos para o consumidor.
O presidente da CIL, Ricardo James, disse durante o encontro com De Mendigurem que as empresas hoje não podem pagar os 20 centavos que o Governo exige e, muito menos, os 24 centavos que os produtores estão reivindicando. Uma fonte que esteve presente no encontro, ocorrido no Ministério de Produção, informou que a reunião desenvolveu-se em um clima bastante pesado. O ministro, por sua vez, criticou James pela intransigência da indústria láctea em chegar a um acordo. Alguns empresários estiveram na semana passada muito próximos de chegar a um acordo com os produtores. Porém, agora essa possibilidade sofreu uma redução considerável.
Sem desabastecimento
Com relação à possibilidade de desabastecimento de leite, o subsecretário de Política Agropecuária e Alimentos, Roberto Domenech, informou que era improvável, uma vez que a Argentina produz 1,5 bilhão de litros por ano, como excedente. No entanto, Domenech, que participou das reuniões, admitiu a possibilidade dos valores dos produtos lácteos sofrerem aumentos devido ao protesto.
Já o governador de Buenos Aires, Felipe Solá, advertiu ontem que, se o protesto provocar um desabastecimento de leite, o governo da Província vai intervir como for possível para evitar esta situação. Neste sentido, Solá assegurou que, caso haja falta de leite nos programas materno-infantis da Província, haverá intervenção, uma vez que o governo não permitirá que falte leite nesses programas sociais.
"Nós não podemos permitir que nos falte leite", advertiu o governador de Buenos Aires. Apesar de Solá ter reconhecido a gravidade da crise pela qual a atividade leiteira da Argentina vem passando há alguns anos, ressaltou que o conflito dos produtores de leite é com o governo federal, de forma que "não haverá intervenção direta de uma política de regulamentação da Província. Digamos que não está ao nosso alcance fazê-lo", afirmou, referindo-se à solução dos problemas do setor.
O governador também afirmou que os preços que os produtores de leite estão recebendo pelo produto atualmente "não são rentáveis" e assegurou que não se pode produzir com os valores atuais, sobretudo porque a produção leiteira na Argentina "modificou-se completamente em 10 anos, e tem alta produção e altos custos."
Logo após a reunião com os representantes das indústrias, o ministro da Produção argentino reuniu-se com as entidades agropecuárias que representam os produtores, sem, no entanto, fornecer-lhes uma solução satisfatória. Os produtores, por sua vez, anunciaram ao ministro que, caso as negociações não consigam resultar no aumento na participação dos produtores no preço final do produto, de 14% para 35%, o protesto que supostamente terminaria amanhã poderia continuar.
Nos supermercados
Uma pesquisa feita pelo jornal argentino La Nación em diferentes supermercados do país mostrou que os valores do leite aumentaram cerca de 10 centavos (US$ 0,047), apesar de não ter sido observada escassez do produto. A reação dos consumidores foi bastante variada, havendo aqueles que aumentaram sua compra de leite importado e leite em pó, bem como outros que informaram não ter condições financeiras para bancar esse gasto a mais.
Situação limite
"As usinas não compram leite, roubam", disse um grupo de produtores de leite que participava do protesto, que se instalou em frente à empresa La Sereníssima. "Fornecemos matéria-prima, devemos ser formadores de preços", denunciou outro grupo.
O bloqueio das indústrias lácteas foi uma demonstração da unidade do setor primário frente a uma crise. A medida pretende prejudicar o desenvolvimento natural das fábricas e a comercialização de lácteos. A expectativa dos produtores é de que, frente ao desabastecimento, as indústrias concedam uma participação de 35% dos produtores no valor final dos produtos.
"O Estado tem que intervir em uma conciliação para evitar as posições dominantes. A indústria se equivocou. Seu sócio natural é o produtor, e não o supermercado. Os produtores têm que se apoiar e defender-se", disse Oscar Busquet, da Sociedade Rural de Bolívar.
Os produtores estão prevendo uma queda importante na produção de leite nos próximos meses, devido à menor disponibilidade de reservas de pasto para o inverno. Os produtores - que impedem a saída de leite na fábrica - enfatizaram a importância da produção leiteira para a região, pelo nível de empregos e pelo movimento econômico gerados pela atividade.
Vários produtores de leite participaram do protesto em frente a uma fábrica da La Sereníssima, a fim de bloquear a saída de caminhões com o produto processado. Os produtores informaram que, frente ao abandono em massa da produção de leite gerado pelo protesto, o único prejudicado será o mercado interno.
Imposto sobre vendas de produtos agropecuários e industriais será usado para financiar programas sociais
O ministro da Economia da Argentina, Jorge Remes Lenicov, anunciou ontem, no início da noite, a criação de imposto sobre as exportações agropecuárias e industriais, que será utilizado para financiar programas sociais. Segundo o ministro, as retenções serão de 10% sobre os produtos primários e de 5% para manufaturas de origem industrial e agropecuária. Os recursos serão destinados a programas de assistência social, distribuição de alimentos ou abertura de postos de trabalho temporário. O governo espera obter 1,4 bilhão de dólares com os fundos, que seriam administrados por organizações não-governamentais e pelo próprio governo argentino.
Lenicov mencionou que o imposto é provisório. Além disso, segundo o ministro, as empresas exportadoras não serão prejudicadas, uma vez que terão grandes benefícios com a desvalorização cambial.
Fonte: Correio do Povo/ RS, Folha Online e La Nación, adaptado por Equipe MilkPoint
Impasse no preço do leite argentino continua; país tributa as exportações
Publicado por: MilkPoint
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